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“A moda é uma área que tem muito dinheiro mas só do Centro para cima”

A estilista Eduarda Abbondanza

A Moda Lisboa começa esta quinta-feira com as Fast Talks, um ciclo de palestras que servem para pensar a moda e que, nesta edição, discutem as políticas desta indústria. Na sexta, têm lugar os primeiros desfiles, os do Sangue Novo – para jovens talentos – e depois, sábado e domingo, serão os valores consagrados da moda portuguesa que sobem ao palco do Pavilhão Carlos Lopes. O renovado espaço do Parque Eduardo VII recebe pela primeira vez os desfiles da Semana de Moda da Capital, que vive há 25 com financiamento camarário e patrocínios de empresas privadas. É também para pensar a moda portuguesa que é feita esta entrevista. Eduarda Abbondanza, a presidente da associação Moda Lisboa, explica ao Delas.pt para que serve uma semana de moda e dirige palavras duras à tutela: diz que o País vive numa situação de concorrência desleal por causa dos fundos europeus distribuídos apenas “do Centro para cima”, fala de canibalismo e afirma que há espaço para duas semanas de moda em Portugal – mas que todos ganhariam se fossem complementares.

A Moda Lisboa começa este 5 de outubro. O que é que vamos ver nesta edição?

O motivo principal da Moda Lisboa, o foco, são as coleções que hão de vir. Se bem que depois há cem mil outras coisas que acontecem e para as quais nós também dirigimos a atenção que é a moda em si própria. Estamos a assistir à primavera/verão 18, porque nós continuamos com estes calendários absurdos.

O que é que quer dizer com “calendários absurdos”?

Continuamos sempre, apesar de haver tentativas para que a coisa seja feita “See now, buy now”, ou seja, “comprar agora o que se está a ver”, o facto é que esta organização da indústria da moda a nível mundial é muito difícil de quebrar, porque envolve o mundo inteiro, envolve milhões de empresas que trabalham com estes calendários. Alterar estes calendários não irá acontecer assim e como tal o grosso continua a trabalhar assim.

Houve algumas tentativas já de implementar um novo sistema, em 2016 falava-se de uma revolução do sistema da moda, o Tom Ford e Burberry foram algumas das marcas que tentaram fazer essa alteração e, no entanto, agora estamos a ver que não é nada fácil.

Não, não é. Mas sabia-se, toda a gente que trabalha em moda sabia, que a moda também tem a sua “política” e portanto era uma maneira de captar a atenção e uma maneira de tentar evitar a cópia. E tentar evitar tantos custos que a moda tem, como seja a armazenagem e a cópia. Porque se a coleção for feita e vendida é mais difícil que marcas de grande consumo copiem. Esse é um dos grandes problemas da moda.

Em momentos mais românticos parece que copiar não faz mal nenhum, é reproduzir e é passar a mensagem… sim, uma, duas, três, mas ao fim de tantos anos cria rombos nas marcas.

Qual é a mais-valia para o consumidor em vez de optar por uma cópia muito mais barata?

Eu não consigo usar cópias, porque é uma coisa falsa, é um símbolo falso. E na moda não compramos aquilo que precisamos. Aquilo que precisamos é o arroz e a carne e o peixe e os legumes, a fruta. A moda ultrapassa esses limites do que precisamos, precisamos emocionalmente, precisamos porque não conseguimos viver a menos de. Tem muito a ver com o nosso posicionamento e com a maneira como nós pensamos. Eu sentir-me-ia sempre mal com uma coisa que está a tentar ser aquilo que não é. Prefiro ter um cesto de palha, porque ele é genuíno. A compulsão, a compulsão faz com que a cópia exista muito, porque as pessoas como têm muita necessidade de comprar não podem comprar sempre coisas muito caras, então compram baratas. Mas a compulsão existe, é como o stresse, faz parte do nosso momento, mas não é propriamente a melhor coisa com que nós podemos escolher para viver. Naquilo que me diz respeito, eu tento controlar a compulsão nos limites daquilo que é possível.

