Quadro retirado de exposição por nudez feminina gera polémica

Será a nudez feminina inapropriada e ofensiva para o público moderno? A questão foi lançada pelo museu Manchester Art Gallery, no Reino Unido, depois de, a 26 de janeiro, ter retirado de exposição uma pintura de John Waterhouse, Hylas and the Nymphs.

No lugar do quadro está agora um aviso (como se pode ver no tweet em baixo) a explicar que o espaço vazio tem o propósito de “provocar o debate sobre como se exibe e se interpretam as obras de arte da coleção pública de Manchester”, não se tratando de censura, adianta o The Guardian.

Tweet com imagem do aviso colocado no lugar do quadro de Waterhouse, no museu de arte Manchester Art Gallery.

Considerando a retirada do quadro um ato artístico, Clare Gannaway, curadora de arte contemporânea do museu, disse ainda que a decisão de remover a obra teve em conta os movimentos #MeToo e Time’s Up. Mas porquê?

Raparigas, seios e flores

Inspirado na mitologia clássica, o quadro de 1896, retrata um jovem rapaz a ser aliciado, por um conjunto de ninfas despidas, a mergulhar num lago. Dentro de água, as figuras femininas estão cobertas até à cintura, ficando apenas a descoberto a zona do peito (como se pode ver na figura acima).

A obra estava exposta na sala do museu intitulada In Pursuit of Beauty (Em Busca da Beleza, em português), um espaço que reúne várias pinturas do final do século XIX, caracterizadas por exporem o corpo nu feminino. Para Gannaway, esta é uma sala que apresenta obras de artistas masculinos inspirados por corpos de mulheres, expondo a figura feminina de forma erótica, como “arte decorativa passiva” ou tentativa de representar a “femme fatale”.

Ao retirar a obra da exposição, a Manchester Art Gallery problematiza o corpo da mulher despida dar ou não o direito de ser assediada ou objetificada. Trata-se apenas de liberdade corporal feminina, da possibilidade da mulher poder decidir como se apresentar. Algo que só existe se a mulher conseguir surgir como quer, sem ser incomodada por isso. Mas problematiza também as recentes polémicas em torno da exposição do corpo feminino e o que algumas intelectuais francesas chamaram já de puritanismo feminista, na carta ‘Nous défendons une liberté d’importuner

As reações

Como pedido, as reações surgiram, mas não foram as mais positivas. O artista Michael Browne mostrou a sua preocupação dizendo: “Não gosto da substituição ou remoção da arte, nem que digam que ‘isso é errado e isso é certo’. Estão a fazer uso do poder que têm para vetar a arte. Não sabemos por quanto tempo a pintura estará fora da parede – podem ser dias, semanas ou até meses. A menos que haja protestos, talvez nunca mais volte“, segundo o The Guardian.

No Twitter multiplicaram-se as reações, todas identificadas com a #MAGSoniaBoyce: “Remover uma pintura é basicamente remover a História, e apagar a História é perigoso”, “Definir esta ação como um ‘ato artístico’ não disfarça a moralidade autoritária como parte de uma censura defendida por um feminismo cada vez mais puritano, violento e intolerante. Este ‘feminismo’ é perigoso e muito diferente do feminismo com o qual cresci” e “Talvez os artistas encontrem inspiração na beleza, na sensualidade e na forma humana, independentemente do género” (pode ver os tweets em baixo).

 

Reações no Twitter após a retirada da obra de Waterhouse do Manchester Art Gallery. Todos os tweets foram identificados com a #MAGSoniaBoyce.

[Imagem de destaque: Pinterest]

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