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Brincar recomeçou nas ruas de Leiria e já chegou ao Reino Unido e à Alemanha

15 crianças com coletes luminosos, dois voluntários adultos e duas horas na rua para brincar ao que se quiser. Estes foram os os ingredientes que estiveram na base da criação do projeto Brincar de Rua, no bairro dos Capuchos, Leiria, em outubro do ano passado, e que agora se podem espalhar ao país. Mais: já está a arriscar saltar fronteiras.

Francisco Lontro, 37 anos, licenciado em Educação Especial e Reabilitação e coordenador deste projeto Brincar de Rua, tem agora um desafio pela frente: profissionalizar a associação que alberga este projeto que coloca as crianças de volta à rua, ao grupo e à criatividade por forma a conseguir responder à centena de pedidos que já recebeu de cidades de todo o país, mas também aos desejos internacionais.
Link_Maria“Recebemos 102 contactos de pessoas que manifestaram interesse no projeto, de norte a sul do país. Prevemos que em abril de 2018 o projeto arranque fora da nossa região; estamos a estudar a forma de o fazer, assegurando a qualidade dos grupos e o modelo de acompanhamento”, antecipa o coordenador ao Delas.pt.

Para lá das parcerias regionais em Leiria, Brincar de Rua está, refere o responsável, “a trabalhar com uma associação de referência do Reino Unido, que se interessou pelo modelo inovador que queremos cimentar (London Play) e com uma outra associação alemã (GEB)”.

“É no momento de aborrecimento que os miúdos começam a olhar para o meio envolvente”

“Neste usar e abusar de diagnósticos de hiperatividade e de défice de atenção, em que a relação de disciplina com os adultos é cada vez mais difícil, as crianças já não sabem como organizar um evento, um projeto e tudo isso vai manifestar-se quando forem mais velhos e precisarem de estar numa equipa de trabalho, de lidar com erro”, contextualiza o coordenador do Brincar na Rua.

Para Lontro, é preciso que as crianças saibam lidar com a frustração, a vitória, a derrota, o enfado e a criatividade. Estes são os vetores que o responsável quer potenciar nesta iniciativa que pretende trazer as crianças de volta à rua.

“Os voluntários não dão indicações nenhumas sobre quais as brincadeiras que o grupo vai escolher para aquelas duas horas, devem deixar as crianças encontrarem o que querem fazer e decidirem. E há uma curiosidade: quando há um momento morto no grupo e vemos os miúdos mais parados, achamos que [os adultos] devemos fazer qualquer coisa”, conta.

Lidar com a frustração e o aborrecimento e promover a criatividade são os objetivos desta iniciativa

Certo? Não, errado, diz Francisco. “É no momento de aborrecimento que os miúdos começam a olhar para o meio envolvente e a encontrar caminhos. Há sempre pontes e o mais interessante é deixá-los encontrar essas mesmas pontes”.

[Fotografia: Ricardo Graça]

 

O coordenador de Brincar de Rua considera que esta é uma solução que pode tirar pressão do quotidiano sobre os miúdos, e a dar-lhes espaço. Por isso, “num país com tão boas condições meteorológicas, é preciso aproveitar mais ” e repor uma velha prática que “se perdeu em apenas duas gerações de dez anos

Voluntários e geolocalização

O projeto conta com o envolvimento e participação de adultos que, voluntariamente, estão presentes nas atividades. São cerca de dois ‘monitores’ por cada grupo de 15 crianças, com idades entre os cinco e os dez anos (com possibilidade de alargar aos 12 anos). Francisco Lontro explica que qualquer adulto que “vivendo num determinado bairro e tenha pelo menos duas horas livres por semana, pode candidatar-se”.

O responsável do projeto afirma que “cada candidato passa por um processo de seleção cujas duas principais fases são o controlo do seu registo criminal – garantindo que não há antecedentes de criminais com crianças – e uma entrevista”.

Há 102 pessoas interessadas em levar o projeto leiriense Brincar de Rua pelo país

Para lá do acompanhamento de dois adultos, a associação sem fins lucrativos que promove o Brincar de Rua prevê a aplicação de um sistema de geolocalização para as crianças.

“Os nossos protocolos de segurança começam com as conversas que temos com os pais, depois falamos com os miúdos para que zelem pelo sentido de grupo, e existe um treino que é feito aos voluntários sobre medidas de proteção e segurança. Queremos ainda acrescentar uma última camada de prevenção, recorrendo a um sistema de geolocalização – com antenas GPS para as crianças – e que possivelmente vamos começar a utilizar a partir da próxima sessão”, conta Francisco Lontro, apontando para setembro.

[Fotografia: DR]

Contudo, o coordenador afirma que esta alternativa, ainda não testada, só será aplicada mediante autorização dos pais.

Horários e financiamento

Uma vez por semana e consoante os horários que os voluntários tenham livres, as crianças voltam às ruas para brincarem ao que lhes apetecer, por duas horas. “O projeto-piloto juntou 15 crianças. A perspetiva é de criar cinco novos grupos com, no máximo 15 crianças cada, na cidade e arredores até ao final do ano”, antecipa o coordenador, vincando que a participação requer inscrição na associação Ludotempo/ Associação de Promoção do Brincar – que aquele projeto, mas também uma loja infantil – e “não tem custos adicionais para os associados”.

Atualmente, justifica Lontro, “o financiamento provém exclusivamente das receitas da associação, nomeadamente através da loja online de brinquedos”.

O projeto Brincar de Rua até já chegou à mesa do secretário de Estado da Educação, João Costa (executivo que já veio a publico defender a importância da brincadeira para as crianças), mas não avançou. “Já apresentámos o projeto ao Sr. Secretário de Estado, mas uma ‘parceria’ necessita de argumentos mais fortes de parte a parte. Neste momento estamos concentrados na solidificação do projeto e na definição do modelo de escalabilidade. Queremos que o programa cresça de forma sustentada e com qualidade”, explica o coordenador da equipa que conta com profissionais oriundos da Educação Especial e Reabilitação, da Psicologia e dos Estudos Europeus.

 

Imagem de destaque: Shutterstock

Carla Bernardino