Ingrid Berger, a mulher que atende os caprichos das estrelas do Rock in Rio

Fotografia: Gerardo Santos/Global Imagens

Ingrid Berger tem uma carreira de 30 anos a cuidar de um universo artístico que não está acessível aos olhos do público, parte dela no Rock in Rio. Há mais de 20 anos que acompanha o evento nas várias cidades onde se estabeleceu – Lisboa, Las Vegas e Madrid, além do Rio de Janeiro, onde começou e recentemente voltou. A carioca, de 62 anos, é a responsável pelos bastidores do Palco Mundo e a coordenadora da área dos camarins, onde os artistas comem, ensaiam, mudam de roupa, passam muitas vezes o dia e às vezes pernoitam, como fez Axl Rose, numa edição do festival. Lisboa é onde reside atualmente e onde dá cursos de produção artística e de eventos. As histórias que tem para contar são mais que muitas. Dos pedidos mais extravagantes às bandas mais exigentes, aos camarins destruídos, passando pelas boas surpresas e pelos artistas com quem acabou por fazer amizade, Ingrid Berger abre o pano e revela-nos tudo.

Que exigências ou pedidos diferentes é que os artistas, ou cabeças-de-cartaz, fizeram este ano ao Rock In Rio?
Este ano, são só quatro dias, mas temos bandas muito grandes e todos eles vêm com muita gente. E o que eu noto, e já tenho falado nos anos anteriores, é que todo o mundo tá ficando muito mais saudável. Os Muse, por exemplo, vão trazer o seu chef, a Katy Perry também traz o seu, então temos de comprar o pedido do chefe. Mas o que mais vejo em termos dos artistas, dos mais jovens aos mais até aos que têm mais estrada, é que eles estão a mudar muito a forma de se alimentarem – são mais saudáveis, querem muito mais comidas vegan, vegetarianas, grelhados com saladas. Já não há aqueles pedidos mais loucos. E também na parte da bebida. Antigamente, comprávamos muitas bebidas alcoólicas, hoje em dia a gente compra kombucha, águas vitaminadas, muitos sucos orgânicos e feitos na hora. Essa é a grande mudança. Temos alguns pedidos diferentes mas é sempre … Figi Water, uma água [engarrafada] que é difícil de encontrar aqui, então eu digo-lhes que se puderem trazer é melhor. Há também uns vinhos especiais e dizem-nos a marca e o tipo de vinho [que querem], mas aí eu sempre digo: “Nós estamos em Portugal, temos vinhos maravilhosos”.

Há artistas que pedem especificamente vinhos portugueses?
Eu digo-lhes sempre que lhes vou oferecer vinhos excelentes portugueses, já que vocês estão em Portugal, que tem vinhos incríveis e marcas ótimas. E eles depois acham-nos incríveis. Este ano, vamos oferecer também alguns produtos, como doces de ovos, algumas coisas bem típicas portuguesas. Não são pedidos deles, mas vamos fazer um agrado para eles saberem o que há aqui.

Este ano há, pela primeira vez um catering artístico. Todos os artistas vão passar por lá?
Os grandes não vão, mas por exemplo, a Anitta, a banda, vão todos comer aí. Nós fizemos esse catering exclusivo para os artistas e a ementa é diferenciada e mais sofisticada.

O que é que vai conter a ementa?
Vamos ter saladas variadas, sopa – que é uma coisa que eles pedem sempre, tanto ao almoço como ao jantar –, sempre uma sopa vegetariana porque desse forma posso agradar todo o mundo. Uma coisa que introduzimos este ano foi uma parte só de grelhados. Além de termos a ementa do dia, com um prato de peixe, de carne e vegeteriano – vamos então ter também os grelhados. Acho que vai satisfazer todo o mundo, porque sempre tínhamos problemas no catering aqui, porque como era geral tínhamos muita comida 100% portuguesa. E 100% portuguesa, 100% brasileira ou 100% americana não agrada a todos. Temos sempre alguma coisa portuguesa, um bacalhau com natas, mas tentamos fazer um catering um pouco mais internacional.

Disse que são quatro dias, mas com bandas e equipas muitas grandes. Quais são os artistas que trazem mais gente?
A Demi Lovato vem com 82 pessoas. Mas a maior equipa que vem este ano é a do Bruno Mars, que são 93. Não é que estejam 93 pessoas nos camarins. Nos camarins, com o Bruno Mars, vamos ter uma média de 20 pessoas. No segundo dia do Rock in Rio, que é esse dia que tem o Bruno Mars, a Anitta, a Demi Lovato e o Agir, eu acho que vou ter mais de 200 pessoas a circular aqui dentro – entre convidados, família, banda. Vai ser um dia muito complicado para mim.

Fora essa gestão do espaço, em termos alimentares os pedidos dos artistas são simples e transversais.
Às vezes até fico triste, porque não tenho nada a dizer. Sinto que todo o mundo, não só os artistas, está mais preocupado com a saúde. Eu faço camarins há 30 anos, antigamente era só junk food e muito álcool – quase nada de comida. De há uns anos para cá, os pedidos são sempre iguais.

