Subir

Erasmus: orgasmos, festas ou muito mais?

Três portuguesas e três estrangeiras revelam pormenores das suas vidas íntimas enquanto bolseiras. Todas adoraram a experiência e recomendam-na vivamente, sobretudo aos próprios filhos.

Basta dizer que se foi “estudante Erasmus” para receber um sorriso malandreco do interlocutor: a fama que o associa a uma vida sexual intensa persegue-o praticamente desde o início (a rima Erasmus/orgasmos, também). E desde sempre que as noitadas regadas a álcool fazem parte do imaginário do programa de intercâmbio internacional para universitários.

Mesmo se o programa se foi alargando a muitos outros destinatários – de alunos do secundário a professores do ensino superior ou jovens voluntários, por exemplo – o programa que em 2017 celebra os 30 anos nasceu para os universitários e foi sobre essa primeira saída de baixo da asa dos pais, na idade da experimentação emocional e sexual que quisemos fazer perguntas.

A realidade vivida nas trocas entre universidades, ultrapassa em muito o cliché e a frase batida, tal como relatam seis mulheres de três nacionalidades. Comum é uma conclusão: estudar no estrangeiro mudou efetivamente as suas vidas.

Sexo? Muito, mais ou menos ou… nenhum

Erasmus/orgasmos, verdade ou mentira? É difícil saber, até porque, como diz Susana Raposeiro, estudante de Comunicação Social na Universidade Católica e bolseira em Roma em 1999, existe uma regra de ouro a respeitar: “o que acontece durante o Erasmus morre lá!”. No entanto, perante o recorrente chavão mencionando orgasmos, parece-lhe que “as pessoas exageram um pouco. Se tivermos em conta que a maioria dos estudantes morava com os pais e passou a viver por conta própria, é normal que as regras mudem um pouco mas não era nada fora do normal”.

Susana Raposeiro foi bolseira em Roma em 1999

Passada uma década ou duas, muitos dos ex-estudantes têm relações estáveis, e por vezes filhos, pelo que é compreensível que não desejem publicitar as experiências sexuais da época. Catarina, uma portuguesa hoje na casa dos 30, recorda que teve seis parceiros e “muito enrolanço” durante os nove meses passados em Espanha, no anos 2000. Atribui essa estatística ao facto de “lá haver mais oferta interessante” e, sobretudo, “de não existir possibilidade de compromisso”. Além disso, confessa:

“Hoje odiaria cruzar-se com eles, ainda que ocasionalmente.”

No extremo oposto, a finlandesa Tiina Tissari, cofundadora e diretora executiva da marca de moda Vestiarium, não teve qualquer envolvimento quando, em 1994, estudou em Berlim. “Tinha namorado e conseguimos sobreviver ao afastamento, estamos casados há 19 anos. Foi mais uma vantagem de ter feito Erasmus: funcionou como um bom teste à nossa relação!”

Outras bolseiras viveram casos prolongados. Marella Pompilio, estudante de Economia, veio para Lisboa em 1992 e teve “uma belíssima experiência com que durou cerca de um ano. Éramos um casal estranho, um dinamarquês e uma italiana que comunicavam em português… Mas relações que nascem neste contexto são depois difíceis de manter à distância e terminámos”.

“As curtes e os namoros fazem quase sempre parte da experiência, é natural quando se tem 20 anitos, se está longe do ambiente habitual, a conhecer muita gente e cheio de entusiasmo com tudo o que se está a passar”, diz a socióloga Mariana Gaio Alves, que viveu seis meses em Pisa.

A sua história, no entanto, é original: em 1991 viajou com um colega de turma, com quem dividiu casa. 23 anos depois estão casados e têm três filhos. “Devemos ter sido dos únicos que partiram em Erasmus e, em vez de arranjarem um namorado ou namorada de outro país, acabamos a namorar um com o outro, sendo que já nos conhecíamos desde o início do curso do ISCTE!”

Tal originalidade faz com que não encaixe totalmente nas estatísticas divulgadas pela Comissão Europeia em 2014, relativas a todos os bolseiros desde o primeiro ano do programa (1987): 33% partilhavam a vida com uma pessoa de nacionalidade diferente; e cerca de um milhão de bebés nasceu de “casais Erasmus”.