Mas há uma relação direta entre o preço e a qualidade do design e a qualidade do material?

Há sempre. Não é à toa que tudo o que eu tenho que tem determinadas marcas, de determinado segmento, dura 10 anos, 15 anos, e são intemporais. Elas aguentam. E tudo o que eu tenho que compro de uma forma mais a correr e que não custa esse dinheiro e portanto eu também não lhe atribuo esse valor simbólico, é para servir aquele momento. Às vezes não duram sequer seis meses, ou porque perco, não valorizo, também não lhe dou muita atenção e também não tenho um handle care proporcionado, que é: não vale. Eu sendo uma autora, naturalmente, vou sempre… nem tem a ver com uma questão de princípios, faz parte de mim. Eu não consigo comprar uma cópia, uma cópia de nada.

Imagino que para quem é compulsivo e não é milionário que para extravasar a sua compulsão tenha que comprar muita porcaria. Nós temos muitas coisas a mais.

Eduarda Abbondanza viveu em Itália, era muito nova, estava nessa altura em Milão a estudar. Voltou de Milão e envolveu-se imediatamente nas Manobras de Maio, em 1986. Quer-nos falar desse período?

Eu estive sete anos em Milão, de vez em quando vinha a Lisboa, e agora já é muito tempo. Mas as manobras de maio eram uma excitaria, era tudo o que podíamos querer naquela altura. Era encontrar todas as pessoas que nos poderiam interessar, ou seja, que tinham a mesma perspetiva da sociedade, do mundo e que tinham atividades criativas em várias áreas. Às Manobras de Maio vinha muita gente do país todo, sendo que era uma organização sediada em Lisboa, portanto a maior parte era Lisboa. Era mais que um desfile, porque todos nós fazíamos tudo e isso permitia um trabalho em grupo, com diversas disciplinas incrível. Eu tive como meus modelos, Inês Medeiros, a atriz, a Maria e a Inês. A Inês está a concorrer a Almada, em política, neste momento, os Heróis do Mar também, Pedro Lata, Rui Reininho, Fernanda Fragateiro, Pedro Casqueiro. Eu tive o Pedro Casqueiro como meu manequim.

Nessa altura a Eduarda Abbondanza é designer apenas. Como é que se verifica esta alteração na sua vida? A Eduarda continua a criar, continua ligada à moda, mas com funções institucionais muito diferentes.

Isto tem tudo a ver com um conjunto de coisas que se reúnem energeticamente também e tem a ver com a sensibilidade, com a perceção daquilo que está à nossa volta. Nós estávamos todos muito ligados a tudo aquilo que se estava a passar e portanto, de repente, as Manobras de Maio foi um sítio que nos colocou em contacto uns com os outros. Não havia internet nessa altura, havia o telefone fixo que não saía dali. E portanto, a criação de networking e de conversar era feita em locais, tinha de ser feita pessoalmente e tinha de ser combinado previamente. Daí a importância do Frágil, porque toda a gente sabia que saindo ia encontrar os seus pares naquele sítio. Era discoteca mais mais importante de Lisboa na altura e como não era possível ligar a toda a gente na altura, sabia-se que ali era uma zona de conforto, porque alguém conhecido iria encontrar, não estava perdido. E as Manobras de Maio foi também o local que proporcionou esse encontro, para vários grupos. Estou a falar especificamente no meu, que permitiu que eu encontrasse fotógrafos, como Luís Maio… 50 mil pessoas de várias áreas e como nós discutíamos muito, no sentido de conversar, de pensar, nós tínhamos um grande preocupação pela cultura, por sermos cultos, o contrário de ignorantes basicamente e estudávamos imenso. A partir desse grupo que se criou com interesses semelhantes e do facto de já haver uma série de designers espalhados pelo país com pequenos ensaios de roupa no sentido de a vender, de chegar ao consumidor, também a moda na sua vertente mais artística, mas também na vertente que quer vestir pessoas. E de alguma maneira nós já trabalhávamos para as áreas do espetáculo, todos. Ainda antes do curso eu já fazia guarda-roupas para cinema, teatro, estava muito ligada a essas áreas. E portanto, por esses razões todas, porque eu e o Mário Matos Ribeiro, nessa altura tínhamos estado a trabalhar durante dois anos e meio no Porto, conhecíamos o tecido industrial português todo, e porque existia um convite para fazer uma passagem de modelos nas festas de Lisboa. Tudo isso foi o arranque para a Moda Lisboa.

