“Tinha-me embrenhado no mundo feminino que quis fazer o contrário”

Lisboa-18/10/2017- Entrevista à escritora Dolores Redondo, que vai participar no Folio. (PAULO SPRANGER/Global Imagens)

Dolores Redondo é basca, de San Sebastian, e aos 48 anos é um dos vultos dos romances policiais em Espanha. O seu livro mais recente, ‘Tudo Isto te Darei’ ganhou, em 2016, o Prémio Planeta e chega agora a Portugal pela editora com o mesmo nome. O livro conta a história de um casal homossexual e a forma como a morte de um dos seus elementos vai trazer revelações e verdades escondidas. Esta é também uma maneira da escritora falar das motivações e dos aspetos da psicologia humana que são o seu maior interesse na ficção policial. Dolores Redondo, que esteve no festival Folio, em Óbidos, lança a partir de Portugal, e nesta entrevista ao Delas.pt, o seu olhar sobre a questão catalã. É preciso que “não nos rendamos ao pânico”.

Da ‘Trilogia do Baztán’ para este ‘Tudo Isto te Darei’ passou de um universo feminino para um masculino. Porquê esta mudança?

Em primeiro lugar, por interesse literário, porque na minha trilogia anterior, durante três livros, tratei uma personagem central feminina. E não era só o facto de esta ser uma mulher como toda a ação se desenrola em torno da sua família que é composta por mulheres – é um matriarcado, uma família do norte de Espanha – e onde a feminilidade tem grande importância. São livros onde se tocam aspetos relacionados com o papel da mulher na sociedade, com a adaptação da mulher ao mundo laboral e com a maternidade aceite, não aceite, a maternidade que se procura, a adoção, a maternidade que não chega ou as mulheres que decidem não ter filhos. E tratam também o papel da mulher ao longo dos tempos, porque as regiões onde se passa a ação – e de onde venho – existiram muitos julgamentos da Inquisição de mulheres por práticas de “bruxaria”. Tinha-me embrenhado tanto no mundo feminino que neste livro quis fazer justamente o contrário…

…E agora os protagonistas são masculinos.
E meter-me na pele dos homens. Talvez porque, da imprensa literária à crítica, todos diziam que eu era a autora da feminilidade, a autora que explora melhor as dualidades e os sentimentos da mulher atual. Então como repto literário apetecia-me experimentar meter-me na pele de um homem, neste caso na pele de três homens muito diferentes. Procurei três perfis muito distintos. O protagonista [Manuel] é um escritor que vive na cidade, é homossexual e acaba de perder o marido. Os outros dois protagonistas são um guarda civil [Nogueira] que se acaba de reformar e um padre [Lucas], amigo de infância do homem que morreu. E os três vão tentar reconstituir os últimos dias da vida deste homem. Mas as mulheres não perdem importância, porque sou da opinião de que quanto mais importância tem o homem dentro de uma sociedade mais dependência tem também em relação às mulheres do seu grupo. E ainda que ocupem um papel secundário, todas as mulheres que aparecem neste romance têm grande importância.

E como foi meter-se na pele de três homens tão distintos como estes protagonistas?
Tive muito cuidado e especial atenção para que o leitor diferenciasse perfeitamente as diferentes personalidades de cada um, que quando as personagens falassem o seu caráter fosse tão evidente que transcendesse até ao leitor. Foi um prazer elaborar e desenvolver cada uma destas personagens, mas tenho de dizer que a minha preferida é o tenente Nogueira, porque é uma personagem com muitas matizes, muito obscuro e que no início do romance é duro, desagradável, abertamente homófobo e inquisidor. No meu romance ele é o braço executor. Em primeiro lugar porque é o que tem mais noção das questões policiais, toda informação e sabedoria que um agente tem, os contactos dentro do mundo policial mas sobretudo a sua rudeza e o seu caráter choca tanto e de frente com a sensibilidade de Manuel ou com a piedade absoluta da outra personagem, o padre Lucas. Lucas simboliza o contrário, a lealdade ao amigo que conheceu na infância, à ideia que tem dele e não se permite traí-la em nenhum momento.