Noites, alguma bebida e boa comida

Há uma festa que Mariana não esquece, 26 anos passados. “Fizemos um jantar português em minha casa. Não sei quantas pessoas lá estiveram… muitas nem conhecia pois eram amigos de amigos. Acabou com a polícia a bater à porta e a dizer que não podíamos fazer tanto barulho! O menu foi bacalhau com natas, mas encontrar bacalhau seco para confecionar o prato e cozinhar em si foi uma aventura…”

Marella Pompilio fez Erasmus em Portugal. Adorou a comida e os pais temeram que não regressasse a Itália, quando a visitaram em Lisboa

Marella recorda que saía muito à noite: “O Bairro Alto era o local preferido e custava tudo muito pouco comparativamente com os preços em Itália. Também ia muitas vezes jantar fora. A cozinha portuguesa é maravilhosa e conhecer a cultura de um país passa por conhecer também a gastronomia.”

Hoje, mais de 20 anos depois, continuo a fazer pratos de bacalhau, sobretudo o ‘à Brás’, que é o meu preferido!”

O principal destino noturno de outra italiana, Marina Marchetti, radicada em Bruxelas há umas duas décadas, ficava por perto, na Praça da Alegria. “Ia muitas vezes à discoteca Ritz Club e divertia-me imenso. Era a primeira vez que ouvia e dançava música africana. Em Itália, na época, não havia muitos imigrantes, sobretudo numa cidade pequena como a minha. Era contagiante e todos dançavam magnificamente. Fazia-me pensar num local transgressivo, cenário de um filme americano. Na realidade nunca aconteceu nada de ‘equívoco’, que me lembre, e as pessoas que conheci eram estudantes e gente que trabalhava, todos com muita vontade de dançar, como eu…”

Idiomas e outras aprendizagens

Nem tudo são rosas quando chega a hora de mudar de país e a língua pode ser parte do problema. “Fui de comboio de Lisboa para Pisa com dois colegas e levava um daqueles guias de conversação rápida, com o qual aprendi os dias da semana, os meses e outras palavras” conta Mariana. “Depois somos forçados a aprender rapidamente para resolver as tarefas básicas do dia-a-dia. Houve momentos em que era frustrante não compreender e não ser compreendida mas rapidamente nos adaptámos. Lembro-me é de tratar os professores por “tu”… Como aprendi a falar entre colegas, no início não sabia usar o modo de tratamento mais formal”.

A experiência de Marina Marchetti é semelhante: “No início estava completamente perdida, o português não é nada conhecido em Itália e os contactos com a universidade e com a família com que morei inicialmente eram muito difíceis. Ficava tardes inteiras no meu quarto porque não percebia uma palavra… Acho que pensavam que eu era mesmo solitária! A minha sorte foi conseguir lugar na residência universitária: morar com 14 raparigas lusófonas obrigou-me a aprender depressa”.

Erasmus: emoções que ajudam a ter uma carreira internacional

Além da língua, o intercâmbio obrigou a outras aprendizagens. “Tinha vivido sempre em casa dos meus pais” explica a socióloga, “por isso gerir as liras italianas – depois de ter depositado o cheque em Ecu, a moeda interbancária comunitária da época – para as despesas todas, fazer as compras e a comida, tratar da roupa e todas essas tarefas quotidianas, foi tudo uma enorme novidade… às vezes muito divertida, outras vezes uma seca e outras a não correr nada bem”.

Para Susana tudo foi mais simples pois, desde que entrou para a faculdade, “recebia uma mesada e tinha que orientar o dinheiro para o mês todo. Sabia cozinhar o básico e aprendi bastante durante o Erasmus”.

Marina lembra-se de que ter de ser, pela primeira vez, dona de casa a “divertiu muito. Não tenho é qualquer capacidade para cozinhar, devo ser a única italiana que nunca aprendeu a fazer mais do que cozinha de subsistência… Mas tornei-me ‘especialista’ em arroz e bacalhau.”

Amigos para sempre

Susana não mantém contacto com antigos colegas e Tiina sabe ocasionalmente de alguns, que continua “a considerar amigos”.

Há, no entanto, casos de relações que persistem no tempo, graças também às redes sociais, que lhes vieram dar outra atualidade após interregnos significativos: por exemplo, pessoas que se conheceram há 26 anos são “amigas” no Facebook há apenas oito. Antes disso, a troca de cartas inicial foi rareando e as chamadas telefónicas passaram a acontecer só para avisar que se ia de visita.