As Manobras de Maio são um proto-início da Moda Lisboa?

Não, não são. As Manobras de Maio são o proto-início de uma movida que não tem só a ver com moda, tem a ver com muito mais coisas de todas as áreas. A Moda Lisboa surge a partir de um encontro de pessoas e do fervilhar de querer fazer as coisas de uma certa maneira e também da experiência que tínhamos do Porto e também desse convite que tínhamos da Câmara. Eu acho que as Manobras não são o berço da Moda Lisboa, são o berço de uma Lisboa culty, de um certo tipo e que permitiu esse encontro de pessoas que gerou… no nosso caso nós fomos fazer a Moda Lisboa, noutros casos foram fazer até bandas.

Em 1991 como é que era a moda portuguesa e como é que ela está hoje?

A moda portuguesa era a Ana Salazar, a Manelinha Gonçalves, com estilos, linguagens e conceitos completamente distintos, antagónicos quase.

Faziam-se desfiles em separado.

Digamos que a Manelinha Gonçalves e a Ana Salazar eram as duas pessoas em Portugal, que eu me recordo, que faziam desfiles antes da Moda Lisboa. O Zé Carlos também. Mas tanto a Manelinha como a Ana tinham uma relação com o design de moda, o Zé Carlos era mais costura, mais ligado àquilo que se chama a alta-costura das cidades, demi-couture.

Como é que se define um designer de moda?

Hoje em dia um designer de moda é alguém que esteve preparação e formação. Não tem de ir à faculdade, há n formações no mundo. Não só ensino superior, há ensino técnico profissional e que são muito boas formações e outras são formações de ensino superior. Tem de ter formação na área porquê? Porque, isto depois de tanto pensamento, tanta reflexão sobre o que é o design no princípio do ano 2000 e um bocadinho atrás.

O design é uma metodologia, é uma forma de trabalhar. E como tal, ela tem de ser ensinada, é uma cultura que tem de ser ensinada e praticada.

Designer de moda pressupõe sempre que existe formação, não é autodidata. O que não quer dizer que depois de muitos anos de trabalho, como todos nós também chegámos a n coisas porque não havia formação na altura. Aliás, no outro dia estávamos a rir-nos sobre a questão das StartUps. Start Up não é mais do que uma metodologia e validando metodologias, chegamos à conclusão que metodologia do design que nós usamos há 25 anos é a base da metodologia de uma Start Up. Que é a validação sistemática através de várias etapas, com um sistema de interatividade de correção ao longo desse mesmo processo. Palavras novas, ideias, novas, mas tem de existir uma estrutura.

E há talento? A Eduarda Abbondanza é professora na Universidade, no curso de Moda, consegue ver logo quem é que vai tem talento e quem é que não tem?

Eu sempre tive uma abordagem muito diferente do conjunto dos professores. Toda a minha vida. Umas vezes mais criticada, outras menos, é me indiferente e sempre tive muito bons resultados com os meus alunos. Eu nunca trabalhei para os alunos que supostamente são os melhores, nunca na vida. Eu de tiver 15 alunos, tenho 15 alunos com características diferentes. A minha tarefa primeira é perceber quais são as características de cada um deles. Eu gosto de trabalhar com pessoas felizes, não gosto de trabalhar com pessoas menos bem resolvidas, às vezes também tenho de trabalhar, mas tento de alguma maneira ajudar a que as coisas sejam positivista. E como tal, dentro da área da moda, que tem tantas possibilidades, o que eu tento fazer, juntamente com cada um deles, é que eles encontrem o que eles mais gostariam de fazer. Sendo que a única exigência é: eles têm de ser os melhores. Aí não brincamos, mas não tem de ser todos criadores.

