Evan Rachel Wood: “Tive uma crise existencial depois de gravar a segunda temporada”

A fúria de Dolores Abernathy explodiu em todos os ecrãs na final da primeira temporada de Westworld, abrindo as portas para uma revolução das máquinas no mundo artificial de Sweetwater. A personagem principal da série é interpretada por Evan Rachel Wood, que conhecemos dos filmes Thirteen e Nos Idos de Março e por séries como Sangue Fresco.

Na segunda temporada, que tem estreia mundial a 22 de abril, Dolores vai virar o mundo de pernas para o ar. É um dos regressos mais esperados do ano, depois de uma estreia no final de 2016 que atraiu audiências de milhões e foi celebrada pela crítica. Falámos com a atriz, de 30 anos, em Beverly Hills sobre a série, que procura fazer perguntas difíceis sobre inteligência artificial, livre arbítrio e o que significa ser humano, e o movimento #MeToo, do qual é uma das principais caras: em fevereiro, testemunhou perante o congresso norte-americano numa audiência sobre o projeto que visa expandir a legislação de proteção às vítimas de abuso sexual.

A Dolores vai tornar-se uma vilã na segunda temporada?

A forma como a descrevemos no início das gravações foi esta: “Nunca houve uma personagem assim.” Não é uma heroína, nem uma vilã, decidimos que não é boa nem má, está apenas certa. Esse é o seu dilema, a sua luta interna. Agora, sabemos que ela tem a Dolores e o Wyatt dentro de si; a Dolores só vê o bem, o Wyatt só vê o mal. A forma como vão coexistir e como ela será multifacetada, entrando e saindo, será muito interessante de ver.

A Evan conseguiu adivinhar muitos dos segredos da série antes do tempo. Como?

Analiso os guiões e também os comportamentos das pessoas em estúdio. E também sei que não há uma única palavra colocada no guião que não esteja lá com um propósito, com um significado mais profundo. Eles [os criadores] deixam migalhas pelo caminho, só temos de saber para onde olhar.

Teve a oportunidade de colaborar na construção da sua personagem?

Não. Todos tentámos, mas como não nos deixam saber muita coisa, as ideias que temos do que poderíamos fazer não encaixam. É frustrante, porque queria fazer tanto e não deixaram. Só que depois faz sentido, mais tarde. Deram-nos parâmetros todos os dias, e isso foi mais marcado esta temporada porque filmámos os episódios fora de ordem. É tão diferente e desconfortável que arranca de nós desempenhos crus, porque não conseguimos ter uma perspetiva global.

James Marsden disse que, por vezes, se sentia mais à vontade como Teddy que como si próprio. Alguma vez sentiu que a Dolores era mais confortável que a sua própria pele?

Sim, porque representa inocência e emoção pura. Eles são o mais perfeito que as pessoas podem ser. São apenas as partes boas da humanidade. Poder interpretar estas personagens e sermos capazes de explorar todas as partes doces de nós próprios, as partes puras, foi muito catártico na primeira temporada. Nesta segunda, foi o oposto, porque é a versão invertida destas personagens.

“[Westworld] É tão diferente e desconfortável que arranca de nós desempenhos crus, porque não conseguimos ter uma perspetiva global”

Como foi trabalhar com James Marsden, que interpreta o romântico Teddy?

Ele é um anjo, não podia ser mais perfeito para este papel. Nesta temporada, ligámo-nos muito, ele é um daqueles atores com quem nos sentimos seguras. É sensível e isso não o faz fraco nem menos homem, pelo contrário. Senti que podia confidenciar-lhe coisas. Somos apaixonados por estas personagens e estávamos à espera de dar uma oportunidade a esta relação, porque, na primeira temporada, eles queriam mais e não podiam, estavam presos. Agora podem tê-lo, o que vão fazer com isso? É o que acontece após o “…e foram felizes para sempre.”

A Evan também disse que a Dolores teve um impacto profundo na sua vida. Como é que esta segunda temporada continuou essa evolução?

Ensinou-me que se pode iniciar uma revolução, mas dar-lhe seguimento e terminá-la é a verdadeira batalha. A insurreição é apenas o princípio. Depois há a luta, a guerra, as vítimas. O dilema da Dolores nesta temporada é saber todas as coisas que tem de fazer mas sentir o seu peso. Ela não é apenas uma assassina que quer desatar aos tiros e incendiar aquilo tudo por piada. Ela quer a sua liberdade. É uma situação de vida e morte. Uma posição solitária, porque também consegue vislumbrar o cenário final de forma mais clara que os outros, e é difícil tentar que toda a gente alinhe na sua visão. Especialmente porque vê que não há esperança. E isso é uma coisa difícil de aceitar, quando se desejaria lidar com uma situação de outra forma mas a realidade é encarada e não há outra hipótese. A Dolores não quer matar pessoas, mas não lhe deixaram outra saída.

“[A Dolores] Ensinou-me que se pode iniciar uma revolução, mas dar-lhe seguimento e terminá-la é a verdadeira batalha”

Vê isto como uma tragédia, quase?

Sim, é, mas há aqui crescimento. Sempre que algo é destruído nesta série, outra coisa cresce no seu lugar. Somos uma espécie que evita a dor compulsivamente e a vê como um sinal de fraqueza ou falhanço, quando muitas vezes é o veículo de mudança, crescimento, renascimento. Precisamos dela para sentirmos essas coisas, para mudar. Muitas vezes negamos a nós próprios essas oportunidades ao evitarmos a dor.

Falou de dor e esperança: como uma das principais caras do movimento #MeToo, tem esperança de que tudo mude?

