Helena Rebelo Pinto: “Há doenças de sono que afetam mais as mulheres”

Helena Rebelo Pinto, a investigadora do Católica Research Center for Psychological, Family and Social Wellbeing, da Universidade Católica Portuguesa, é uma das organizadoras do Lisbon Sleep Summit. Em entrevista ao Delas.pt, a pesquisadora – e mãe da escritora Magarida Rebelo Pinto – explica algumas das especificidades das perturbações do sono na mulher, quais as suas causas e o que as mulheres podem fazer para ter um sono de qualidade e verdadeiramente reparador.

Porquê dedicar esta primeira edição ao “sono nas mulheres”?
Em primeiro lugar, do ponto de vista científico, é uma área que tem sido pouco explorada e aquilo que se sabe hoje da especificidade do sono nas mulheres constitui uma área de investigação em expansão. Nós temos atualmente novos conhecimentos sobre esta temática. Depois, esta iniciativa também se insere na preocupação de identificar aquilo que são problemas específicos das mulheres atuais, com múltiplos desafios – o trabalho, a família, a vida social, política, etc. – e sem o ajustamento social e familiar que seria desejável para que a mulher pudesse realmente dar uma resposta satisfatória em todas estas áreas. Portanto, queremos chamar a atenção para um problema muito importante de saúde pública, que é a questão do sono, e que tem uma especificidade muito própria na mulher, quer por aspetos biológicos, quer por aspetos da sua vida familiar, social e laboral.

Mas quais são as diferenças específicas entre as mulheres e os homens, quando falamos de questões do sono?
Há questões de natureza biológica e fisiológica que são diferentes no homem e na mulher, e que vão alterar os chamados ritmos de vida, de vigília e de sono na mulher, que também têm uma especificidade própria e é preciso dar a conhecer isso, porque é matéria que não é considerada, por exemplo, naquilo que é a maneira como as mulheres organizam a sua vida.

Como assim?

Uma forma de organização em que se exige cada vez mais, cada vez mais tarefas, em diversos cenários. Há também doenças e perturbações de sono que afetam mais as mulheres como a insónia. Ela é mais prevalente nas mulheres. Por outro lado, a mulher tem também situações na sua vida, designadamente a maternidade e o cuidar dos filhos e dos mais velhos, que muitas vezes criam condições de vida muito penalizadoras de noites tranquilas de sono. E talvez as questões de vida da mulher atualmente, com o stress, o multitasking, enfim, tudo aquilo que hoje é pedido à mulher, acaba por acarretar um nível muito elevado de stress e de ansiedade que são elementos muito perturbadores do sono.

“A maternidade e o cuidar dos filhos e dos mais velhos, que muitas vezes criam condições de vida muito penalizadoras de noites tranquilas de sono”

Mãe da escritora Margarida Rebelo Pinto, a investigadora é autora, com a neurologista Teresa Paiva, do livro “Dormir é bom Dormir faz bem” [Fotografia: Ana Pereira/Global Imagens]

Uma das questões que o programa da conferência refere é a relação entre a violência e o sono nas mulheres. O que é que isto significa?
Bem, isto não quer dizer que [a relação da violência com o sono] prevalece nas mulheres. Quer dizer que nós procuramos dar a esta conferência uma abordagem multidisciplinar do sono. Não apenas da medicina do sono, mas também da psicologia do sono, da sociologia, do trabalho, do lazer, do desporto e do exercício físico, e também das situações de conflito que envolvem as mulheres. E de facto, as estatísticas assim o sugerem, as situações de violência são mais prevalentes nas mulheres, como violência doméstica, bullying, assédio no trabalho. E a violência é muito, muito geradora de stress, que é o inimigo número um do sono. Daí a conferência chamar a atenção para problemas muito atuais da vida das mulheres: o stress no trabalho, a dificuldade das mulheres progredirem na sua carreira, que é, sem dúvida, mais elevado que nos homens, o facto de as mulheres trabalharem por dia mais tempo que os homens, terem salários mais baixos. As mulheres enfrentam um sem número de exigências que são geradoras de stress e ocupam muito do seu tempo, sem lhes darem possibilidade de descansar e de se distrair. Portanto, chamamos a atenção para esse problema, que está hoje a ser tratado em todo o mundo e em que há uma particular preocupação da Europa, relativamente à igualdade de género, nos diversos setores: no trabalho, na legislação, nas oportunidades políticas… A questão das quotas dos representantes políticos é um exemplo dessa realidade.

“Não há uma evidência científica de que as mulheres precisem de dormir mais do que os homens”

É verdade que as mulheres têm de dormir mais horas que os homens?
Não, não é verdade. Cada pessoa dorme em função daquilo que são as suas características genéticas e daquilo que são as suas condições de vida. Portanto, não se pode dizer…não há uma evidência científica de que as mulheres precisem de dormir mais do que os homens. O que normalmente acontece na vida prática, e, designadamente, no nosso país, é que os homens podem dispor melhor do seu tempo de sono. As mulheres têm muitas, muitas atividades e muitas circunstâncias. Os horários de trabalho sobrecarregados, o cuidado dos familiares, as tarefas domésticas, etc, são esforços que a mulher faz que não são contabilizados em horários de trabalho, mas que provocam um cansaço que, em si mesmo, dificulta o sono.

Então o que é que as mulheres podem fazer para melhorar a qualidade do seu sono e as horas de sono – face a isso tudo que mencionou?
Bem, eu acho que as mulheres devem, em primeiro lugar, tomar consciência daquilo que são as suas necessidades de sono, que não são iguais em todas as pessoas, como referi. Há quem durma mais, há quem durma menos, porque isso tem a ver com as suas características biológicas, há quem seja mais noctívago, há quem seja mais matutino. Portanto, recomendaria a todas a todas as mulheres que procurassem encontrar o seu padrão de sono ideal. Depois, um segundo ponto tem a ver com a organização de vida.

“Portugal consome uma imensidão de medicamentos ditos para dormir que, na realidade, não resolvem nada, mascaram as situações e têm efeitos secundários gravíssimos”

O que pode ela fazer?

A mulher tem muito a ideia de que pode chegar a tudo, dar todo o tipo de resposta ao que lhe é apresentado. Será bom que a mulher consiga encontrar um equilíbrio entre as suas diversas atividades, que contribua para que ela própria enquanto pessoa se sinta realizada e se sinta bem. Depois, todas as que têm problemas de sono, insónias, seja o que for, devem consultar um especialista. Os problemas de sono tratam-se e as pessoas, a maior parte das vezes, não sabem como o fazer. Devem procurar ajuda especializada e não uma toma indiscriminada de medicamentos que os amigos e os familiares receitam, sem qualquer controlo. Portugal consome uma imensidão de medicamentos ditos para dormir que, na realidade, não resolvem nada, mascaram as situações e têm efeitos secundários gravíssimos. As mulheres que tenham problemas de sono devem procurar um especialista.

Imagem de destaque: Shutterstock

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