O que é que há mais para fazer na área da moda?

Há muita coisa para fazer. Desde a área da comunicação, à investigação, à escrita, ao styling, aos acessórios, à criação de produtos, ir trabalhar para gabinetes de design, ir trabalhar para a indústria. Há milhões, mas milhões de atividades. Como tal, se eu ajudar cada uma daquelas pessoas a encontrar a sua verdadeira natureza essa pessoa tem muito mais hipóteses de ser muita boa naquilo e eu não estou a criar 15 designers que não são designers e que uns são melhores e outros são piores. Não.

Eu estou a criar designers sem dúvida, porque o design é uma metodologia de trabalho e uma cultura, por isso eu estou sempre a aplicar o design a áreas diferentes.

Se eu descobrir um grande “canhão” para a área da moda, eu vou trabalhar com ele, vou-lhe dar muito espaço e vou tentar juntamente com ele perceber as suas fraquezas. Ou para as corrigir ou para as complementar com valências que deixem de ser fraquezas. Porque se a pessoa se conhecer é menos hesitante, é menos frágil, tem menos medos, se tiver consciência de si própria, no bom e no mau. E as outras pessoas vão trabalhar naquilo que podem ser bons, eles têm é que ser todos bons.

Essa ligação às gerações mais novas, na Faculdade, é uma das inspirações para abrir o Concurso Sangue Novo na Moda Lisboa?

A minha relação com a faculdade tem muito a ver comigo e com a perceção das novas gerações. Para mim é como uma ficha, eu tenho de carregar o telemóvel e vou carregar naquela ficha.

A faculdade para mim é uma ficha. Para mim a faculdade não tem outro simbolismo que não seja o meu contacto direto com as novas gerações.

Por outro lado, nessa informação brutal que eles me dão sem ter consciência disso eu permuto isso com o meu conhecimento, com a minha experiência, com a minha capacidade, com a minha sabedoria com eles. É uma permuta sistemática. Depois o Sangue Novo… por exemplo, eu não tenho alunos a concorrer da faculdade há n edições, porque estive afastada da faculdade e a faculdade mudou muito e anda não percebi muito algumas coisas e voltei há pouco tempo. Voltei há um ano, estive cinco anos fora da faculdade. E talvez por orientação programática e etc. eles não estejam tão atentos aos concursos como já estiveram no passado.

Mas o Sangue Novo é uma das iniciativas mais pujantes da Moda Lisboa e tem trazido pessoas desconhecidas que começam a sua carreira ou as suas apresentações públicas ali.

É uma plataforma fundamental. A moda precisa deste movimento. Porque é que de seis em seis meses muda tudo? Porque é assim inquieta, precisa de estar sempre a mudar tudo que é para as pessoas consumirem. Faz parte do sistema, mas é emocionante e é excitante. Eu posso ter o despertador às 4h da manhã, porque tenho os desfiles de Nova Iorque para ver em direto. E isto é uma grande adrenalina. Eu adoro moda.

Mas a criação, os novos valores…

É preciso para a renovação do próprio tecido e da indústria da moda. É um bocado como as marcas há uns anos. As marcas Gucci, Chanel, Dior, começaram a perceber que o seu público estava a envelhecer e que tinham de dar ali uma grande reviravolta. Porque o seu público eles já tinham, estava mais que consolidado enquanto valor de marca, portanto tinham era que caçar as filhas e as netas e isso pressupunha uma grande revolução. E a moda vive toda muito assim, a criação de novos públicos. E como tal o Sangue Novo é a plataforma que procura onde é que estão e cria oportunidades para que se mostrem.

E como é que as pessoas chegam ao Sangue Novo? São elas que se autopropõem? É a Moda Lisboa que as localiza?

