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#delasexplica: Catherine Deneuve quer mesmo ser importunada pelos homens?

O jornal Le Monde publicou esta terça-feira uma carta aberta assinada por 100 mulheres intelectuais francesas sob o título chamativo “Defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual. ” O texto está a ser lido pela imprensa internacional como uma reação adversa ao movimento #metoo, mas texto vai muito além disso. Aqui ficam resumidas, ponto por ponto, as ideias do artigo:

  1. As 100 signatárias da carta confirmam que a tomada de consciência sobre os abusos sexuais sofridos pelas mulheres, designadamente no local de trabalho, era necessária.
  2. Escrevem que quem não adere às causas ou não fala delas “como deve ser” está a ser chamada de cúmplice ou traidora pelas feministas.
  3. Defendem que a campanha #metoo desencadeou uma cadeia de denúncias que não dá possibilidade ao acusado de se defender.
  4. Exigem que haja uma distinção entre os predadores sexuais e os homens que “uma vez tocaram num joelho ou roubaram um beijo”.
  5. Dizem que estamos a viver uma “febre de puritanismo” que atenta contra a liberdade sexual e a liberdade das mulheres, remetendo-as para um lugar infantilizado de pessoas que precisam de proteção.
  6. Opõem-se ao escrutínio que os homens estão a ser levados a fazer sobre um episódio isolado que possa ter acontecido há 10 ou 20 anos.

Problema da liberdade de criação

Após estas ideias expostas, as mulheres que escrevem esta carta reúnem situações que acontecem no mundo das artes e das redes sociais e que têm implicações na liberdade de criação e de expressão. Dizem que são episódios de uma “vaga purificadora” que “não conhece nenhum limite: um nu do pintor Egon Schiele (sec.XIX/XX) que foi recentemente censurado; um retrato de uma criança feita por Balthus (sec. XX) exposto no MET é visto como um elogio à pedofilia; a dissertação de um universitário que considera o filme Blow-Up de Michelangelo Antonioni misógino e por isso “inadmissível.”

Na lista de obras censuradas, há também as que o são pelos comportamentos dos seus autores – cuja censura as 100 francesas criticam – e entre as quais estão as de Polasnki e Jean-Claude Brisseau. A escolha destes nomes não podia ser mais sensível, quando sobre o primeiro recaem acusações de abuso sexual de uma menor que nunca foram julgadas porque o cineasta fugiu dos EUA, o segundo tem 3 condenações por assédio e agressão sexuais em França. As signatárias não querem ver a obra desqualificada por aquilo que a justiça condenou.

São 100 as mulheres que assinam esta carta aberta, entre as quais filósofas, romancistas e jornalistas, atrizes, curadoras de arte. São estas 100 mulheres que afirmam que o próprio ato de criar está posto em causa. “Editores já pediram a algumas de nós que criássemos personagens masculinas menos sexistas (…) e que os traumas sofridos pelas personagens femininas se tornem menos evidentes” lê-se no texto que reivindica a liberdade de ofender com a criação artística, citando Ruwen Ogien.

E sexo também pode ser ofensivo?

Ruwen Ogien, desaparecido em 2017, questiona no livro ‘A liberdade de ofender. O sexo, a arte e a moral‘, que é um ensaio sobre as representações sexuais visuais e escritas, “o pânico moral” e, como noutras obras anteriores, desmonta o desejo de repressão visível em cada censura moral ou paternalista a um filme ou um livro pornográfico. Distingue o prejuízo da ofensa sendo o primeiro material e o segundo abstrato, subjetivo e por isso afirma que a ofensa será sempre inevitável – depende de quem vê a representação sexual. A dissertação de Ogien é exclusivamente sobre pornografia mas, mesmo assim, acrescenta que nos casos em que as pessoas são obrigadas a vê-la sem o quererem fazer “para isso está a lei“.

A carta aberta das 100 mulheres assenta a sua fundamentação nesta premissa da liberdade de ofender da sexualidade em si, não à sua representação (em Ogien circunscrevia-se à produção artística pornográfica). A ideia é que a possibilidade da ofensa está no objeto de desejo (mulher), que pode ter uma resposta positiva ao avanço sexual efetivo ou recusá-lo e até vê-lo como ofensivo. Mas qualquer que seja o desfecho que a mulher dê o caso, ele só pode acontecer se o sujeito (o homem) tiver liberdade para avançar, para importunar.

Depois defendem que “a pulsão sexual é por natureza ofensiva e selvagem”; recusam um apalpão no metro como algo traumatizante, propondo uma inversão de papéis: que a mulher veja o apalpão como sinal de miséria sexual do homem; recusam que cada pessoa “seja um monólito” podendo uma mulher de carreira ser também um objeto sexual noturno sem por isso ser uma cúmplice do velho patriarcado; para acabar por acusar as feministas das delações de terem “raiva aos homens e sexualidade”.

Estas 100 mulheres querem que todas as mulheres saiam do lugar de presa, que numa situação de assédio ou importunação sexual reajam, que respondam e que, independentemente do que lhes possa ter acontecido ao corpo, saiam do lugar de “vítimas eternas” com a dignidade interior inabalada.