E se houver um pedido de última hora, que não esteja na lista de pedidos enviada?
Sempre tem. Nós temos um motorista que tem um carro com um passe livre que pode sair e voltar e temos a sorte de ter um supermercado a dois minutos daqui. Mas os pedidos de última hora acontecem todos os dias. Os camarins ficam todos prontos um dia antes com tudo o que foi pedido, para que no dia do espetáculo eu esteja preparada para essas coisas. Nunca posso dizer que estou tranquila. Como o ano passado: “Ah, Red Hot Chili Peppers não dão trabalho nenhum, é o último dia do Rock in Rio [Brasil], estamos cansados, eles chegam e arrumam tudo, o chef compra tudo, vai ser ótimo”. Nada. Eles chegaram, a senhora que estava responsável por eles nunca o tinha feito então estava super insegura, ficou umas cinco horas a mudar os móveis de lugar, o chef teve um problema e nós é que tivemos de fazer compras. O que achávamos que ia ser o melhor dia, foi o pior dia do evento.

“Sinto que todo o mundo, não só os artistas, está mais preocupado com a saúde. Eu faço camarins há 30 anos, antigamente era só junk food e muito álcool.”

Este ano, em Lisboa, o Rock in Rio termina com Katy Perry. Nesse dia, o line-do Palco Mundo é totalmente feminino.
Vai ser um dia lindo. Só mulheres, o que eu acho incrível. A Katy Perry também vem com uma entourage enorme. Outra coisa que me dá muito trabalho é que todas as equipas têm pessoas com alergia ao glúten, a nozes, ao peixe, à cebola. Antigamente, ninguém tinha alergia a nada. Só de vez em quando havia um que tinha alergia a marisco. Hoje toda a gente tem alergias.

Em todos estes anos de Rock in Rio Lisboa, qual foi o pedido mais inusitado que já lhe fizeram?
Inusitado foi o do DJ Steve Aoki. Nunca tinha trabalhado com ele aqui em Portugal e ele pediu, além das tartes para atirar à cara das pessoas, um barco insuflável. E eu pensei, mas para é que ele quer um barco insuflável? Depois ele usou-o para para passar por cima do público. Isso foi uma coisa diferente. Já tivemos 48 bolas oficiais de futebol para o Rod Stewart. Os Rolling Stones, meia hora antes de o concerto começar, pediram a camisola da seleção.

Apesar da excentricidade do Steve Aoki, há histórias famosas no Rock in Rio Lisboa, como a das calças de ganga do Axl Rose [dos Guns n ‘Roses] que ficaram no aeroporto.
Ai [suspira]. Sim, essa é a história mais louca que a gente teve. Ele chegou e, primeiro, queria subir logo ao palco, onde ainda estava outra banda a tocar. Depois quando chegou hora dele não queria subir.

Como é que se lida com esse vedetismo?
Falamos com o agente, chamamos o Roberto Medina. A gente faz alguma coisa para que tudo funcione. Principalmente o Roberto, que é amigo dele. “Pelo amor de Deus, Roberto, desce e vem falar com ele para ele começar o espetáculo”. Mas antes de começar o concerto o Axl Rose diz que quer as gangas pretas, que, não sei porquê, tinham deixado dentro do avião. Ainda bem que o aeroporto é perto daqui… Conseguiram ir lá, conseguiram trazer as gangas, ele vestiu as calças, começou o concerto e na terceira música ele trocou de roupa. Eu queria matá-lo! No Brasil, ele foi o último cantor, do último concerto, e não se foi embora. Desmontámos todos os camarins, ele ficou deitado num sofá, fora do camarim – porque já tínhamos desmontado o camarim – de roupão, até às 9h, porque o voo dele ia sair, e ele não tinha marcado hotel, então ficou nos camarins. Nós a desmontarmos tudo e ele lá deitado.

E outras histórias marcantes, por outras razões, boas razões?
O Jack Johnson, que esteve com a família [no Rock in Rio Madrid], passou o dia nos bastidores e veio agradecer-me pessoalmente, eu disse-lhe que a minha filha era fã e ele fez questão de tirar uma foto comigo – eu nunca tiro foto com artistas. Tiramos a foto e ele autografou-a para a minha filha. Há um lado que é o dos artistas que não vemos, que são os artistas inatingíveis.

“Já tivemos 48 bolas oficiais de futebol para o Rod Stewart. Os Rolling Stones, meia hora antes de o concerto começar, pediram a camisola da seleção.”

Quais são os mais inatingíveis, dos que passaram por aqui?
São os grandes cabeças de cartaz. Dos Muse, da Kate Perry não podemos chegar perto.

