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Greve: a história de cada professor nunca é marcada pela subida de um escalão

Na manhã da greve dos professores, cuja motivação se referiu com o descongelamento das carreiras, ele acordou feliz porque dormiu sem despertador e eu com as dores de sempre. A caminho da escola brincávamos com uma metáfora referente aos “congelamentos”, “descongelamentos”, às dores do congelamento e à alegria e esperança do descongelamento.

A metáfora que nos levava por paisagens de humor referia-se ao facto de eu ser Professora, ter o diagnóstico de um ombro congelado há quatro meses, de esse congelamento ter provocado mudanças radicais na nossa vida familiar e da felicidade que vai ser quando o ombro descongelar e tudo regressar ao normal. Entretanto eu aceito as dores, o desespero, a falta de mobilidade, a condição física empobrecida, a saudade de me aninhar em cima do ombro não desistindo do que está para lá disto.

A principal história na vida de cada professor nunca é marcada pela subida ou não subida de um escalão. As várias histórias de vida de cada professor podem ser enriquecidas ou enfraquecidas por episódios felizes ou infelizes, no que toca ao respeito pela sua prática profissional. Quem exerce esta nobre profissão, e disso tem consciência, sentiu a revolta e a injustiça de uma promessa não cumprida. Deu-se voz e corpo a essa injustiça, naturalmente. Tenho a certeza que nem governo, nem sindicatos, nem professores preferem destabilizar alunos, famílias de alunos, as suas próprias famílias, embora a greve magoe sempre os últimos da cadeia (mas tenho a certeza que estes serão sempre os primeiros no seu interesse). O valor monetário que um professor recebe ao final de um mês nunca é justo, nunca consegue compensar o enorme desgaste emocional e físico que fazemos quando olhamos à nossa volta e vemos (em todas as dimensões) 20 ou 30 estudantes e 20 ou 30 famílias. Nunca compensa as injustiças a que está sujeito quando um estudante lhe chega à sala e, em vez de apetite de saber, traz-lhe apetite de estômago, ou quando as marcas que tem no corpo não são feitas em brincadeiras com os amigos na rua. Nunca consegue compensar a capacidade de ter a resposta certa num curto espaço de segundos. Nunca consegue compensar a quantidade imensa de solicitações emocionais, relacionais com as pessoas com quem trabalha em sala de aula e na sua comunidade. E são estes professores que também consideram que não é justo serem ressarcidos só porque tiveram uma nota final de curso há uns anos, têm determinada idade e fizeram umas quantas ações de formação ao longo de quatro anos. Estes professores apenas querem ver uma promessa cumprida. Promessa essa que, na minha opinião, é ela própria injusta. O sistema de progressão de carreira dos professores deve ser o principal alvo de descongelamento. A progressão da carreira dos professores deve ser olhada de forma pedagógica, tal como os professores olham de forma pedagógica para a carreira dos seus estudantes quando co-constroem a Escola e alicerçam os projetos de aprendizagem de cada um, com sentido de justiça, equidade, competências, processos, produtos, heterogeneidade, valores.

Em 2008 fiz a PACC. Uma “Prova À Carreira do Crato”. Fiquei Aprovada (já nem me lembro se era o termo utilizado). Só me lembro da humilhação que senti ao estar a fazer a prova que qualquer humano instruído podia fazer. Qualquer um. Bastava saber ler. É como ser Professor-Manual. Basta saber ler. À saída da prova o meu pai ligou-me. Disse-lhe que se ele quisesse podia provar que era professor com conhecimentos. “Eu? Professor? E competência para isso?” …tinha razão, essa parte não estava prevista na prova. À saída tive direito a um cordão de polícia de intervenção à minha/nossa espera. Tanta conversa se gerou sobre os resultados. Em praça pública os professores foram alvo de milhares de “opinadores” e rotulados como profissionais mal preparados, incultos, que dão erros. Qualquer prova de desempenho ou avaliação que me queiram fazer enquanto professora tem de ser feita tendo em conta as aulas que preparo individualmente e em coletivo com os meus estudantes, os projetos que construímos, a observação diária do que se passa connosco, da evolução do nosso grupo.

Se alguma coisa correr menos bem com os resultados dos meus estudantes, a menos que exista um diagnóstico médico, o principal culpado serei sempre eu, professora. Sempre, porque me esqueci do meu papel principal, o de ser Agente que “é estar presente e saber ler o ambiente” como dizia a Beatriz Quintella. E qualquer um de nós é agente, seja professor, cozinheiro, engenheiro, jovem, bibliotecário, enfermeiro, voluntário, etc. E este “saber ler” demora tempo a ser alcançado e não se aprende apenas com a idade, com os créditos, a conclusão de um curso superior e o passar dos anos. E o que ganhamos com este “saber ler” e a construção de mais agentes também não é quantificável. É imensurável. A greve é um direito cívico. Ser Agente é um dever cívico.