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E que tal perder o medo da diferença?

Aquele era mais um dos nossos dias de praia. A Ana também lá estava e, a certa altura, disparou: “O que me dizes de ires a uma entrevista lá na empresa para a função de assessora de imprensa?”. Fiquei a olhar para ela, respondi “Eu?”, e ri-me. Nunca tinha pensado em começar a trabalhar antes de acabar a faculdade, mas a Ana insistiu no assunto e decidi aceitar. Não tinha nada a perder.

Por isso lá fui e, às tantas, vi-me numa conversa cheia de perguntas, às quais respondi de uma forma sincera, sem a pressão de agradar. O meu objetivo era trabalhar em televisão (estava a estudar para isso), pelo que tinha para mim que aquele momento seria apenas uma experiência nova, e que voltaria rapidamente à minha vida de estudante, em que a única preocupação era focar-me em terminar o curso, para depois seguir o meu sonho de miúda.

O caminho estava, de facto, traçado na minha cabeça há muito tempo. Estava, mas não foi por ele que segui. A verdade é que acabei por ficar com o lugar e foi assim que me tornei assessora de imprensa.

A cadeira de rodas com que cheguei àquele edifício em Lisboa, e que encaixei na mesa daquela sala de reuniões, nunca foi sequer um tema. Lembro-me que a única “referência” mais próxima disso foi um email que um dos administradores – que se encontrava naquela altura a recuperar de uma cirurgia em casa – enviou para toda a empresa a apresentar-me, e que terminava com um “Vai ser fácil encontrarem a Marta pelos nossos corredores, porque ela é a única que traz as rodas para dentro do escritório”. E foi assim que a minha cadeira também ficou “apresentada”, com graça.

20 anos depois, é lá que me mantenho, sempre desafiada – como é, aliás, apanágio da empresa – e sempre tratada com cuidado e carinho. Esta tem sido uma história feliz, em que ser diferente não fez qualquer diferença. Conheço outras, é certo, mas a realidade da grande maioria das pessoas portadoras de deficiência não é esta.

E aqui a Administração Pública não serve, como devia, de exemplo. Segundo dados recentes publicados na imprensa, desde 2010, o Estado abriu 77 concursos públicos, 24 mil vagas, tendo contratado apenas 46 pessoas portadoras de deficiência. Já agora, em 2017, nem uma.

O nosso país está na moda. Quase todos os dias vem de lá mais um prémio que nos coloca em destaque nas páginas dos principais media internacionais. Mas a diferença continua a meter medo. A causar desconforto. A suscitar dúvidas. A afastar. E isto não é de um país moderno ou que mereça prémios. É de um país pouco inteligente que, quando olha, não consegue ver para além da limitação. É de um país que, quando olha, não consegue ver profissionais capazes. E que nem sequer percebe que se trata de gente que foi já posta à prova tantas vezes, que aprendeu a eliminar palavras como “impossível” e “obstáculo” das suas vidas, e ver isso como mais uma vantagem. Perante isto, a limitação é de quem, afinal?

É urgente olhar para a diversidade e para a diferença como algo positivo, que acrescenta valor. É urgente eliminarmos o preconceito e darmos espaço à tolerância. Só assim nos poderemos tornar num país que proporciona a todos as mesmas oportunidades, que respeita verdadeiramente todos os seus cidadãos. E, quando isso acontecer – aí sim -, seremos dignos do melhor prémio de todos: o de um país verdadeiramente inclusivo.