Com a saúde não se brinca? O Hospital da Bonecada prova o contrário

O medo dos médicos e das batas brancas é uma realidade para uma grande parte das crianças. Foi para neutralizar esse sentimento dos mais novos, a Associação Europeia de Estudantes de Medicina criou o projeto Teddy Bear que em Portugal assume, desde 2001, o nome de Hospital da Bonecada.

O hospital-modelo recebe crianças dos 3 aos 10 anos e os seus amigos, os bonecos, com o objetivo de combater o medo que estas sentem pelos profissionais de saúde, que nos casos mais agudos se transformam em “síndrome da bata branca”.

O Hospital da Bonecada é basicamente um jogo de faz de conta entre as crianças e os “senhores doutores” voluntários, estudantes universitários de diversas áreas da saúde, como explica Susana Lopes, vice-presidente da Comissão Organizadora do Hospital da Bonecada. “Este projeto surgiu dentro da Associação de Estudantes da nossa Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. Começou por ser uma coisa pequenina, apenas com um consultório médico, e foi-se expandindo até chegar onde está hoje, com diversas áreas de especialidade: Medicina, Análises Clínicas, Enfermagem, Farmácia, Medicina Dentária, Imagem Médica, Fisioterapia, Ciências da Visão, Nutrição, Terapia da Fala e Psicologia, e também o curso de Educação Básica.”

Aprender a brincar

O que pode parecer uma simples brincadeira é, na realidade, um assunto muito sério. “É um hospital-modelo, significa que lá dentro as crianças se sentem mesmo dentro de um hospital. Temos as mesas dos consultórios, o estetoscópio, todo o material médico (mas de brincar), o bloco operatório tem mesmo uma mesa de bloco, vamos ter um monitor a reproduzir todos os barulhos típicos, as salas de dentária têm uma cadeira de dentista… É um mini-hospital que reproduz a realidade ao máximo, para que as crianças consigam sentir alguma responsabilidade sobre o boneco que levam consigo e transmitam para ele os seus receios”, conta Susana Lopes.

“As crianças mais pequeninas vivem mesmo o faz de conta e transmitem os seus medos para o boneco.”

Nada é feito ao acaso, e todos os voluntários que participam neste projeto têm uma formação de um dia para aprenderem a responder apropriadamente às questões das crianças, de forma a que estas entendam corretamente o que lhes é explicado. “Nesta edição, em que o tema é a Oncologia Pediátrica, a formação aborda especificamente essa área e aprendemos também a falar com as crianças nesse contexto”, afirma Susana. As reações, afirma, são variadíssimas. “As crianças mais pequeninas vivem mesmo o faz de conta e transmitem os seus medos para o boneco. Os mais velhos sabem que é tudo uma brincadeira, mas encaram tudo num contexto mais didático, fazem muitas perguntas sobre os materiais, sobre as técnicas, sobre o que acontece… Sentem-se mais à vontade para conversar connosco e colocar dúvidas que talvez não coloquem quando vão a uma consulta normal de rotina”, relata Susana Lopes.

Quem gosta, volta sempre

No ano letivo de 2006/2007 o Hospital da Bonecada foi galardoado com o “Prémio Hospital do Futuro”, concedido pela Sociedade Portuguesa de Pediatria. Na edição passada, o projeto cresceu exponencialmente, acolhendo mais de 4000 crianças e contando com mais de 900 estudantes universitários voluntários. O evento principal tem lugar no Centro Colombo, mas existem as mini-edições na Casa Pia de Lisboa e em Vila Franca de Xira, com apoio da Câmara Municipal, e ainda a edição de Natal no Hospital CUF Descobertas.

Nesta 17ª edição, o Hospital da Bonecada pretende chegar mais longe, criando um maior número de eventos em escolas e instituições de solidariedade, atingindo uma meta de 5000 crianças, e estendendo o projeto para fora da área da Grande Lisboa.

O evento principal durará 9 dias, realizando-se entre os dias 21 a 29 de abril de 2018, na Praça Central do Centro Colombo, das 9h às 21h, com entrada gratuita. “Se forem escolas, pedimos que façam inscrição, por serem grupos maiores. Fora isso, para participar basta aparecer. Pedimos que as crianças tragam o seu próprio boneco, mas nós temos alguns, caso eles não tenham.”

Susana conta que o sucesso do Hospital da Bonecada e a forma como cumpre o objetivo se comprova pelas reações dos pais e educadores. “Muitas vezes, há crianças que já foram no ano anterior e voltam com novos problemas e novas perguntas. Já sabem como aquilo funciona, mas gostam tanto que querem repetir!” E quiçá, a brincar, não sairão dali futuros médicos ou enfermeiros… “Pelo menos, mais atentos às questões de saúde e à importância de ir ao médico, serão certamente!”, afirma.

Carmen Saraiva