Carnaval do Brasil: a luta feminista também se faz na folia

O Carnaval também pode ser um momento de luta pelo empoderamento das mulheres. No meio da folia vivida no Brasil, o bloco feminista Mulheres Rodadas que desfila no Rio de Janeiro, aborda questões ligadas ao feminismo, lutando em prol dos direitos e contra os abusos das mulheres. Deborah Thome, de 40 anos, explica por que razão surgiu este grupo de mulheres que faz questão de trazer palavras de igualdade a uma festa tipicamente sexualizada.

“Nesta altura do ano, temos claramente uma preocupação feminista, que vai desde a escolha das músicas para o carnaval até aos fatos que desfilamos. Procuramos apresentar sempre músicas que abordem temas de mulher ou consagradas por vozes femininas e as fantasias também refletem o feminismo: Frida Khalo, Eva, Rosie the Riverter, por exemplo” (visíveis na galeria abaixo), explica a ativista.

Deborah apresenta o bloco como feminista e não como feminino: “Somos um bloco misto, embora a maioria sejam mulheres. Integramos toda a gente que combata o racismo, a homofobia, a lesbofobia e a transfobia”. Liberdade e empoderamento são as palavras de ordem deste bloco carioca, nascido oficialmente em 2015.

“O bloco surgiu depois de vermos um post machista feito na internet que dizia: ‘Não mereço mulher rodada’. A expressão mulher rodada é utilizada no sentido de carro rodado, que já passou por muita estrada, neste caso uma mulher que já teve muitos homens. Criámos, então, um evento no Facebook, no final de 2014, com o propósito de minimizar o preconceito. Não entendíamos como, hoje em dia, ainda acontecia atribuir-se rótulos às mulheres por causa das suas escolhas”, contou.

Em Recife, mais de dois mil quilómetros a norte do Rio de Janeiro, outro bloco feminista prepara-se para sair à rua. Também criado em 2015, o bloco ‘Essa Fada’ foca-se no direito da mulher à liberdade sexual e à sua segurança física e emocional.

“Este ano o lema é ‘Pó de Sim’, um trocadilho com ‘Pode Sim’ que pretende enfatizar que as mulheres podem sim ser e viver o que quiserem”

“O nome é um trocadilho, brinca com o imaginário sexista da figura feminina meiga, perfeita e disponível para atender todos os desejos pedidos, realizando as expectativas dos outros. A ideia é contrapor ‘Essa Fada’ a ‘és safada’, chamando à atenção para a naturalização do comportamento sexual da mulher e mostrando que ela pode ser e fazer o que quiser”, diz Geisa Agricio, 36 anos, e elemento do grupo.

Ao contrário do Mulheres Rodadas, este é um bloco feminista e feminino. “É feito por elas e para elas. Os homens podem apoiar, mas todos os eventos organizados são sempre dirigidos por mulheres. Queremos ter mais mulheres a ocupar mais espaços”. Por isso mesmo, o bloco ainda apoia a liberdade de género, dando visibilidade e valorizando projetos realizados por mulheres.

Este ano, a discussão pública sobre o assédio sexual conduziu o carnaval de ‘Essa Fada’ para a defesa do poder de escolha das mulheres. “Este ano o lema é ‘Pó de Sim’, um trocadilho com ‘Pode Sim’ que pretende enfatizar que as mulheres podem sim ser e viver o que quiserem”, explicou Geisa.

O lema foi estampado na parte da frente de várias t-shirts, juntamente com ‘Mas Não é Não (visível na imagem abaixo), fazendo alusão ao movimento contra ao assédio sexual. Projeto que nasceu o ano passado, no Rio de Janeiro, pela altura do carnaval e que este ano se estende a mais Estados do Brasil. Essa Fada apoia este movimento pela primeira vez, distribuindo tatuagens temporárias às foliãs.

 

T-shirt do bloco Essa Fada [Imagem: Bloco Essa Fada]

Em Belo Horizonte, no interior do Brasil, mas bem mais perto do Rio de Janeiro, é o bloco Bruta Flor que leva a luta feminista às ruas. Desde 2016 que procura “dar visibilidade à música feminina da cidade. Durante o cortejo, e em diversos outros momentos, discute temas como o assédio, o patriarcado e o machismo, além de participar em marchas e campanhas em defesa das mulheres. O ano passado apoiamos a campanha ‘Tira a Mão’, este ano estamos com o projeto ‘Não é Não’”, declarou Bella Santos, 32 anos, membro do bloco.

Também composto só por mulheres, “o bloco surgiu enquanto as artistas Claudia Manzo, Vi Coelho e Flor Bevácqua assistiam a um ensaio da banda Bruta Flor. Claudia Manzo disse que imaginava uma data de mulheres a tocar e a cantar a música Rubra Oiá (que se tornou o hino do bloco), como numa escola de samba. Gostaram tanta da ideia que pensaram criar um bloco onde as mulheres pudessem tocar e apresentar as suas músicas e ideias”, explicou Bella.

Todos estes blocos vão estar nas ruas este carnaval, em prol da igualdade de género e liberdade da mulher. Direitos que não são esquecidos durante o ano, com os grupos a desenvolver debates sobre várias vertentes do feminismo, fazendo o público refletir e evoluir sobre determinadas questões.

Com um dos maiores carnavais do mundo e a receber, todos os anos, milhões de foliões – o ano passado, só o Rio de Janeiro, teve quase 6 milhões – o Brasil tem vindo a tornar-se palco da promoção dos direitos femininos e de combate à violência de género, sendo o carnaval uma época em que se acentua a ação feminista.

[Imagem de destaque: Raphael Dias / Getty Images ]

Carnaval do Brasil apita contra o assédio

Sindicato quer acabar com fatos machistas de enfermeiras no Carnaval