Josefa de Óbidos: meninos-jesus, êxtase místico e bolinhos

Por João Galvão

Josefa é tão especial e rara que o mundo, em busca de novidades, só a descobriu no século XXI.

Chamava-se de Josefa de Ayala, como a mãe, que não ficou para a história. O pai sim ficou, era reputadíssimo pintor, mas Josefa não assinava com nenhum dos sobrenomes dos pais, assinava, como tantos artistas à época, com o sítio onde vivia, Josefa em Óbidos.

Ser mulher artista, em Portugal, e fazer disso vida no século XVII é por si já um feito, e Josefa fê-lo brilhantemente. Por ser mulher, de um país pequeno e pouco relevante no mundo, a sua arte foi praticamente ignorada para lá das nossas fronteiras até há bem pouco tempo. Voltou à ribalta quando o Louvre pegou num quadro seu e o colocou nas suas galerias, junto a um de seu pai, Baltazar Gomes Figueira, há cerca de dois anos, passando a integrar esta curtíssima lista de apenas duas obras de pintura portuguesa expostas no Louvre. E quando, mais ou menos na mesma altura, o Museu Nacional de Arte Antiga lhe dedicou uma grande exposição com algumas obras trazidas de coleções privadas, ou seja, longe da vista do grande público, até à data.

Do pai, seguidor dos caravagistas espanhóis, herdou os fundos negros e o dramatismo da luz a claro/escuro. Mas tudo o resto, Josefa pintou à sua maneira. Até porque a defini-la academicamente a artista é antes do mais Maneirista e depois, por convenção, Barroca. E esta sua Maneira nasce das contingências do seu género, do tempo histórico e do país e lugar onde viveu. Josefa foi sempre, pelo menos até ter caído no goto dos modanti contemporâneos, tida como uma pintora provinciana e tacanha. Eram demasiados os santinhos, os meninos-jesus de batina bordada, e as mesas onde doces e bolinhos posavam sobre papéis amorosamente recortados, como os naperons com que as nossas mães e avós adornavam as televisões no século passado. Por tudo isto, por esta leitura apressada sobre a sua obra, foi Josefa precipitada e erradamente carimbada como uma espécie de saloia savant, e relegada para segundo e terceiro plano no panorama artístico mundial.

Para fazer pesar ainda mais esta opinião precipitada e malformada, dá-se o caso de Josefa, apesar de profissional, ou seja, ganhar dinheiro com a sua pintura, ter sido também cuidadora dos seus ascendentes e descendentes; tratava da casa, da família e da quinta, geria alguns caseiros e gostava de dar nomes às suas vacas. Quase certamente os bolos e doces que retratava teriam sido alguns cozinhados por si, e as cerejas e ginjas de alguns quadros tê-las-ia apanhado no seu quintal.

A grande glória de Josefa é, apesar de tudo isto (da distância aos grandes centros artísticos nacionais e europeus e da vida familiar permanente como pano de fundo), ter conseguido singrar e ser hoje nome maior do Barroco Europeu.

Josefa de Óbidos é tão mais que isso, é uma artista de mérito próprio e de génio único e se foi até agora pouco conhecida os motivos serão os mesmos que implicam a falta de conhecimento generalizado sobre o que é português, a distância de Portugal ao centro europeu, e a longa noite social e cultural que Portugal enfrentou durante grande parte da Modernidade.

Com a internet – e a facilidade e rapidez de comunicação que esta implica – um fenómeno artístico como Josefa não ficaria muito tempo restringido ao entre fronteiras nacionais. O mesmo que antes fazia arquear de desdém as sobrancelhas de quem achava que sabia alguma coisa sobre as Belas Artes, os tais bordadinhos, santinhos e bolos, é exatamente a mesma coisa que faz com que agora toda a gente admire Josefa e dispute os pouquíssimos quadros – menos de uma centena reconhecidos – da lavra da artista, que isto de tomar conta da família, ter vacas, capoeira e horta e só depois dedicar o tempo que sobra à arte, tem muito que se lhe diga.

Para ver Josefa o melhor sítio é em Óbidos, onde a Matriz tem as suas telas como parte integrante e realizada de propósito para o efeito. No Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra, está uma Maria Madalena executada de forma intimista mas brilhante, iluminada apenas por um lume de vela e de resto negro de breu, tão caravagista e dramático. No Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, podem ser admiradas algumas das suas telas e na Matriz de Cascais está uma Sagrada Família e um Menino Jesus Salvador do Mundo, entre outras. O Museu de Évora tem exposto um Agnus Dei, tema muito à moda no tempo da artista, e uma natureza morta de doces e flores, tão viva, afinal.

Josefa baby, you rock!! You always did!!

Este texto foi revisto e retificado por Maria João Santos, mestre em Estudos Sobre as Mulheres pela Universidade Aberta com a tese “As Mulheres nas Pinturas de Josefa de Ayala e Artemisia Gentileschi: A Nudez, o Vestuário e os Tecidos como Instrumentos da Sensualidade Barroca”.