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José Neves: “O que aprendi nos últimos anos é irrelevante para os próximos”

José Neves

A Farfetch é uma das empresas tecnológicas de venda de produtos de luxo online – por luxo entenda-se produtos de moda de gama alta, e é irresistível pedir a José Neves um conselho. No entanto, o empresário é cauteloso: “É difícil dá-los porque na tecnologia a paisagem está sempre a mudar e o que aprendi nos últimos nove anos é irrelevante para os próximos nove, estaria a ser vosso inimigo”, referiu.

As declarações são do fundador e diretor executivo da empresa Farfetch, durante a Web Summit, esta terça-feira, 7 de novembro. O empresário fundou a empresa em 2008, em “pleno período de recessão”. Sem investidores, a cultura de que “cada dólar contava” foi importante para estabelecer “uma política de custos muito restritiva”.

“A Farfetch é orgulhosamente uma empresa luso-britânica. Costumo dizer a brincar que a mãe é portuguesa e o pai inglês. Começámos em ambos locais, no mesmo dia. A ideia surgiu em 2007 e, no ano seguinte, estávamos a lançar a marca”, contou em entrevista.

José Neves descreve a empresa como: “uma comunidade dos melhores curadores e designers de moda, uma comunidade global na qual podem estar ligados e vender os seus produtos a apaixonados pelo setor, espalhados pelo mundo”.

O consumo em loja ainda é o que mais ordena

“Hoje em dia, 10% das vendas são feitas online e 90% em loja. Essa relação não vai mudar assim tanto nos próximos anos, há quem aponte para uma correlação de 25/75 ou de 40/60. Por isso, é que a experiência física é tão importante”, conta o empresário. Mas tal não quer dizer que não se procurem soluções, pelo contrário. Neves há muito que – com a companhia – trabalha em soluções. A compra da Browns, há cerca de três semanas, já vem dar uma pista nesse sentido. “Sabemos que se trata de uma versão beta das lojas do futuro”, mas “já estamos a investir muito em pesquisa e desenvolvimento para reformular a experiência”.

A realidade também tem de mudar. “É inevitável”, sustenta. “As lojas e estas marcas ainda estão nos anos 80 do século passado, ainda vendem como se vendia há 30 anos, há fila para esperar pelo tamanho de sapatos correto, para experimentar, para pagar. Isso tem de mudar”, afirma.

Para a nova plataforma quer que “uma vez que o cliente entre na loja, a funcionária já saiba quem é, o que procura, o que pode lhe pode vir a sugerir, os comportamentos vão mudar dramaticamente”.

Não pode, contudo, ser “uma loja que albergue todas as marcas porque cada uma tem a sua identidade” e o investimento em tecnologia é tanto “que ninguém sozinho pode suportar” por isso, prossegue Neves: “queremos criar essa plataforma e convidar todos para este trabalho.”

A moda não é “downlodable”

Ao contrário da música e do entretenimento, não há como baixar para as nossas vidas as peças de vestuário. E porque neste setor “a importância da experiência física é ampla”, o “online surge apenas como parte da equação”.

Ao mesmo tempo, uma plataforma como a Farfetch não poderia ser guiada apenas pela “criação de valor, mas antes conduzida pelo gosto da moda e a criatividade”. Como Neves diz, “este é o ADN do negócio”. Mas se a roupa não pode ser descarregada diretamente, a estrutura permite “fazer uma bela viagem pelas melhores marcas e lojas do mundo”.

E o Brexit? Mais do que o negócio, o problema é o talento

Estando a Farfetch também sediada em Londres, a saída do Reino Unido da Europa não é uma questão lateral. “Em matéria de transações e a nível financeiro não estamos porque somos um negócio muito global”, começa por explicar. “O que nos preocupa é o talento e o acesso ao mesmo”, refere. Diz-se “otimista” e fala no recém-lançado programa do governo português, para a entrega de visas a cidadãos que estão a desenvolver uma empresa tecnológica: o Visa startup.

O que é preciso para criar uma empresa destas, segundo Neves

Mais do que dicas tecnológicas, deixou uma mensagem de coragem e abnegação. “Só há uma coisa que repito: só se começa uma companhia se se tiver a certeza de que se não o tivesse feito, estaria arrependido.” É de “paixão” e de “resiliência” que José Neves fala porque, sem ambas, “é mais fácil desistir, atirar a toalha ao chão. Se se falhar, já está a correr bem.”

Imagem de destaque: DR