Subir

Dulce Félix: “Eu trabalhava numa fábrica, das 6h da manhã às 2h da tarde”

Dulce Félix, 33 anos, é uma das atletas portuguesas mais medalhadas. Começou a correr em miúda, decidiu ser fundista profissional a custo, mas aposta foi ganha rapidamente. Hoje, depois de correr a prova do Campeonato Nacional de Corta-Mato do Algarve, pelo Benfica, inicia uma nova etapa da sua vida desportiva. O grande objetivo desta época é os Jogos Olímpicos, para os quais tem quase certo o apuramento. Mas nos Jogos Olímpicos vai correr muitos mais quilómetros. “Quero correr no Rio de Janeiro a maratona, e vou tentar que a preparação corra 100% bem. Em 2012, nos Jogos de Londres, as coisas não correram tão bem, fui 21ª e este ano queria sem dúvida fazer um melhor resultado.”
As expectativas para este ano são altas? Se tudo correr bem em que lugar gostaria de ficar na maratona dos Jogos Olímpicos?
É muito difícil dizer. Se me perguntar qual é o lugar que gostaria era ficar nas 10 primeiras, sem dúvida. Já temos atletas que ficaram. A Jéssica Augusto ficou em 7.º é sinal que as portuguesas também conseguem atingir esse lugar ou até melhor. Se tudo correr bem… é que o lugar não depende só de mim. A marca depende só de mim mas o lugar depende das outras também. Espero ter um dia bom e se a preparação correr bem, se eu estiver confiante, porque a cabeça comanda o corpo, acho que tenho tudo para conseguir um bom lugar. Acho que já tenho dado provas, com os meus resultados, que sou uma atleta de nível internacional por isso acho que tenho de trabalhar, rodear-me das pessoas certas, de ter um bom apoio de uma marca, como a Adidas, um bom clube como o Benfica, a Go-Nutricion, na parte da alimentação, a federação, e assim conseguirei ter um bom resultado.

