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Escândalo solidário: ONG nega ter vendido roupa doada em feiras

A presidente da Viver 100 Fronteiras, organização não-governamental (ONG) suspeita de comercializar roupa doada para a Guiné-Bissau, afirmou esta quarta-feira, 4 de outubro, que nunca vendeu vestuário em feiras e que o material apreendido em Santa Maria da Feira tinha efetivamente fins humanitários.

Em causa está a apreensão no seu armazém, a 28 de setembro, de 96 mil peças de vestuário das marcas Salsa e Tiffosi que a GNR avaliou em 4,25 milhões de euros, pelo que, segundo fonte dessa autoridade policial, a ONG da Feira, presidida por Natália Cristina Rocha, estará agora indiciada pelos crimes de burla e fraude fiscal.


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A responsável da ONG afirmou à Lusa que “nem a associação, nem os seus representantes estão neste momento acusados ou indiciados para qualquer processo judicial“, e diz-se “estupefacta com tanta mentira e difamação pública”.

links_LadyGagaNatália Cristina Rocha declarou que os artigos apreendidos pela GNR “se encontravam legitimamente em armazém com várias outras roupas, material médico, produtos e mercadorias destinados a seguir para África nos próximos contentores, por terem sido doados pelas mais variadas empresas e particulares para esse efeito”.

Nunca esta associação vendeu roupas em feiras, seja de que marca for“, declarou a fundadora da ONG. “Se tal aconteceu, nada tem a ver com a Viver 100 Fronteiras, que nunca teve qualquer tipo de rendimento”, assegurou a responsável, lembrando que já em novembro de 2016 remeteu fotos à Salsa alertando para “a venda de roupa [dessa marca] numa feira“.

Natália Cristina Rocha questionou ainda a avaliação em 4,25 milhões de euros das peças apreendidas no armazém da ONG: “As doações realizadas pela Salsa são objeto de fatura-recibo e nunca à Viver 100 Fronteiras foi doado semelhante valor em roupa dessa marca“.

Há outras ONGs envolvidas?

A presidente da instituição salientou que “a Salsa também doa vestuário a outras instituições” e que, “a crer nos meios de comunicação social, há mais entidades que viram apreendidas roupas” dessa e outras marcas – no que se refere à Fundação João XXIII – Casa do Oeste, que é suspeita dos mesmos crimes após a apreensão pela GNR de 2.700 artigos numa loja improvisada numa garagem de Mafra, a 4 de setembro.

Um padre e uma funcionária dessa fundação da Lourinhã foram dias depois constituídos arguidos, mas Natália Cristina Rocha esclareceu: “Associaram o padre e a Fundação João XXIII à Viver 100 Fronteiras, referindo que eu era arguida, mas isso é totalmente falso”.

A presidente da ONG da Feira pretende, ainda assim, continuar a enviar o material doado para a Guiné – onde chegou a ser assessora do ministério da Saúde para a área hospitalar e social – e anuncia que dois contentores devem seguir para esse país já esta quinta-feira, depois de “bem triadas e escolhidas as roupas, dado o elevado número de peças da Salsa que não se podem aproveitar por virem já queimadas, rotas, sem botões, etc.”.

Natália Cristina Rocha espera que a obra solidária que a Viver 100 Fronteiras vem desenvolvendo há dez anos não seja, entretanto, esquecida. “O trabalho humanitário da associação que represento fala por si e é público”, argumenta.

CB com Lusa

Imagem de destaque: Shutterstock