Absolutamente, sim. Nenhuma de nós pensou que iria acontecer de forma tão massiva de um dia para o outro – o mundo mudou literalmente da noite para o dia. Sente-se ao entrar em estúdio, a andar na rua. Toda a gente ficou de cabeça virada, ninguém sabia o que fazer, porque destruímos uma estrutura. As pessoas compartimentam para saberem onde estão as coisas e ficaram perdidas. Mas sinto que mudou bastante. Deu-me muita esperança. Sinto, mais que qualquer outra coisa, um apoio da comunidade e de outras mulheres que não sentia anteriormente. E sabia que algo tremendo estava para vir mesmo antes de acontecer. Habitualmente, as mulheres são atiradas umas contra as outras, mas estava a ir a festas e via-as todas juntas, em grupos, a falarem. Pensei ‘ok, algo está para acontecer; estão a mobilizar-se.’ Sentir que já não estamos sozinhas é metade da batalha. Pela primeira vez na minha vida, sinto que não estou sozinha nisto e não sinto vergonha.

Já está a ver resultados?

Sim, tenho visto muitas mulheres a porem dinheiro no movimento. Eu contei a minha história [de abuso sexual] antes disto, o caminho já estava lançado e agora foi o momento de ir, era do que estávamos à espera. Houve mudanças nas agências, nos estúdios, códigos de conduta, o que é aceitável, o que não é. Estamos a discutir leis e a definição de consentimento. Estamos a reexaminar todas estas coisas arcaicas que não captavam a complexidade das situações.

Como foi filmar as cenas violentas?

Na verdade, na série não temos cenas de violação, são apenas implícitas. Interpretei cenas de violação anteriormente e são terríveis. Tive filmes em que lhes pedi para cortarem essas cenas porque não achava que contribuíssem para a história. Aqui foi sobre a dor, o rescaldo, as memórias e o que isto faz a uma pessoa. Mas filmar a cena com o Homem de Negro no episódio final foi o mais difícil. Perceber que esta pessoa não era quem julgávamos ser e na verdade é o nosso pior pesadelo, quando pensámos que era o amor da nossa vida – isso foi demasiado realista para mim. A Lisa Joy [cocriadora] estava em estúdio e eu senti-me à vontade para a chamar à parte e contar algumas coisas, para o caso de aquilo desencadear uma reação forte em mim. Acabou por ser um momento de poder, enfrentá-lo e dizer as coisas que sempre quisemos dizer. A Lisa Joy escreveu o melhor monólogo de rompimento de todos os tempos.

“Interpretei cenas de violação anteriormente e são terríveis. Tive filmes em que lhes pedi para cortarem essas cenas porque não achava que contribuíssem para a história”

Foi uma espécie de terapia?

Sim. Até Westworld, eu nunca tinha chorado por causa das minhas experiências [de abuso]. Achava que chorar significaria que eles ganharam. Isso não ajuda. Ajuda reconhecer que nada daquilo foi ‘ok’ e que me quebrou um bocadinho. Mas não me deixou partida.

A Dolores é o papel da sua vida?

Sem dúvida. Nem consigo pensar no fim desta série. Carrego-a comigo para todos os lados. Pus uma foto dela no meu cacifo quando fui ao congresso testemunhar. Não a vejo como sendo eu, ela tornou-se um símbolo de força.

Quer dizer que a canaliza quando precisa de força?

Relembro-me que a interpretei. Porque a separo de mim própria quando a interpreto e sinto que me torno outra pessoa. É fácil esquecer que aquilo veio de mim. Quando tenho momentos de dúvida, lembro-me dela e penso ‘Sou a Dolores.’

O que trouxe da sua experiência pessoal para esta personagem?

Muito do meu caminho tem sido introspetivo. Todos temos um trauma, algo que nos mudou ou deixou um efeito prolongado. A minha jornada tem sido: ok, isto aconteceu, o que vais fazer com isso? Vais deixar que te defina, que te parta, que te empurre para a escuridão? Ou vais transformá-lo em algo novo e bonito? Trouxe isso para a Dolores e para o que ela me ensinou; que isto pode acontecer, mas não tem de te definir para o resto da vida. E podemos usá-lo para progredir.

“Muito do meu caminho tem sido introspetivo. Todos temos um trauma, algo que nos mudou ou deixou um efeito prolongado”

É raro que uma série se lance sobre estes debates tão filosóficos. De que forma vê esta discussão sobre tecnologia, inteligência artificial?

Definitivamente, tive uma crise existencial depois de gravar a segunda temporada. É um outro nível de loucura. Uma pessoa sai do estúdio, olha para o mundo e pensa que é tudo uma grande mentira. Que isto é uma realidade falsa, que raio andamos a fazer? Interpretar a Dolores/Wyatt nesta temporada – o Wyatt é tudo o que está errado neste mundo e levar isso para casa não teve muita piada.

Esta temporada é um Exterminador Implacável ao contrário? Porque os espectadores querem que sejam os robôs a ganhar?

Sim, e acho que vai haver conflitos internos porque não saberão por quem devem torcer. Agora que eles têm este poder, o que vão fazer com ele? E a responsabilidade com vem com isso? Este poder vai corromper-vos como fez com os humanos?

Mas uma máquina não tem ética.

Verdade. No entanto, há sempre uma falha nalgum lado, há sempre um erro. São baseados em humanos. A luta interna da Dolores é que ela é, sem dúvida, a mais sensata de todos e vê o cenário final. Sabe qual é a resposta e quer avançar, mas é preciso convencer os outros. E também não pode fazer o trabalho deles por eles. É preciso ter cuidado com o poder. Estará certo forçar alguém a fazer algo que sabemos ser justo?

Ana Rita Guerra

Imagem de destaque: Mike Blake/Reuters