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Como explicar o terrorismo às crianças

Os atentados perpetrados esta semana, em Barcelona e na Finlândia, voltaram a estar no foco de televisões, rádios, jornais e Internet. Por todo o lado, sucedem-se imagens de pessoas feridas, de olhares angustiados, de caos e de polícia, palavras como “exército islâmico”, “terrorismo”, “jihadismo”, “atentado”, “mortos”. É difícil escapar à temática, mesmo nas conversas entre crianças.

Quem tem filhos terá que responder a todas estas perguntas. Mas como o fazer? E já agora, as respostas são as mesmas, independentemente da idade? Não, claro que não! É preciso simplificar, adaptar o discurso consoante a idade das crianças e é importante dizer a verdade. Estas são as primeiras recomendações deixadas por Raquel Carvalho ao Delas.pt, vincando ainda:

“A exposição excessiva às imagens e vídeos violentos deve ser evitada, pois poderão contribuir para medos e pesadelos perturbadores”.

A psicóloga clínica da Oficina da Psicologia e elemento integrante da equipa especializada em crianças e adolescentes, a Mindkiddo, lembra que “é essencial ajudar a criança a sentir-se segura” e, antes de responder, perguntar primeiro como tomou conhecimento do assunto.

Aqui ficam algumas formas de responder ao tema quente sem perder a calma e serenidade e ainda, quem sabe, aproveitar a oportunidade para relembrar, nas palavras desta especialista, “os valores de tolerância, aceitação e respeito” e “fomentar a autonomia de pensamento”.

Como explicar este tipo de notícias às crianças?
Raquel Carvalho (RC): É fulcral dizer a verdade à criança e adequar o conteúdo da informação à sua idade e desenvolvimento. Ainda antes de responder às questões da criança, deve perguntar-lhe o que sabe ou ouviu sobre o assunto e o que quer saber mais. Assim, conseguirá adequar a quantidade e conteúdo de informação. Explique de forma mais simples possível, não dando mais dados do que aqueles que a criança pede, evite detalhes sobre factos e números. Evite usar vocabulário difícil (Radicalismo islâmico”, “jihadismo” ou “atentados terroristas”). É essencial ajudar a criança a sentir-se segura.

Qual a melhor forma de o fazer, por faixas etárias?

RC: Até aos 6 anos, poderá dizer-se algo como “existiram umas pessoas que não estavam bem que fizeram mal a outras pessoas, mas que entretanto já foram apanhadas. Não existem muitas pessoas assim, mas às vezes estão tão tão zangadas e sozinhas que adoecem e fazem mal a outros.”

Com as crianças dos 6 aos 10 anos, poderá já empregar-se palavras como ataque e poderá até mostrar-se no mapa onde foi e evidenciar como foi circunscrito.

A partir dos 11 anos, a palavra ‘terrorismo’ poderá ser empregue, sendo que face à pergunta “porquê?”, os pais poderão explicar que os ataques foram feitos por pessoas muito diferentes das que conhecemos, que acreditam que podem obrigar os outros a pensarem igual a elas, que o podem fazer pela força e que até os adultos têm dificuldade em compreender totalmente os motivos. Mas, ainda assim e felizmente, continuam a ser uma minoria e a probabilidade de tais eventos terem lugar continua a ser diminuta.

Aproveite para esclarecer alguns preconceitos, xenofobia ou mitos, de acordo com os valores da família. Reforce a ideia de que a violência não é fruto de religião, mas de pessoas que não respeitam a diferença e que não tiveram a mesma oportunidade de ir à escola em países livres e contactar com pessoas e informação diversificada.

Relembre a criança e o adolescente que a maioria das pessoas é boa e não usa a violência, sublinhando que o respeito e a tolerância por outra pessoa, pelo que é, pelo que pensa (mesmo que não concordemos), é essencial para se viver em sociedade. E, acima de tudo, aproveite estas conversas para incentivar à aprendizagem de valores de tolerância, aceitação e respeito, bem como fomentar a autonomia de pensamento, alargando o tema à vida diária da criança, com exemplos e metáforas relacionadas com a escola, os amigos, a relação familiar, etc. Cada momento difícil é uma oportunidade de crescimento e este não será exceção para os mais miúdos aí em casa.

Qual a melhor forma de os pais abordarem o tema dos atentados? E os professores?

RC: Os adultos devem, primeiramente, tentar regular as suas emoções – não entrar em pânico nem dramatizar – e ter cuidado com o que dizem e como reagem em frente dos menores. As crianças conseguem observar e absorver a ansiedade dos adultos.
A exposição excessiva às imagens e vídeos violentos deve ser evitada, pois poderão contribuir para medos e pesadelos perturbadores. Assim, a melhor forma de os pais abordarem o tema dos atentados, tal como os professores, é falarem sobre um acontecimento triste, e sobre o qual a criança poderá ouvir falar nos dias a seguir, e que, por isso, o pai ou a mãe queriam primeiro explicar-lhe o que aconteceu. E porque poderá ouvir-se muitas coisas, os pais irão sempre contar a verdade.

Como controlar essa exposição?
RC: Filtrar a informação e a exposição é fundamental, evitando sobretudo o visionamento de imagens chocantes na televisão e na internet, sobretudo para crianças mais pequenas até aos 11/12 anos. A informação pode ser dada de forma objetiva sem ter demasiadas imagens a ilustrar a situação.


Leia um testemunho dos atentados em Bruxelas e em Paris, em novembro passado


Como explicar as imagens de medo, de fuga, de sangue?
RC: Explicar que são pessoas assustadas e que em qualquer idade quando temos um susto muito grande, quando ficamos magoadas, quando nos sentimos ameaçadas que tendemos a sentir medo, que é uma emoção muito protetora. E que naquele caso as pessoas estavam precisamente com medo e a fugir para se proteger.

Deve esperar-se que a criança tome a iniciativa e pergunte?

RC: Existe a tentação por parte dos adultos em privar as crianças de más notícias e acontecimentos, mas neste caso é inevitável fazê-lo, uma vez que os acontecimentos são graves e que a informação acerca do sucedido rapidamente se propaga. Os adultos podem tomar a dianteira com perguntas abertas, de forma a perceberem o nível de informação que as crianças já têm e a permitir-lhes fazer as suas questões, podendo assim os adultos nivelar o nível de informação a partilhar. Os pais devem dar oportunidade às crianças para falarem sobre o assunto, exporem as suas questões e incentivá-las a partilhar o que pensam e sentem.

Como justificar o quem? Como explicar palavras como “terrorismo”?

RC: Explicar por exemplo que o terrorismo é quando um conjunto de pessoas, que não tiveram oportunidade de ir à escola, que não viveram de forma livre, que sofreram muito, adoecem e ficam tão tristes e tão zangadas que perdem a capacidade de pensar e aí podem tornar-se perigosas porque querem faz mal a outras pessoas na medida da dor que sentem.

CARLA BERNARDINO