De resto, esse é um dos temas do livro: nunca conhecemos totalmente alguém.
Creio que temos de aceitar que há aspetos sobre as pessoas que nos são mais próximas que nos são desconhecidos. Quando fiz investigação para os livros anteriores contactei muito com a polícia de homicídios e eles diziam-me que uma das questões mais comuns nas investigações, e que acaba por ser mais doloroso, é que quem fica mais surpreendido com aquilo que é revelado sobre a vítima são a sua família e os seus amigos. Aqueles que acreditavam conhecer tão bem essa pessoa, surpreendem-se que tenha tido outras relações, outros gostos, que se relacionasse com certo tipo de pessoas. Numa investigação policial tudo isso vem ao de cima e é quase sempre um choque – descobrir que a pessoa que pensávamos conhecer tão bem tinha outra vida.

Por que quis tratar um casal homossexual masculino neste livro?
Em primeiro lugar porque reflete um aspeto da sociedade espanhola, que já permite o casamento homossexual, é porque é uma situação normal. Portanto, recorri a algo que é absolutamente do nosso tempo e pareceu-me um tema atual. Além disso, atua como uma “armadilha” para o leitor ao nível da trama do romance. Porque na primeira parte o Manuel descobre que o seu marido morreu num acidente de automóvel, mas morreu numa cidade onde não era suposto estar e quando chega a essa cidade para reconhecer o corpo, descobre que ele tem família – os pais e irmãos. E como se não bastasse pertence a uma família nobre, importante, com muita influência na zona e de cujos negócios se vinha ocupando nos últimos anos. Creio que esse é o momento em que o facto de ser um casal homossexual leva o leitor, incluindo o leitor com menos preconceitos, a pensar que provavelmente foi isso que o levou a ocultar parte da sua vida. Porque nem Manuel sabe que o seu marido pertencia a esta família, nem a sua família sabia que ele era casado.

A escritora esteve em Portugal para lançar o seu livro e participar no Folio (Fotografia: Paulo Spranger)

Essas duas entidades, o casal e a família, sugerem também um contraste em dois mundos aparentemente diferentes.
Claro. Temos uma nobreza burguesa de uma zona rural, na Galiza profunda, e um mundo absolutamente urbano onde vivia esse casal, em Madrid, uma cidade aberta, liberal. Manuel é escritor, portanto é também um mundo intelectual, onde essa situação [do casal] é perfeitamente aceite. E há esse choque deste Manuel quando vai a esse lugar. É outro choque, depois do choque da morte, que acontece aí. Depois estamos a juntar um escritor homossexual a um polícia reformado, que tem outra idade, que tem outra educação, é de outro tempo e a quem choca profundamente a homossexualidade masculina e que não tem problemas nenhuns em mostrar a sua homofobia. E também temos um padre católico com tudo o que isso implica.

Até que ponto essas personagens e os mundos que representam podem ser uma metáfora das diferenças culturais, regionais de Espanha? Se é que representam.

Penso que devemos separar a crispação política do sentimento real das pessoas, de cada indivíduo. A política que, em teoria, é chamada para o entendimento e para que sejamos mais unidos, está provado que na maioria das vezes o que consegue é crispar as situações ao ponto de estas se traduzirem muitas vezes numa crispação na rua que não existe. Não existe esse ódio ou esse confronto feroz entre as pessoas. E creio que é algo que está a ocorrer a nível mundial, quando vemos decisões de voltar a erguer muros, de voltar a separar por raças, por países, de chamar legais ou ilegais às pessoas – todas as pessoas são legais, todos nascemos neste mundo e temos todos o mesmo direito. As três personagens representam, com efeito, três vontades e aspetos distintos da sociedade. Mas a luz deste romance vem de onde vem sempre a luz, do entendimento do ser humano. Creio que quando as pessoas são capazes de se aproximar sem olhar a preconceitos, encontram sempre algo em comum e que os une.

Começou por escrever contos infantis. Como é que é que foi a evolução para os policiais, para os thrillers?
Bom, comecei a escrever contos infantis quando eu própria ainda era uma menina. Sou a irmã mais velha de quatro irmãos e lia-lhes contos e alguns que eu inventava. Por isso, comecei com os contos infantis. Tinha 14 anos. Em seguida passei para pequenas histórias e as primeiras já tinham um tom policial, ou algum segredo. Sempre gostei disso. Desde os primeiros escritos que não estão publicados já se vê claramente o gosto pelo mistério, o gosto por revelar o que está escondido e pelos sentimentos humanos.

Gostaria de voltar a escrever contos infantis?
Não [risos]. Considero-o extraordinariamente difícil. Creio que é difícil chegar às crianças a partir do mundo dos adultos.