Susana Raposeiro, a primeira à esquerda, em casa com amigos de Erasmus

“Ainda que passem anos sem notícias, mais de duas décadas depois mantêm-se laços” diz a Mariana Alves. “Há três anos fui com o marido e filhos fazer uma viagem por Itália, visitámos alguns amigos e voltamos a Pisa e a outros sítios onde tínhamos estado durante o Erasmus”.

Marella Pompilio também visitou ex-colegas. Foi, por exemplo, à Tunísia e regressou a Lisboa, e também já acolheu a sua antiga companheira de quarto, oriunda de Macau, na sua casa em Itália. Marina idem: “Tenho caríssimas amigas que conheci durante o Erasmus, sobretudo portuguesas, com as quais estou sempre em contacto. Se não falarmos durante um período recuperamos rapidamente o tempo perdido e parece que nos vimos na semana anterior. Conheço os seus filhos, já as recebi em minha casa e elas receberam-me na sua.”

Catarina, apesar da vida sexual animada, também teve tempo para fazer boas amizades. Conta que uma das suas melhores amigas de hoje é uma alemã com quem dividiu apartamento. “Ela hoje vive em Sidney e eu no Porto. Encontramo-nos pelo menos de quatro em quatro anos. Tem sido muito bonito ver como fomos crescendo, construindo famílias. Temos hoje a vida quase igual – marido, dois filhos, somos as duas economistas. Naquela altura éramos tão diferentes. Eu era a louca e ela a atinada.”

Balanços muito positivos

Muitos anos decorridos, como se avalia o período Erasmus? Para Susana Raposeiro, “sem dúvida que abre os horizontes a novas realidades e experiências. Aprendes mais rapidamente a desenrascar-te e a ter certas responsabilidades. Também aprendi, ao partilhar casa com portugueses, uma alemã e um espanhol, que nem sempre tens que te dar com toda a gente, que há certas batalhas que não valem o teu tempo. E sim, há clichés sobre certas nacionalidades que são 100% corretos…

“A experiência foi tão boa que tentei por tudo ficar mais um semestre e, infelizmente, não consegui. Mas Roma será sempre a minha cidade!”

“Ajudou-me a estar mais segura de que sou capaz de gerir novas situações”, conclui Tiina, “e de fazer amigos de outras origens e culturas. E de que estou bem como sou, não preciso de parecer outra pessoa para ser aceite num ambiente diferente. Tem a ver com coragem para fazer coisas aparentemente um pouco assustadoras mas com tantas vantagens que vale mesmo a pena correr o risco”.

O balanço de Marina Marchetti é idêntico: “Ganhei consciência de que podia contar comigo, com o meu bom senso, a minha capacidade de me relacionar com os outros e de me organizar. Foi uma espécie de período de transição da vida de estudante, com o apoio da família, para a vida de mulher adulta, quando geralmente somos nós a cuidar da família… Uma espécie de prova geral que recomendo a todos os jovens para se aperceberem das suas capacidades antes de mergulharem no mundo adulto”.

Marina Marchetti reconhece que o programa Erasmus lhe mudou a vida e a transformou na adulta que é hoje

“É uma experiência fantástica de enriquecimento cultural e pessoal, a capacidade de adaptação a um país diferente constitui um bom ponto de partida para tudo o que irá acontecer no futuro” defende Marella Pompilio. “Já vivia longe da família desde os 18 anos mas a vida no estrangeiro é um verdadeiro desafio, que dá ainda mais satisfação quando tudo corre bem. Um dos momentos mais emocionantes aconteceu quando os meus pais me visitaram e os guiei por Lisboa: acharam-me tão feliz e integrada que temeram que nunca regressasse a Itália…”

Marella tem duas filhas e incentiva-as a participar nos intercâmbios para estudantes do ensino secundário. “Espero que no futuro possam fazer Erasmus na universidade pois, independentemente do local para onde se vá, é uma experiência que muda a vida, como me aconteceu.

Foi o período mais belo dos meus tempos de estudante, sem dúvida”.

Tiina, também com dois filhos, faz o mesmo, tal como Mariana, com três: “Tenho-os incentivado e a mais velha planeia partir no próximo ano. Mas será diferente: nós comunicávamos para casa por carta ou telefone, agora os jovens que vão estão muito mais perto da vida familiar e dos amigos. Acho que a nossa experiência era mais ‘radical’ porque era mesmo um grande afastamento”.


Teresa Frederico