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Elif Shafak: “Não é fácil ser-se turco, mas é ainda mais difícil ser-se turca”

É considerada uma das vozes mais marcantes da literatura contemporânea turca e mundial. Na Turquia, é a autora feminina mais lida e os seus livros estão editados em mais de 40 países, entre os quais Portugal, onde estão traduzidos e publicados, pela Jacarandá Editora, “A Cidade nos Confins do Céu” e “A Bastarda de Istambul”. Feminista e com um olhar atento sobre a condição das mulheres no mundo e no seu país, Elif Shafak analisa, em entrevista ao Delas.pt, o momento que se vive na Turquia após o golpe de Estado falhado de julho passado. A romancista de 44 anos mostra-se preocupada com as medidas que estão a ser tomadas e com o progressivo afastamento do país dos ideais europeus. Dentro disso, está ainda a situação dos direitos das mulheres, ausente, segundo diz, das prioridades políticas atuais. Se “não é fácil ser-se turco”, é, garante Elif Shafak, “ainda mais difícil ser-se turca”.

Como é que vê e analisa esta recente tentativa de golpe de Estado na Turquia?
A tentativa de golpe de Estado foi assustadora, chocante e bastante terrível. Ficámos todos chocados. Naquela noite [de 15 de Julho] mais de 200 pessoas foram mortas, os órgãos de comunicação social foram atacados, o Parlamento foi bombardeado. Eu condeno fortemente o golpe e aqueles que o organizaram. Ao longo da sua história recente, a Turquia teve três tomadas de poder por militares: em 1960, 1971 e 1980. Cada golpe trouxe violações massivas dos direitos humanos, fragmentou a democracia e fez o país retroceder. Não quero ver mais golpes militares na Turquia. O que precisamos é de uma democracia verdadeira, livre e pluralista.

Houve informação contraditória sobre quais poderiam ser os autores deste golpe e quais as suas motivações. Qual é a sua opinião sobre isso?
No início houve muita confusão, mas à medida que o tempo foi passando tornou-se cada vez mais claro que foram generais e soldados do Exército, apoiantes do clérigo Fethullah Gülen, que participaram neste golpe. Para mim, agora é claro que a comunidade ‘gulenista’ tem dois lados: um deles tem a ver com as escolas, a educação e a cultura – e neste existem boas pessoas; mas há um outro lado que é muito sombrio e sinistro e, definitivamente, nada transparente – é esta parte que se infiltra no Exército, na polícia e que tem a sua própria agenda. Isso é muito perigoso. As pessoas que planearam e executaram este golpe têm de ser encontradas e julgadas em tribunal, porque o que fizeram é muito grave.

Por outro lado, os dias seguintes a esta tentativa de golpe de Estado mostraram-nos um reforço dos poderes do presidente Erdogan, a par de uma redução dos direitos humanos e dos princípios democráticos. Como turca, qual é a sua maior preocupação neste momento?
Preocupa-me muito que, juntamente com aqueles que são culpados pelo golpe, algumas pessoas inocentes também estejam a ser acusadas de terem participado nele. Académicos, jornalistas, artistas são linchados nas redes sociais. Todos os dias alguém é apontado como alvo.

Há um clima de medo e de confusão, o que é muito triste e preocupante. Tudo devia ser julgado dentro da lei e a resposta ao golpe não deve tornar-se uma purga ou uma caça às bruxas.

Quando Erdogan declarou, por exemplo, a suspensão da Convenção dos Direitos Humanos o que é que isto significou exatamente? Tratou-se apenas de uma consequência do estado de emergência ou foi uma forma de concretizar outros objetivos?
A Turquia está a mudar muito rapidamente. Da hostilidade para com a Rússia passou-se agora para uma aliança. A política externa muda depressa. Por outro lado, neste momento existe uma inclinação política e social para trazer de volta a pena de morte, que foi abolida no passado, de forma a que o país estivesse em harmonia com as regras e regulamentações da União Europeia. Agora, estamos a desistir da União Europeia e isso é uma grande preocupação. Preocupa-me que a Turquia se esteja a afastar da Europa e dos ideais europeus.

Como é, neste momento, a vida do cidadão comum na Turquia?
É difícil ser turco, e um pouco cansativo também. Há tanta coisa que acontece e tão depressa que não há tempo para analisar, contemplar ou digerir. Como nação estamos constantemente a lidar com turbulência, bombas, tensões e demasiado stress. É solitário ser-se turco, mesmo que existam cerca de 75 milhões de nós. É um sentimento solitário. Neste momento, estamos todos muito emocionais. Foi impressionante ver as pessoas saírem para as ruas na noite do golpe para impedirem os tanques de passarem. Isso revelou um espírito coletivo incrível. O país precisa de uma coexistência pacífica que englobe toda a gente: turcos e curdos, e pessoas de todas as origens.

Estes acontecimentos e as suas consequências podem afetar ou, de alguma forma, limitar mais os direitos das mulheres no país?
As mulheres na Turquia enfrentam tantos problemas, e, no entanto, os seus direitos não são uma prioridade para os políticos. Ainda recentemente uma rapariga de 17 anos foi torturada e morta pelo próprio irmão, só porque ela tinha um telemóvel, que era seu, e recusou entregar-lho. As mulheres e as jovens têm uma vida muito difícil, mas não existe um movimento feminino forte, a política domina tudo. Temos de nos focar nos direitos das mulheres. Não é fácil ser-se turco, mas é ainda mais difícil ser-se turca.

Imagem de destaque de Zeynel Abidin

Ana Tomás