Calendário Pirelli: a nudez já não é o foco da lente

O primeiro calendário Pirelli foi lançado em 1964 com fotografias de Robert Freeman e foi fotografado em Palma de Maiorca. O ensaio fotográfico com mulheres em biquíni e poses sensuais seria transformado num calendário que seria oferecido aos melhores clientes dos pneus Pirelli. Uma manobra de marketing tão genial que ainda hoje se repete ano após anos, o que mudou foi o foco da fotografia: já não é o corpo nú que interessa mas sim a história que é contada.

A grande mudança aconteceu em 2016 com um calendário fotografado por Anne Leibovitz. Nesta produção que retratou mulheres reais e não modelos, a fotografia revelou a força e a diversidade feminina a preto e branco. Apesar de existirem algumas fotografias reveladoras de muita pele, nenhuma imagem publicada no calendário foi sexualizada, nem mesmo os nús quase integrais de Amy Schulmer e Serena Williams. Uma mudança significativa em relação ao calendário de 2015, fotografado por Steven Meisel com uma enorme carga sexual, mesmo quando as modelos apareciam vestidas.

Em 2017 a mudança continuou com as fotografias de Peter Linderberg, que quis eternizar em forma de calendário a beleza real, não usando por isso retoques de pós-produção para apagar imperfeições. O fotografo desvendou assim as rugas de Nicole Kidman, Helen Mirren, Uma Thurman, Julianne Moore e outras atrizes de Hollywood. Um registo a preto e branco com uma atmosfera intimista que revelou uma beleza natural e mais uma vez despida de sexualização.

A 45ª edição deste calendário chega em 2018 com fotografias da autoria de Tim Walker e onde mais uma vez se deixa a sexualidade fora de cena. Inspirado pelo conto de Lewis Carroll, “Alice no País das Maravilhas”, foram encenadas imagens muito elaboradas que retratam vários momentos do conto. Mas o detalhe mais importante deste calendário está no casting que é composto apenas por modelos negros: a modelo australiana-sudonesa Adut Akech, a modelo e ativista feminista Adwoa Aboah, o modelo alemão-senegalense Alpha Dia, o ator e modelo Sjimon Hounsou, a modelo australiana-sudanesa Duckie Thot, a ativista gambiana para direitos das mulheres Jahan Dukureh, o modelo britânico King Owusu, o rapper Lil Yachty, a atriz queiano-mexicana Lupita Nyong’o, Naomi Campbell, o artista RuPaul, a atriz Sasha Lane, Sean “Diddy” Combs, a modelo americana Slick Woods, Thando Hopa, a atriz Whoopi Goldberg, o modelo britânico Wilson Oryema e Zoe Bedeaux. Um elenco único que pretende alertar para falta de representação da comunidade negra na moda.

São três anos consecutivos de um calendário Pirelli mais empoderador do que sexista, que provam que a nudez nem sempre é sinónimo de sexualização.

Veja as imagens do calendário de 2018 na galeria acima.

Beleza real e intimismo no Calendário Pirelli 2017