É um concurso e tem um regulamento muito preciso. Começa a decorrer quase quatro meses antes da edição e segue para todos os estabelecimentos de ensino de moda, seja técnico-profissional, seja privado, seja superior, do país.

E depois há pessoas que passam do Sangue Novo para o LAB. Quem é que são essas pessoas? Que características é que elas têm?

Enquanto no Sangue Novo são alunos de design de moda que ainda estão a estudar ou que acabaram há relativamente pouco tempo. Porque nós temos a informação nos nossos dispositivos digitais, na internet, etc., mas a informação vai para os estabelecimentos de ensino também. Eles têm normalmente uma relação. Porque no Sangue Novo nós estamos à procura também ali de pessoas que dão bastante nas vistas mas não vão criar uma marca, acabam por ser absorvidos pelo conjunto de marcas nacional e internacional e vão desenvolver atividades na área da moda nessas empresas. A nossa procura no Sangue Novo são puros sangues para a área da moda e a área da moda é um chavão muito grande. No LAB já não é assim, a triagem está feita. Para entrar no LAB significa que já se tem uma marca, já fez essa decisão e já começou o caminho antes.

Não há ninguém que esteja no LAB que não tenha uma empresa já.

Mas há depois uma diferença entre o LAB e os desfiles. Qual é?

É uma incubadora, uma incubadora aceleradora. Serve para as duas coisas. No LAB nós fazemos muito mentoring, acompanhamos muito. As empresas estão a nascer.

E depois quem vai para os desfiles é quem se autopropõem? Quem paga? Como é que isso funciona?

O LAB está ali naquela incubadora aceleradora durante o tempo que for necessário, não está definido e pode até parar algumas estações. Nós temos é de saber as razões porque isso está a acontecer. E muitas vezes somos nós até que sugerimos que pare. Na passerelle principal estão os criadores que já existem há mais tempo e que têm as suas próprias empresas, equipas, sistema de distribuição e de venda, lojas, e por aí fora. Umas vezes, tanto no LAB como na passerelle principal, uma vezes propõem-se, outras vezes, grande parte das vezes, somos nós. Sendo que a passerelle principal é muito alimentado pelo LAB e o LAB é muito alimentado pelo Sangue Novo.

Eduarda Abbondaza, para que é que serve uma semana de moda?

Uma semana de moda serve para mostrar. Inicialmente ela mostrava os público profissionais, hoje em dia os desfiles, não é a semana de moda, porque houve uma grande democratização na área da moda que não tem só a ver com a área da moda, tem a ver com o digital. A internet produziu um sistema de democratização muito grande e hoje em dia já toda a gente vê os desfiles seja de que maneira for. As semanas de moda criam as estruturas e chamam todas as pessoas que consigam chamar, mais interessantes, para observar o trabalho daquele conjunto de pessoas que está a apresentar. E isso passa por imprensa nacional, imprensa internacional, buyers, clientes, investidores… Todas as atividades da moda se reúnem também e é o momento, de seis em seis meses, em que a família da moda em todas as suas vertentes se encontram num mesmo espaço. Estão os manequins a desfilar, estão as agências, os backstages, os fotógrafos. É uma concentração de comunicação e de trabalho muito grande e que, sendo organizada desta maneira, visto que um espetáculo de moda é um espetáculo caríssimo, porque ele envolve muitos meios técnicos, mas envolve muitos meios humanos. E como nós estamos numa sociedade evoluída, tudo o que tem meios humanos é muito caro. Como tal, tudo o que tem a ver com moda é muito caro fazer um desfile é muito caro, e criando esta plataforma acaba por ser mais sustentável.

E há retorno?

É tudo medido. Nós não fazemos desfiles, nós somos uma associação, nós trabalhamos moda o ano inteiro e somos especializados na criação de projetos disruptivos. Projetos edição zero, aqueles que não existem, que nunca foram feitos, nem testados, e isso dá sempre muito trabalho. Mas fazemos, temos feito muitos ao longo da nossa existência. E portanto nós trabalhamos todos os dias e trabalhamos fora de horas, na medida em que nós fazemos um trabalho silencioso, ou seja, a comunicação não se interessa tanto por falar sobre isso, mas que é um trabalho fundamental para que a moda existem em Portugal.

