Europa quer Estados-membros a tratarem dos abusos sexuais

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[Fotografia: Pexels/RDNE]

O Conselho da Europa aprovou unanimemente uma resolução, divulgada esta sexta-feira, 6 de dezembro, segundo a qual os Estados-membros “devem reconhecer os abusos” sexuais nos seus países, “indemnizar as pessoas afetadas e proceder a reavaliação global e melhorar a prevenção”.

Um comunicado do Conselho da Europa refere que o tratamento dos casos de abuso devem ser tratados com base no modelo da Suíça, que criou uma lei de proteção e de compensação, com base em estudos, e citando o caso de Portugal aponta que “milhares de sobreviventes de abusos sexuais vivem no país e que até hoje a maioria não recebeu Justiça”, facto que a resolução do Conselho da Europa “pretende alterar”.

“Na Europa, o abuso de crianças, sejam elas vítimas de predadores sexuais, de violência gratuita ou de maus tratos em instituições públicas, privadas ou religiosas – que deveriam ser portos seguros – nunca mais deve ser ignorado”, lê-se na Resolução 2533 do Conselho da Europa, debatida numa conferência realizada na quinta-feira, 5 de dezembro, em Estrasburgo, França, por representantes de vários países, incluindo Portugal.

António Grosso, sobrevivente de abusos e membro da associação de vítimas “Coração Silenciado”, também exigiu que a justiça seja aplicada em Portugal, considerando que “a implementação da resolução em Portugal é urgentemente necessária”.

“No entanto, no que diz respeito a Portugal, infelizmente temos de dizer que as coisas são ignoradas ou esquecidas. Na verdade, até à data, não foi apresentada qualquer iniciativa do Governo português ou do parlamento. Além disso, a Igreja Católica portuguesa está a atrasar a prometida indemnização às vítimas, impondo regras burocráticas duras e revitimização há já 21 meses” afirmou.

António Grosso vincou que “na sociedade, na política e na Igreja, persiste um grande silêncio. Esta situação atual é inaceitável e indigna de uma democracia como Portugal”. “Exigimos uma mudança”, declarou.

Guido Fluri, Presidente da Justice Initiative, fundada por grupos de vítimas de toda a Europa, que, com base no modelo da iniciativa de restituição suíça, desde então “tem pressionado com sucesso” o Conselho da Europa para uma reavaliação de acordo com o exemplo suíço considera, citado no comunicado, que “a resolução 2533 é um marco para a Europa”.

Na Suíça, graças ao tratamento coerente de 12 mil vítimas de abuso, foi restabelecida uma parte da justiça. Agora é altura de os sobreviventes de abusos no resto da Europa também receberem justiça”, considerou.

Abusos aceleram depressão e ansiedade

A Justice Initiative apoiou um estudo sobre casos de abuso na Europa, realizado pela organização parceira “Protect Children”, que envolveu 22 mil pessoas e concluiu que a maioria dos casos de abuso tem consequências graves, como depressão, problemas nas relações interpessoais e perturbações de ansiedade.

Embora 67% das vítimas tenha revelado o que tinha vivido, quase metade só o fez 11 anos após a experiência de violência. Mesmo depois de revelarem o abuso sexual na infância, 69% dos sobreviventes não receberam qualquer apoio e 89% referiram que a revelação não conduziu a uma investigação policial.