Espetáculo ‘Cabarética’ celebra a liberdade do corpo da mulher

A Nova Companhia estreia esta quarta-feira, 7 de fevereiro, no Teatro do Bairro, em Lisboa, o espetáculo Cabarética. E é mesmo como o título indica: uma abordagem ao mundo do cabaret, homenageado sob a forma de um ‘vaudeville’, e ao mesmo uma reflexão sobre o presente e o futuro do género e do caminho da própria companhia.

“Queríamos iniciar 2018 com um espetáculo de cabaret, que é um dos temas da programação da Nova Companhia para este biénio. É um registo que gostamos de fazer de vez em quando, não é um cabaret convencional, vamos à procura de reinventar esse conceito para os tempos de hoje”, diz ao Delas, o ator e encenador Martim Pedroso, co-criador com João Telmo deste Cabarética.

Martim Pedroso e Jo‹ão Telmo: criadores, atores e encenadores do espetáculo (PAULO SPRANGER/Global Imagens)

Trata-se de um espetáculo com três momentos diferentes, ensaiados separadamente, numa primeira fase. Abre com ‘Kiki’, uma reposição do texto de João Telmo, levado à cena há três anos e com a atriz Carla Bolito como protagonista, continua com ‘Bas Fond’, uma reflexão representada em palco pelos dois criadores, que são também atores, e termina com ‘Lady M’, uma performance, num registo mais ligada à dança, a cargo da bailarina, coreógrafa e treinadora pessoal de Madonna, Marlyn Ortiz.

“Começa com essa primeira mulher [Kiki], que de alguma maneira celebra a liberdade do corpo, o que vai contra muitas regras da sociedade nessa altura e depois fechamos com a Lady M que acaba por ser uma reinterpretação dessa celebração física do corpo, nesse ambiente de cabaret mas nos tempos de hoje. E o Bas Fond, que é este espetáculo intermédio, é esse lugar onde nós purgamos, onde queremos realmente encontrar a liberdade de espírito e a liberdade artística de podermos ser o que somos”, explica Martim Pedroso. Eis os momentos-chave de ‘Cabarética’:

As diferentes partes de um mesmo espetáculo

Parte 1 – ‘Kiki’

Carla Bolito é ‘Kiki’ (PAULO SPRANGER/ Global Imagens)

‘Kiki’ parte da história real de Kiki de Montparnasse, nome artístico de Alice Ernestine Prin, modelo que posava nua para pintores e fotógrafos, ícone dos clubes noturnos da capital francesa nos anos 1920 e 1930 e “incontornável figura da burguesia” dessa época.

“A Kiki foi um furor, foi a musa do [fotógrafo] Man Ray, a cara de Paris, que ficou para sempre”, descreve Carla Bolito, a atriz que interpreta a personagem nesta segunda versão da peça, escrita por João Telmo.

“Este foi um espetáculo que fiz no final de 2015 com a atriz Sofia Soares Ribeiro e agora com esta reposição, por uma questão de calendário, tive de convocar outra atriz, que é a Carla Bolito”, diz o também ator e encenador. Uma substituição que acabou por contribuir para dar uma nova perspetiva à versão original e à própria construção da peça de abertura de Cabarética.

“As coisas mudam, nós crescemos, artisticamente e pessoalmente. Com a Carla acabámos por criar uma versão um bocadinho mais madura, não é que seja muito diferente mas está mais bem cosida. A Carla como também tem um lado de encenadora, ajudou a que se criasse uma camada mais consistente”, explica.

Na peça, isso traduz-se, entre outras coisas, na “grande flexibilidade” e “improviso” de que vivem os cabarets, como refere Carla Bolito, que para a sua personagem foi buscar, precisamente, “esse lado artesanal de fazer teatro e de fazer o espetáculo perante o olhar do público”. “Temos muitos adereços e há um jogo que é uma linguagem que é construída durante o próprio espetáculo e que é manipulada pelos atores em cena”, refere. A par disso, há também a carga erótica e de liberdade do corpo e sexual associada à figura de Kiki. A modelo que posava nua, também chegou a abrir o seu cabaret, e foi aí que atingiu o auge artístico. “Depois, como era cocainómana e alcoólica, desgraçou-se e acabou por morrer de overdose com 51 anos. Há um momento no espetáculo que é sobre essa decadência, sobre os seus fantasmas, tem esse lado negro”, acrescenta a atriz.