Eduarda Abbondanza, como é que está a moda em Portugal?

Essa [pergunta] é muito difícil. Há a tentação de dizer logo o que vai na cabeça e aquilo que deve ser dito por uma presidente de uma associação. A moda podia estar muito melhor do que o que está. Mas isso é inevitável.

A moda é uma área que tem muito dinheiro, por causa dos fundos comunitários, há muito tempo, mas só tem do centro para cima, o que faz com que o país seja um bocado desconexo. As pessoas que estão em Lisboa vivem de uma maneira completamente diferente, parecem dois países distintos.

Não há financiamento da UE para projetos de desenvolvimento sediados em Lisboa.

Não, nem para projetos internacionalização. O que faz com que o país viva duas realidades completamente diferentes e, muitas vezes, essas realidades não convivem muito bem porque são distintas. Por exemplo, os criadores em Lisboa, não tendo financiamento, todos têm loja. Porque se não venderem não são empresas. Lá em cima já não é tão verdade, porque existem financiamentos de 85% a fundo perdido, o que é brutal. Isto faz com que também haja uma saída das empresas de Lisboa enorme, que é artificial, não é natural. Porque se estiver sediado fora desta zona tem uma taxa de financiamento que não tem estando nesta zona. Tudo isto altera o País no sentido natural do mercado.

É assim que explica a saída dos designers que estavam com a Moda Lisboa há mais de 20 anos e que foram para o Portugal Fashion?

Sim, isso é o business of fashion. É tudo uma questão económica. Sim, claro, naturalmente. Todos sabemos isso, é estúpido não o dizer. Isto para explicar que a moda podia estar melhor. A partir do momento que vêm muitos milhões, deveria implicar que existissem organizações sérias na área da moda, em Portugal, com uma relação com o governo, seja ele qual for, porque os fundos comunitários estão diretamente ligados as instituições públicas e governamentais. Só que é como se a moda fosse uma área um bocadinho maldita.

Do ponto de vista da legislação, da definição de uma estratégia, deveria haver um pensamento do próprio país como existe para as outras coisas, sobre a própria moda e pensá-la de uma outra maneira.

Simplesmente o que tem acontecido é que parece que ninguém se quer meter no assunto, mas no entanto, esse assunto no qual ninguém se quer meter está a gerar há muitos anos uma entropia estranha no país.

Qual é a proposta da Eduarda? O fim de duas semanas de moda em Portugal?

Não, não. A coordenação. Acho que uma organização tentar canibalizar a outra é aquilo que não existe no mundo. No país, as organizações canibalizarem-se é uma coisa que não existe no resto do mundo. As organizações trabalham, coordenam e dividem trabalho. Se eu estou a trabalhar mais nisto, então vou trabalhar mais aquilo. Porque há um trabalho enorme para ser feito e há que coordenar, porque a rentabilização de esforços é uma coisa importante. O dinheiro não é eterno, é muito mas pode produzir mais riqueza.

Então como é que vê a evolução da moda a partir de 2020, quando acabarem esses fundos? O que é que vai acontecer à moda portuguesa nessa altura?

Eu vivo há 20 anos a ouvir essa história de que os fundos vão acabar, que é o último quadro comunitário. Portugal tem conseguido, e muito bem, renovar os quadros. E essa história do 2020 é o último, eu já ouvi isso no passado, portanto eu estou a ligar nada a isso, só vendo. É assim, eu não estou nada preocupada e isto porquê? Se for verdade a mim não me afeta nada. Zero. Aliás, se isso acontecer para nós até pode ser favorável, porque finalmente, depois de 25 anos nós conseguimos funcionar nas leis normais do mercado.

Se fôssemos analisar ao nível da lei da concorrência isto é completamente desleal, é não fazível.