Há cada vez mais mulheres a escrever policiais. É o mistério que leva as autoras a interessar-se por este género literário?
Eu diria que não tem tanto a ver com explorar a parte obscura do mundo – a prostituição, a droga, a delinquência –, que tradicionalmente tem sido a maior parte dos romances policiais e que tem um tom mais masculino. São policiais mais maduros psicologicamente. Não é apenas o crime e a sua resolução e os aspetos mais sórdidos, mas também o modo como a onda expansiva do crime afeta a todas as pessoas que estão próximas. E isso é muito mais interessante para mim, como o crime afeta cada um. Não posso falar por todas as autoras, claro, cada uma saberá porque escreve. O que é verdade é que as mulheres sempre estiveram na literatura e sempre tiveram um papel secundário. E vimos que no passado houve escritores que firmaram obras que tinham sido escritas por mulheres. Felizmente, o leitor não tem nenhum tipo de preconceitos na hora de escolher a sua leitura. É-lhe igual ser homem ou mulher.

A família nobre que retrata no livro, e o tipo de influência que representa, é uma realidade diferente da de Portugal, que é uma república, apesar de também termos famílias poderosas. Mas em Espanha qual é exatamente a influência dessas famílias?
Bom, a família nobre do romance é uma caracterização literária. Realmente, não se refere a nenhuma família nobre em particular. Mas queria usar isso como uma representação de algo que ocorre constantemente na sociedade espanhola – por sorte, cada vez vemos menos. Há uns anos, quando começaram a aparecer os primeiros casos de corrupção grave estavam sempre envolvidos políticos. Mas também havia grandes famílias de empresários, que ao longo de gerações foram repassando o seu poder e a sua riqueza. E havia um sentimento que me horrorizava, que era as pessoas comentarem que àqueles não ia acontecer nada porque é daquela família, desta empresa ou o diretor de. Esse sentimento foi sendo assimilado na sociedade até ao ponto de sentirmos que havia dois pesos e duas medidas e que não era o mesmo se se fosse um cidadão comum que se fosse um político ou que se pertencesse a uma dessas poderosas famílias de empresários, industriais e desse género.

Então não há assim tantas diferenças…
Este sentimento é absolutamente comum. Estive na Colômbia, Argentina, México, com os jornalistas italianos, no outro dia, e diziam-me: ‘é exatamente igual’. Seja nobreza ou não’. Todos sabemos que há famílias que parecem intocáveis.

Tirou o curso de Direito, mas depois cursou restauração, teve um restaurante, inclusivamente. Ainda tem?
Não, tive há muitos anos. Mas isto é fácil para quem goste de gastronomia. Eu sou do País Basco, de San Sebastian, e a minha cidade congrega uma série de restaurantes estrela Michelin – um chef é uma pessoa muito respeitada em San Sebastian. E eu cresci com essa influência da gastronomia, do gosto pela evolução da gastronomia. Fascinava. Então há um momento em que fui fazer isto e foi muito compensador. E cozinhar é uma coisa que continuo a fazer e quando tenho tempo gosto de cozinhar para os outros.

Como basca, que solução antevê para o conflito entre o governo catalão e o governo central de Madrid?
Penso que a solução para todos os conflitos deste tipo passa por uma solução política, firme e com vontade de criar o diálogo. A crispação que acontece neste momento entre as pessoas leva-as a discutir isto, quando sabemos que as coisas realmente importantes, na nossa vida, passam por a nossa família estar bem, os nossos amigos estarem bem, os nossos pais terem uma vida digna, os nossos filhos poderem estudar, ser livres, por termos trabalho, saúde – aspetos bastante mais sensíveis que os aspetos políticos, que no momento em que chegam à rua sempre levam a uma certa tensão. Além disso, há sempre alguns elementos dentro da sociedade que estão à espera destes momentos de confusão para criar ainda mais confusão. Dou o exemplo com que se passou recentemente com os terríveis incêndios em Portugal e na Galiza. Houve imediatamente, e isso é bom, uma resposta na rua, as pessoas não ficaram em casa. Unem-se e saem para protestar e exigir medidas aos políticos. Mas nas redes sociais e noutros meios também houve pessoas a tentar semear o pânico, dizendo que havia muitos mais mortos do que os que houve. Com isto quero dizer que não devemos deixar-nos manipular por quem tenta piorar as situações. E é verdade que a Catalunha está a passar por um momento político extremamente complicado, mas por ser político há caminhos políticos para o resolver e com vontade de diálogo acredito que se possa resolver. Espero que as autoridades acalmem a população porque o mundo não vai acabar. Sobretudo que não nos rendamos ao pânico.

 

Imagem de destaque: Paulo Spranger