Mas Muse são repetentes. Mesmo nesses casos?
Sim, mas não são eles exatamente. É a entourage que os cerca de uma forma, que não temos acesso. Eu acabo por ter acesso porque falo com todos, mas há um outro lado que tem artistas incríveis, como o Seal, o Alice Cooper, o Johnny Depp – nossa! Maravilhoso. Vinha e falava com todo o mundo. Mesmo os Rolling Stones. Nós fizemos uma festa aqui em cima nos camarins e eles recebiam toda a gente e falavam com toda a gente. Há o lado agradável também, em que acabamos por nos tornar amigos. Eu conheço muito bem o Sting. Há muitos artistas que já me conhecem e me vêm falar, em que há um relacionamento que não é só trabalho, em que há um reconhecimento. Há muitos que vêm aqui, no final, agradecer. O Jared Leto [dos 30 Seconds to Mars] veio agradecer, andou de slide.

Quais são os artistas que dão mais trabalho, homens ou mulheres, se é que há diferenças nesse aspecto?
Há, porque os artistas femininos vêm com uma entourage grande, que passa por maquilhadores, cabeleireiros, figurinistas. É mais complexo. Mas bandas grandes, independentemente do género, são sempre complexas. Metallica, por exemplo, dá muito trabalho. A banda em si, não, mas todo o set up. Tem de haver jantar, empratado, são super exigentes. Ficamos das 8h da manhã até ao dia seguinte a trabalhar sem parar.

O que é que nunca pode faltar num camarim do Rock in Rio, independentemente do artista?
O que nunca pode faltar são os produtos dos patrocinadores, não pode faltar 80% do pedido do artista e não pode faltar uma equipa feliz. Temos uma equipa pequena, mas super competente.

“Tem artistas incríveis, como o Seal, o Alice Cooper, o Johnny Depp – nossa! Maravilhoso. Vinha e falava com todo o mundo. Mesmo os Rolling Stones.”

Chuveiros para duche também têm sempre?
Pedem sempre chuveiros, temos duches nos camarins, sim. É importante para muitos artistas. Por exemplo, o Bruce Springsteen tomou banho antes do concerto, tomou banho durante e tomou banho depois.

Como é que é o Bruce Springsteen?
É muito legal! Ele andou por aqui, falou com toda a gente. Não ficou nem um momento dentro dos camarins.

Qual foi o artista que a surpreendeu mais, em termos daquilo que era imagem que tinha dele e aquilo que ele, ou ela, era na realidade?
O Chris Maryin [dos Coldplay].

Pela positiva ou pela negativa?
Pela positiva. Foi incrível. Para o nome que ele tem, é incrível como é simples, como é humano, como se preocupa com o nosso bem-estar. O nosso, não é o da banda. Ele quer saber se nós estamos bem, se comemos. O mesmo com o Santana. Tenho histórias de muitos artistas que, por mais famosos que sejam, são super humanos. O pessoal dos Iron Maiden também.

E deceção de fã? Conhecer um artista que admira e não ser aquilo que estava à espera. Já lhe aconteceu?
Sim, com o Eric Clapton. Sempre imaginei o dia em que fosse fazer um espetáculo do Eric Clapton. Finalmente Eric Clapton foi tocar ao Brasil e eu fui buscá-lo, numa altura em que fazia tudo: ia buscar o artista, almoçava com o artista, levava-o para o concerto, fazia os camarins. Mas quando ele chegou, vi uma figura mal dormida, mal disposta, com a barba por fazer, com as roupas todas amassadas, na época em que ele ainda era muito “heavy”. E eu olhei para aquilo e pensei: “Uau, que deceção. ‘Cadê’ aquele homem charmosérrimo?” Não disse uma palavra, resmungou. Ainda por cima tinha mau humor. Depois no concerto, achei-o espetacular. Anos mais tarde, entendi. Ele é tímido. Voltei a fazer vários concertos dele, fiz uma tournée de uma semana, pelo Brasil, e descobri que ele é muito tímido, que não fala com as pessoas não é por ser um artista famoso, não fala porque é super-tímido. Isso também mostra, como nós nos enganamos.

Já encontrou camarins deixados num estado particularmente lastimável?
Ai já, já. Há uns anos, quando as bandas eram mais pesadas. Entrava nos camarins e havia coisas destruídas, tudo no chão, presuntos no teto.

Mesmo nessas alturas mantém o sorriso?
Sempre. Às vezes dão bronca, reclamam, e eu digo sempre que têm toda a razão, sempre com um sorriso. E tenho um mantra muito especial: “Eles vão embora amanhã”. Digo isso todos os dias. Então passa. Na vida tudo passa.

De todos os artistas que já lhe passaram pelos backstage que coordenou qual foi o que trouxe o maior guarda-roupa?
Beyoncé, no Rock in Rio Madrid.

Consegue ver todos os concertos que quer?
Nunca.

Nunca viu um concerto por inteiro, no Rock in Rio?
Não. Gostava de ter visto o do Sam Smith, mas só vi três músicas, Bruno Mars, em Las Vegas, gostava de ter visto todo. Espero vê-lo este ano.

Até quando se vê a desempenhar esta profissão, que como dá a perceber, tem um ritmo alucinante?
Há um ano que parei de fazer pequenos eventos. Só faço alguns festivais, grandes espetáculos e tournées. Neste momento, concentro-me em ser formadora. Acho importante passar o que sei, os meus conhecimentos para as novas pessoas que estão a vir.