A atriz num dos ensaios de ‘Cabarética’ (PAULO SPRANGER/Global Imagens)

Carla Bolito confessa que este é um espetáculo particularmente exigente, que junta à representação, coreografia, música e adereços. E é “tecnicamente dinâmico, com muito movimento e muito ritmo”.

Nesta versão atual foram introduzidas mais músicas de época, representando a ligação de muitas cantoras de cabaret ao Moulin Rouge, mas também a euforia que se vivia na Paris dos anos 1920. “Havia uma efervescência e uma grande liberdade, uma grande libertação sexual. A Kiki foi a primeira modelo nua [a tornar-se popular] só por posar para pintores e fotógrafos, porque as outras ou eram atrizes ou cantoras. Só depois que ela abriu o cabaret é que começou também a cantar, a pintar quadros, mas ela definia-se como modelo.”

Parte 2 – ‘Bas Fond’

À reposição de ‘Kiki’ sucede-se uma estreia. ‘Bas Fond’ é um espetáculo novo, uma reflexão interpretada por Martim Pedroso e João Telmo. Neste texto também criado por ambos, atuam como se fossem dois palhaços esquecidos na noite, questionando o mundo e a arte, entre choro e risos.

Em cada dia de espetáculo esta parte terá um convidado diferente. Carla Vasconcelos, Marina Albuquerque, Tiago Guedes, Ricardo Toscano e Fernando Santos Kristal são algumas das participações especiais já anunciadas.

“Para uma noite, nós queríamos criar um espetáculo novo, que foi este ‘Bas Fond’, irmos buscar uma reposição [‘Kiki’] e depois finalizarmos com este epílogo [‘Lady M’] que celebra o corpo e tem um registo mais ligado à dança e à performance”.

Martim Pedroso, à esquerda, e João Telmo, à direita, são os atores em ‘Bas Fond’ (TIAGO PETINGA/Lusa)

Mas os préstimos de Marlyn Ortiz fazem-se sentir ainda na segunda parte, como conta o encenador. “Faço um strip tease no ‘Bas Fond’ e ela ajuda-me nesses movimentos e nessa coreografia” A ideia não foi transformá-lo num bailarino, mas ajudá-lo a recriar um certo ambiente e atitude. No fundo, diz, aqui o burlesco “alimenta-se da ideia da libertação do corpo para criar um alfabeto coreográfico”.

Parte 3 – ‘Lady M’

Na terceira e última parte do espetáculo voltamos ao feminino, com ‘Lady M’. Enquanto a coreografia de Kiki é a da primeira versão, e foi criada por Paulo Duarte Ribeiro, a do momento que fecha ‘Cabarética’ é da responsabilidade de Marlyn Ortiz, bailarina profissional durante 20 anos, acrobata, coreógrafa.

A bailarina e coreógrafa americana, Marlyn Ortiz (PAULO SPRANGER/Global Imagens)

Ao Delas, a artista americana de origem porto-riquenha explica que a personagem que traz para os palcos portugueses é “uma extensão” de si própria, mas “muito impetuosa, enérgica, sensual, sexy, carismática e latina”. “Ela não quer saber o que pensam os outros, é muito expansiva e gosta de levar as coisas ao próximo nível, mas não de uma maneira ordinária ou desconfortável. Gosta de entreter e brincar com o público, de fazer comédia e criar momentos de riso durante a sua performance”, descreve.

Não é apenas na personalidade que ‘Lady M’ é semelhante à artista que lhe dá corpo. Como explica Marlyn Ortiz, ela “vem da área da dança, por isso incorpora muito dessa experiência e das suas técnicas.”

Esta parte do espetáculo surgiu mais tarde que as restantes, depois de um encontro casual entre Martim Pedroso e Marlyn Ortiz, na Lx Factory, em Lisboa. A empatia acabaria por se materializar num convite do encenadora à bailarina que, em Portugal, dá também aulas de pole dance burlesco, além de continuar os treinos pessoais com Madonna, com quem partilhou o palco em algumas digressões.

Cabarética está em cena no Teatro do Bairro, em Lisboa, de 7 a 25 de fevereiro, às 21h30, de quarta a domingo. Depois da capital, a Nova Companhia leva o espetáculo deverá ser apresentado no Porto, no Teatro Rivoli, em data ainda a definir.