Como o criador de ‘Xena’ desafiou o papel das mulheres na televisão

Quando Xena – A Princesa Guerreira apareceu nas televisões em 1995 – e em Portugal começou a ser exibida dois anos depois, na SIC -, o cenário era muito diferente daquilo que temos hoje. Havia um deserto de produções com protagonistas femininas fortes e as cadeias de televisão com maior poder, da ABC à CBS, ditavam as tendências no pequeno ecrã.

A heroína protagonizada por Lucy Lawless foi uma pedrada no charco, tanto pela sua força física e emocional como pelo facto de mostrar uma relação muito íntima com a companheira de lutas, Gabrielle. Em seis temporadas, Xena nunca chegou a concretizar a relação amorosa de que muitos desconfiavam, mas a série tornou-se icónica na comunidade lésbica por ser uma das primeiras a desafiar o status quo no panorama televisivo.

Ela era forte, mas tinha momentos de dúvida. Engraçada, mas não tonta. Andava à luta, matava adversários, fazia aliados. Xena quebrou muitas barreiras porque simplesmente não era assim que o papel das mulheres era mostrado na televisão. E o responsável por isso foi um homem, Steven L. Sears, também conhecido por sucessos como Walker, o Ranger do Texas e Superboy.

Steven L. Sears [Fotografia: Anna Carvalho]

O que é que o inspirou a criar uma personagem que acabaria por ser tão revolucionária? “É difícil apontar para uma inspiração, simplesmente pensei que era assim que devia ser escrito”, diz o autor ao Delas.pt, numa conversa em Beverly Hills, durante um evento da Infolist. “Não me apercebi até muito mais tarde que escrever mulheres reais inspiradas nas mulheres fortes que conheci na minha vida era coisa única na indústria”, admite. “Porque durante demasiado tempo, as mulheres foram representadas no cinema e na televisão como apoios à trama, artifícios, ou tinham de fazer qualquer coisa que fizesse o protagonista masculino parecer muito bem”, analisa.

Sears nota que antes de Xena houve outras personagens femininas fortes e dá o exemplo de Lynda Carter como Mulher Maravilha, uma das suas séries favoritas. “Mas como alguém que produzia televisão, eu conseguia ver as coisas que eles tinham de fazer para satisfazerem as cadeias de TV”, lembra. “A Mulher Maravilha era muito forte, inteligente e independente, mas mais tarde no episódio tinha de se tornar mais feminina e dar risinhos, tentando desculpar-se por essa força e amaciando os egos masculinos.” Era uma forma de colocar esta mulher forte no seu lugar.

Sears, que está neste momento a preparar mais dois grandes projetos, recorda que muitas séries dos anos 90 do século passado estavam a tentar atrair o mercado feminino. Só que considera que a forma como escreviam as personagens femininas estava errada, porque se focava no aspeto físico. “A colocação era incorreta: se uma mulher conseguia dar porrada num homem era uma personagem forte”, diz Sears. “O outro erro é que o que as pessoas que escreviam personagens femininas estavam a fazer era escrever um homem, mas com mamas. Não estavam a explorar as personagens.”

Steven L. Sears [Fotografia: Anna Carvalho]

Pode parecer uma análise dura ou injusta, mas era assim que toda a gente que escrevia para televisão estava programada para trabalhar – mesmo as mulheres. “Toda a gente aceitava isto.” Sears lembra que toda a televisão era financiada pelo dinheiro da publicidade e a maioria dos espectadores ainda não tinha transitado para uma visão diferente da personalidade feminina.

“Os filmes e a televisão refletem a audiência”, declara. “Nos primeiros tempos da minha carreira, tinha discussões escandalosas com os estúdios sobre a sexualidade das mulheres nas séries”, recorda. “Uma vez pediram-me isto: ‘será que podes livrar-te dessa porcaria toda de personalidade? Está a desviar a atenção das mamas dela’.”

Neste momento, vive-se uma segunda era dourada na televisão, graças ao advento dos serviços de subscrição – do Netflix ao Hulu e da HBO à Amazon. Como não dependem da publicidade, as séries são filmadas de outra forma, quase como um filme gigante. É assim que temos Stranger Things, The Handmaids Tale ou A Guerra dos Tronos.” Nos tempos de Xena, as séries dependiam das audiências semanais para sobreviver e muitas eram canceladas abruptamente.

É por esse contexto que Xena foi tão importante e deixou um legado que ainda perdura, 16 anos depois de ter saído do ar. A série foi referenciada inúmeras vezes como inspiração por outros autores, tendo influenciado a criação de Buffy A Caçadora de Vampiros e Beatrix Kiddo, interpretada por Uma Thurman em Kill Bill. Os fãs da série organizaram convenções anuais até há dois anos e continuam a promover encontros, que normalmente são virados para causas de solidariedade. Sears conhece bem esta comunidade, e tece rasgados elogios: “No total já angariaram 24 milhões de dólares (20,5 milhões de euros). Não é incrível?”

O que é preciso agora, diz Sears, é pôr mais mulheres atrás das câmaras, como realizadoras. E também outras raças. “Sou tão branco que me perderia numa tempestade de neve”, graceja, reconhecendo que a diversidade é um imperativo para melhorar a qualidade em Hollywood.


Recorde o estado da sétima arte em Hollywood. As notícias não são boas para as mulheres


“Nas séries que criei e as pessoas com quem trabalhei adorei a diversidade trazida por outros géneros, raças e culturas. Ainda estamos a falhar nessa área, mas já se vê progresso”, considera. “Eu também faço parte da audiência. E quero ver produções de qualidade”, pede Sears.

Imagem de destaque: DR