“Pedimos às escolas” para anunciar chegada do Supernanny à SIC, confirma produtor

Pedro Cardoso, produtor da Warner Bros., é responsável pelo elaboração do formato que chocou a sociedade portuguesa e recusa dar detalhes, nem tecer comentários ou juízos de valor enquanto o caso estiver a correr no tribunal de Oeiras. Afinal, tal como o próprio diz, “é testemunha”,

No entanto, em dia de segunda audição no Tribunal, que teve lugar esta sexta-feira, 2 de março, Pedro Cardoso reitera, ao Delas.pt, factos. “Recebemos dezenas largas de candidaturas de famílias ao SuperNanny” e existem “cinco programas gravados, não tendo sido feitos mais“.

O produtor deita, também, por terra as acusações de que teria pedido a escolas para interceder favoravelmente junto dos agregados para se inscreverem no programa conduzido pela psicóloga Teresa Paula Marques. “Não houve qualquer envolvimento das escolas neste processo”, afirma Cardoso. E prossegue: “O que pedimos foi para, se possível, afixarem informação no sentido de anunciar a chegada do formato. Nunca houve qualquer pedido de intervenção”, vinca.

Com cinco programas gravados, um emitido e um segundo suspenso pelo Tribunal, o polémico programa de televisão da SIC, Supernnany, prossegue agora a sua vida no banco dos réus. Na sexta-feira, 2 de março, houve nova – a segunda – sessão do julgamento em torno da suspensão do formato, pedido pelo Ministério Público (MP), e foi ocasião para escutar três das cinco testemunhas arroladas pelo acusador público.

Para lá dos programas por exibir, cuja possibilidade ou modelo, “caberá ao emissor – no caso, a SIC – decidir como fazer”, Pedro Cardoso nada mais acrescenta sobre este processo que tem novas datas marcadas em tribunal para ouvir as partes: 16 de março, cuja audição deverá contar com as testemunhas da estação de Carnaxide, entre as quais a psicóloga Teresa Marques, a própria educadora escolhida para conduzir o conteúdo televisivo, e 5 e 9 de abril.

SuperNanny: “Os limites foram ultrapassados”

A psicóloga Rute Agulhas, a presidente do Comité português da Unicef, Regina Tavares da Silva, e a investigadora na área das ciências da educação Cristina Ponte, testemunhas do MP, foram unânimes ao considerar, perante o tribunal de Oeiras, que o programa da SIC põe em causa o superior interesse da criança, consagrado numa convenção internacional ratificada por Portugal.

Para a presidente do comité português da Unicef existe uma exposição “que chamaria de exploração da imagem das crianças, com invasão da privacidade e uma devassa e atentado à sua intimidade”, o que é atentatório do superior interesse da criança, consagrada na Convenção dos Direitos das Crianças. Regina Tavares da Silva considera a exposição negativa, humilhante e degradante e pode prejudicar o futuro das crianças.

“Qualquer um de nós que sem autorização fosse retratado no pior de si próprio e projetada essa imagem no futuro sentiríamos com certeza que isso é uma violência e uma violação de direitos fundamentais”, disse, considerando que os pais não são donos das crianças, que têm o direito e dever de as proteger, “mas não podem dispor deles de qualquer maneira”.

Já a investigadora Cristina Ponte considera que o programa tem uma narrativa orientada para os pais, colocando as crianças como objetos e que ultrapassou os limites. Neste caso, defendeu, há uma situação extrema que nunca tinha acontecido no país, o de crianças filmadas no seu espaço mais privado em situação vulnerável. Elas, adiantou Cristina Ponte, são expostas da pior maneira possível, num total caos e tornam-se aos olhos dos outros “naquelas crianças que nenhum pai gostaria de ter” com riscos para a sua imagem.

Para Cristina Ponte, a defesa do superior interesse da criança tem de ser pensada e garantida pelos órgãos de comunicação social. “Não existe ninguém a defender que vivam foram dos media, mas a maneira como aparecem tem de ter em conta alguns limites e neste caso os limites foram ultrapassados”, disse.

Crianças birrentas ou “prodígio”, quem sofre mais com a exposição?

Rute Agulhas, psicóloga, disse também em julgamento que este programa “viola de forma grosseira grotesca e grave os direitos das crianças”. Quando questionada pelo Ministério Público com a pergunta “o Superior Interesse da Criança foi violado? a psicóloga respondeu: “sim foi”

Na primeira sessão foi ouvida a presidente da Comissão de Proteção Crianças e Jovens, Rosário Farmhouse e o psicólogo Eduardo Sá, também como testemunhas do Ministério Público.

Recorde-se que o programa SuperNanny, entretanto suspenso provisoriamente, ficou envolto em polémica logo após a transmissão do primeiro episódio, emitido pela SIC no dia 14 de janeiro. No dia seguinte, a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens tomou uma posição contra o programa por considerar que existe um “elevado risco” de este “violar os direitos das crianças, designadamente o direito à sua imagem, à reserva da sua vida privada e à sua intimidade”.

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