Doenças da tiróide aumentam com a idade e afetam cinco a oito vezes mais as mulheres

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[Fotografia: Pexels/Augi]

Cansaço, queda de cabelo e insónias são sintomas frequentemente associados a muitas doenças, mas nem sempre à tiróide. Porém, são também sinais de que algo não está bem com o corpo e que é preciso verificar. Numa patologia com alta prevalência nas mulheres e cujo o risco cresce com a idade, saiba o que é importante fazer para despistar este tipo de patologias.

Em conversa por escrito à Delas.pt e a propósito da Semana Internacional da Tiróide, a endocrinologista Inês Sapinho explica o porquê de as mulheres estarem em maior risco de exposição, aborda o impacto dos tratamentos hormonais, deixa os primeiros sinais de alarme e recomendações sobre o que deve ser feito para evitar o subdiagnóstico que existe em Portugal e o devido acompanhamento médico.

 

Médica endocrinologista Inês Sapinho [Fotografia: DR]
O que explica que o hipotiroidismo seja tão prevalente nas mulheres?

As mulheres são cinco a oito vezes mais afetadas do que os homens. A principal causa do hipotiroidismo é a doença autoimune e existe uma forte preponderância das doenças autoimunes no sexo feminino. A explicação científica para este facto ainda não é clara, no entanto, parece que tanto o cromossoma X, como os estrogénios são uma peça chave nesta que questão.

Quais os sintomas a que as mulheres devem estar atentas?

As pessoas devem saber que muitos dos sintomas das alterações do funcionamento da tiroide são inespecíficos como o cansaço, ansiedade ou depressão, queda de cabelo, insónias, palpitações, ganho ou perda de peso, dores articulares ou irregularidades menstruais. Devemos estar atentos aos sintomas e sinais e procurar ajuda sempre que algo é diferente do “normal” porque com diagnóstico precoce e o tratamento adequado recupera-se a qualidade de vida.

Quando começam tendencialmente os primeiros sinais de disfunção da tiróide nas mulheres?

Sabemos que as doenças da tiroide podem ocorrer em qualquer idade, mas a sua incidência aumenta com a idade, sobretudo após os 60 anos.

Quais os episódios de vida que mais desencadeiam estes processos no caso das mulheres e Porquê? E o que pode ser feito para minimizar?

No caso do Hipotiroidismo, na grande maioria dos casos, não existe um fator desencadeante claro que possa ser evitado. A principal causa, como já referi, é a doença autoimune e por ter uma progressão muito gradual, não se consegue identificar o episódio desencadeador. Pelo contrário, apesar de no hipertiroidismo autoimune, também ser o mais frequente, a instalação é muito rápida e está associado, em grande parte das vezes, a situações de stress significativo.

“Análises hormonais necessitam de uma rigorosa interpretação”

Existem outras causas de disfunções da tiroide menos frequentes, como por exemplo: após uma cirurgia à tiroide ou tratamento com iodoradioactivo ou reação secundária a alguns medicamentos. O que podemos recomendar são hábitos de vida saudável, com alimentação equilibrada, com o aporte adequado de nutrientes, vitaminas e minerais. O exercício físico e uma boa higiene do sono também são fundamentais para o nosso bem-estar geral.

De que forma tratamentos hormonais – e quais – podem interferir com a desregulação da tiroide? E o que pode ser feito para combater?

Em relação aos tratamentos hormonais quero deixar claro que estes só estão indicados para controlar situações especificas e que devem ser prescritos por médicos com formação adequada, nomeadamente endocrinologistas. Existem, no entanto, vários medicamentos que podem interferir com os doseamentos das hormonas tiroideias ou mesmo ter como efeito secundário uma desregulação do funcionamento da tiroide. Essas situações devem ser avaliadas pelo médico assistente e se necessário encaminhadas para o endocrinologista. As análises hormonais necessitam de uma rigorosa interpretação.

Fala-se em subdiagnóstico, mas o que pode ser feito para combater? Análises regulares pedidas por médicos de família? Outras possibilidades?

Estima-se que cerca de 60% ou mais das pessoas com doenças da tiroide desconheça a sua doença. As ações de sensibilização como os rastreios, conferências, webinares que contribuam para a literacia em saúde são fundamentais neste combate. Esta semana é a semana Internacional da tiroide, até 31 de maio, e a comunidade científica, juntamente com a ADTI, Associação de Doenças da Tiroide, tem promovido várias ações de divulgação, rastreios na comunidade. O rastreio da tiroide é recomendado em determinadas situações, como em mulheres acima 35 anos ou mulheres que querem engravidar, se historia familiar de doenças da tiroide ou sintomas sugestivos de alterações da tiroide e em pessoas com outras doenças autoimunes.