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Existe escrita no feminino?

Há uma história que circula no meio literário acerca de Sophia de Mello Breyner, quando foi apresentada, por um amigo em comum, a Miguel Torga, numa conferência no Porto. Sabe-se que o célebre escritor português escreveu mais tarde, num comentário à dita pessoa em comum, referindo-se a Sophia como “amiga muito bonita, pena escrever poesia”.
Para algumas autoras, não há nada mais ofensivo do que serem colocadas na secção, escrita no feminino; ou chamarem-nas de poetisas, em vez de poetas. É como se o género se antecipasse a anunciar o estilo da escrita. No entanto, para outras escritoras, essa categorização é tida como elogiosa, reconhecendo no género feminino uma espécie de distinção literária. É, de facto, uma questão há muito debatida: há ou não uma escrita no feminino? É mito ou realidade?

Perguntas e mais perguntas
A expressão francesa écriture féminine, tem origem no séc. XIX e refere-se à produção literária caracteristicamente feminina. Mas o que é isto de caracteristicamente feminino? É que a ideia de uma escrita feminina levanta questões sobre o próprio conceito de feminino. Partindo do pressuposto de que há uma escrita feminina e uma escrita masculina distintas, quais são então os traços de cada uma? Não poderá o feminino corresponder ao género biológico masculino e vice-versa?

Isabel Allegro de Magalhães serve-se de Simone de Beauvoir em “Mémoires d’une fille rangée”, como prova da existência de um discurso caracterizado pelo masculino, embora de autoria feminina, e apresenta p. ex., a escrita no feminino de Virginia Woolf como termo de comparação. Para Allegro de Magalhães, Beauvoir desenvolve uma escrita repleta de factos e datas, enquanto que Woolf se caracteriza pela fragmentação do discurso. Mas não serão novamente os preconceitos a criar os paradigmas de género na escrita (racional = masculino vs emocional = feminino)?

YES and NO
Segundo a controversa autora e feminista, Monike Witting, a mulher não pode ser associada a um tipo de escrita. Para a autora, ser mulher é uma construção; não uma realidade concreta. Assim, afirmar que existe uma forma característica da mulher escrever, significa naturalizar uma espécie de escrita, a escrita feminina, considerando-a como escrita da mulher. Na realidade, Witting vem à pendura da teoria de Beauvoir desenvolvida no texto, ‘Segundo Sexo’, “não se nasce mulher, torna-se mulher”; neste caso, subvertendo a semântica e a sintaxe, poderíamos dizer, “não se nasce poetisa, tornam-se poetisa.”
Já Hélène Cixous diz que, ao contrário de Witting, considera que a escrita no feminino “surge de um reencontro da mulher com o seu corpo. Cixous afirma que a mulher ao libertar-se do discurso centrado no falo, alcança a sua identidade e a produção literária feminina torna-se inesgotável.” Ademais, para Cixous, a relação com o materno desempenha um papel fundamental nesta descoberta da escrita no feminino; embora acrescente que é possível para os dois sexos, homem ou mulher; quem escreve não condiciona a sua escrita unicamente pelo facto de pertencer a este ou àquele sexo. Concluindo, no entanto, que “é certo que é de mulheres a autoria da maior parte dos textos com marcas de feminino.”

Escritoras de diferentes nacionalidades
Há uns anos, num encontro literário em Paraty, no Brasil, três escritoras foram desafiadas para falar sobre o tema, num debate intitulado, “Sexo, Mentiras e Videotape.” A escritora portuguesa, Inês Pedrosa, foi assertiva e disse, “Tretas. Não existe literatura feminina. Existe é boa e má literatura. Tudo o que seja criar guetos – na arte, na literatura, na vida – é estúpido.” Já Cíntia Moscovich, escritora e jornalista, usou a ironia para dar uma resposta: “Se há uma literatura feminina, tem de haver uma literatura homossexual; se há uma literatura homossexual, tem de haver passiva e ativa.”. Contudo, Cíntia acabou por afirmar que, no seu entender, “sim, mas há um jeitinho feminino, sim”. A terceira interveniente no debate, a escritora e jornalista inglesa, Zoe Heller, deu a sua resposta recorrendo à analogia de avaliação da escrita entre os géneros, “quando a mulher fala da experiência feminina, é colocada num gueto. Ouve-se muito: ‘Ah, essa é uma questão feminina’. Quando um homem fala da experiência masculina, o tema é universal.” Opinião esta partilhada pela escritora norte-americana, Siri Hustvedt, que também acusou essa diferença; a discrepância de avaliação das temáticas, consoante a autoria, homens e mulheres. Hustvedt frisou que se uma mulher escreve sobre o amor, a obra normalmente é avaliada como Literatura cor-de-rosa. Contudo, se a mesma temática for abordada por um homem, estamos no domínio da condição humana.


Leia a entrevista de Inês Pedrosa a propósito do livro ‘Desnorte’


Sem respostas científicas, resta-nos refletir acerca do tema e concluir que tanto na Literatura como nas outras áreas, a arrumação por gavetas, acaba por ser sempre maniqueísta; excluindo uma possibilidade infinita de desarrumações. Meras tentativas de rotular o que mais interessa, o inefável e essencial; a escrita.

Cláudia Lucas Chéu