Qual é o modelo de financiamento da Moda Lisboa?

Nós temos um protocolo com a Câmara Municipal de Lisboa que tem sido o nosso coorganizador, o nosso parceiro de berço desde 91 e depois procuramos financiamento privado.

E é por isso que têm empresas, algumas internacionais até, a patrocinar?

Sim, patrocinadoras. Temos que ter. Nunca nos fez sentido trabalharmos só com o protocolo da Câmara, tivemos sempre que procurar financiamento privado para fazer mais coisas.

Não acho que os fundos públicos tenham que fazer tudo, podem ser uma base para arrancar, para trabalhar, mas nós temos de procurar a autossustentabilidade também.

Nós, toda a vida, crescemos através do financiamento privado. Sendo que o nosso parceiro é um parceiro de berço fundamental para a existência da própria moda em Portugal. A Câmara de Lisboa tem ao longo da sua existência um papel determinante na indústria da moda em Portugal.

Eduarda Abbondanza a Moda Lisboa decorre até dia 8 de outubro, no Pavilhão Carlos Lopes, pela primeira vez. O que é que as pessoas vão encontrar na Moda Lisboa deste ano?

Espero que encontrem roupa muito gira, muito sexy, porque é primavera/verão, portanto mais despida, a ver-se mais o corpo. Vão encontrar também uma série de outras atividades, como o Wonder Room que está aberto ao público no Parque Eduardo Sétimo, junto à Moda Lisboa, e que este ano vai mostrar dezoito marcas portuguesas, produto estrela basicamente. Também no Wonder Room o público vai poder contactar com o autor, o produto e vai poder comprar e são tudo produtos com uma relação com a moda muitos inovadores e que as pessoas não conhecem. Por isso um convite desde já para o Wonder Room.

E para os desfiles? Como é que conseguem entrar?

Nós temos quotas que temos de cumprir. Temos a imprensa, temos os fotógrafos, temos agora uma nova classe que temos que a gerir também, chamada bloggers e influencers. Elas existem e temos que contemplá-la também. Depois temos os convidados dos criadores de cada desfile e que roda tudo, temos o protocolo, todas as instituições que convidados a assistir, mais as associações todas do setor da moda. Estamos a trabalhar com as principais associações, APPICAPS, ANIVEC e CENIT. A Moda Lisboa trabalha com associações têxteis, com as maiores, há muito tempo.

Vamos ter uma coisa nova que o público também vai poder aceder, com algumas regras. Que é um espaço chamado Show Case Moda Portugal.

O Show Case Moda Portugal é a indústria portuguesa, é o tecido industrial português. Vamos ter tudo isso a acontecer, as conferências, o momento de reflexão mais conceptual da procura dos desafios da própria área, o LAB vai ser ao ar livre, nos jardins e obviamente que quem estiver nas imediações vai poder ver, mas se aparecerem dez mil pessoas é difícil.

Há ainda a Workstation que é uma plataforma para fotógrafos de moda, onde nós damos total liberdade, acesso a todas as áreas, podem fotografar onde quiserem, não há restrição, não há briefing, não há nada. Convidamos sempre quatro fotógrafos e eles vão selecionar dez fotografias por dia do seu trabalho e vão expor no mural e essa é a sua visão sobre tudo aquilo que se está a passar. Podem estar nos bastidores, podem estar no meio do público ou podem estar quem sabe a onde. É a total liberdade. Esse mural vai crescendo e as pessoas vão criando esse hábito de ir vendo, isso vai estar disponivel para o público. Vamos ter ainda o espaço da APICCAPS, com uma série de marcas de sapatos, sendo que é uma associação que nos últimos tempos revolucionou todo o seu setor e que representa uma indústria valiosíssima e altamente competente em Portugal e com quem nós desenvolvemos trabalho há muito tempo e por quem temos grande admiração, porque é o exemplo português de que quando se define uma estratégia e se trabalha com objetivos e com estratégia, os resultados depois vêm.