Como é que decide que provas quer fazer. Esteve até agora em preparação para correr para o corta-mato, começa depois a preparação para a maratona. É uma atleta polivalente.
Sim. Pista coberta é a única coisa que já fiz, mas não estou focada para aí. O Benfica tem outras atletas que podem fazer pista coberta e por isso estou liberta dessa parte. Mas faço corta-mato, estrada, pista ao ar livre e maratona, que é agora o principal objetivo. Sou eu que decido, sim, em que modalidades quero competir mas sempre com a ajuda do meu treinador.
Mas o caminho para uma prova como os Olímpicos começa muito antes da data da prova.
Sim. Precisamos de fazer uma marca, num espaço de um ano, para fazer esse tempo específico de corrida. Este ano creio que acaba em maio esse período de apuramento. Eu fiz logo a minha marca em abril de 2015, 2h25m, o que me deu logo marca de qualificação para os Jogos Olímpicos.
Duas horas, 25 minutos para fazer…
Duas horas, 25 minutos e 15 segundos para fazer quarenta e dois quilómetros. Só podemos ir três portuguesas aos jogos e quem vai são as que têm as três melhores marcas. Neste momento sou eu, a Sara [Moreira] e a Filomena Costa. Provavelmente há atletas que ainda vão tentar o apuramento, como é o caso da Jéssica. Eu acho que com 2h25m devo conseguir ir, acho que estou quase apurada.
Estas marcas têm de ser conseguidas em provas específicas.
Temos de treinar muito para conseguir correr desta forma. São três meses a treinar especificamente para uma maratona oficial para conseguirmos ter marcas reconhecidas e claro que há sempre o trabalho que já vem de trás. Na altura em que decidi começar a treinar para a maratona foi muito conversado com o treinador.
Quando é que decidiu que queria correr a maratona?
Foi em 2010. E a primeira vez que corri a maratona não correu muito bem… desisti. Acho que não estava preparada. Fisicamente acho que estava mas mentalmente, para sofrer tantos quilómetros, não estava. Desisti. Isto foi em novembro e em abril já estava a fazer outra. E nessa consegui fazer 2h25m de marca e decidi logo que para os Jogos ia ser a maratona.
É preciso ter alguma característica específica para ser fundista?
Temos, sobretudo, de fazer um bom trabalho. Não é só correr. Temos de fazer reforço muscular, uma boa alimentação, uma boa hidratação – ainda mais para uma maratona, se desidratarmos o corpo não consegue andar – é óbvio que há muita coisa por trás, antes de se chegar a uma maratona.
Como é que decidiu ser atleta de alta competição?
Eu trabalhava numa fábrica, das 6h da manhã às 2h da tarde. E já praticava atletismo. Já me estava a aproximar dos lugares da frente só que precisava de trabalhar mais, só treinava uma vez por dia e para chegar mais à frente era preciso mais. Fui depois quando fui para o Braga.
Que idade tinha?
Eu fui trabalhar com 17 anos. E praticava atletismo num clube lá da terra, o Futebol Clube Vizela. Sempre corri enquanto adolescente.
Lembra-se porque é que quis começar a correr?
Foi na escola, como todos os miúdos, era a oportunidade que nós tínhamos para estarmos todos na brincadeira. Onde eu morava era o único tipo de desporto que havia. Era o desporto escolar de Guimarães, São Martinho do Porto. E comecei a gostar. E não ia todos os dias ao treino. Era um bocado baldas. Depois fui para o Vizela e estiva lá a minha infância toda, doze ou catorze anos a treinar, a praticar atletismo, foi aí que comecei a ter bons resultados. Quando fui para o Braga, com 25 anos, foi quando decidi levar o atletismo mais a sério.
Imaginava que as medalhas eram para si?
Quando era miúda não. Eu gostava de ganhar uma medalha, mas nunca pensei que fosse possível.
Quando via provas na televisão ou as que aconteciam perto de casa pensava que ainda ia estar ali, a correr?
Sim, era um sonho. Quando comecei a entender mais sobre a modalidade via as provas e pensava “ai quem me dera estar ali presente”. E se calhar também foi isso que me fez deixar o trabalho. Tinha vontade de melhorar e quando fui para o Braga começou a ser muito cansativo trabalhar das 6h às 2h e ir treinar todos os dias.
Qual era o trabalho? O que é que fazia?
Era uma fábrica têxtil e eu supervisionava uma máquina automática. Eu andava todo o dia de pé, de volta da máquina, a ver se estava tudo a funcionar bem.
E é nessa altura que decide, com a sua treinadora, tornar-se atleta profissional…
Em 2007, quando fui para o Braga, os resultados começaram logo a aparecer. Então, decidimos tentar o apuramento para os Jogos. Já foi tarde, e fiquei a 10 ou 15 segundos da marca de apuramento. Mas nunca pensei que fosse evoluir tão depressa. Nessa altura só treinava uma vez por dia. Quando fiquei tão próxima da marca para o Jogos, em 10 mil metros, decidimos que se deixasse o trabalho teria outra capacidade para conseguir bons resultados.
Não teve medo?
Sim. Tive um bocado de medo. A minha treinadora dizia sempre “Deixa o trabalho que vais ter muito mais sucesso”. Mas monetariamente era uma decisão muito importante. Eu ganhava o salário mínimo, mas era um valor certo. Fui falar com o patrão, que ainda me mudou o horário das 8h00 da manhã às 4h00 da tarde, para eu poder treinar de manhã e à tarde. Ao fim de um ano era impossível, já não tinha vida e o cansaço começou a aparecer. Eu já não consegui render nem num lado nem no outro. Foi quando decidi abandonar o trabalho e os resultados começaram logo a aparecer. No espaço de quatro anos consegui logo marca para ir ao Olímpicos em 10 mil metros e em maratona. Foi uma opção nossa. Foi tudo muito rápido.
Hoje não se cansa de correr. O que é que sente quando corre?
É um prazer. Fazer o que gosto só isso é meio caminho andado para que qualquer pessoa continue a fazer o que gosta. Se eu não for treinar um dia não me sinto bem comigo própria. Falta-me qualquer coisa. Tenho de correr. Todos os dias treino duas vezes por dia. A organização do treino depende da prova para a qual me estou a preparar. Corro, faço reforço muscular no ginásio. Para a maratona treino uma média de 30 km por dia. E ao fim de semana tenho um treino longo, 30 km de seguida.
E ainda dói?
Dói, claro que dói. Normalmente costuma dizer-se que não é na maratona que se sofre, é nos treinos. Se fizermos uma boa preparação nunca sofremos nos 42 km. É claro que passamos aquela barreira de estarmos um bocadinho cansada de correr.
Isso existe mesmo? Aquele momento em que sabe que ou cai ou se o ultrapassa consegue chegar ao fim?
Sim. Se as coisas estiverem a correr bem essa barreira não aparece. Mas ali aos 30, 35 km é difícil Já desisti duas vezes aos 30 kms e acho que é mesmo aquela barreira da dificuldade. Depois dos 35km já pensamos que só falta um bocadinho. Embora eu nos Jogos tenha sofrido muito os últimos dois ou três quilómetros.
O que é que acontece no dia a seguir a um bom resultado?
Quando corre tudo bem, no dia a seguir estamos prontos para tudo, até para treinar. No dia a seguir a Londres, quando consegui a minha melhor marca, 2h25m15m, estava super bem-disposta, super feliz porque era um objetivo cumprido, o de bater o meu record pessoal.

 

Carla Macedo