Karla Campos, a diretora do festival Cool Jazz

Nasceu em Belém do Pará e chama-se Karla com K por uma razão bem prosaica: na rua onde os pais moravam estava sempre um carro estacionado com o nome assim escrito. “Era muito colorido, muito sixties. Os meus pais acharam piada Àquilo e puseram-me o nome. Fiquei Karla.” Passou a vida em trânsito entre o Brasil e Portugal – viveu em Lisboa a partir dos 4 meses, com regressos constantes ao país que a viu nascer, e foi em São Paulo que fez o Curso de Gestão.

Passados mais de 40 anos Karla Campos, que tem zero sotaque, é hoje a diretora do festival EDP Cool Jazz que decorre por estes dias em Oeiras. Apaixonada por música, frequentadora de festivais desde sempre, quis fazer em Portugal um festival que se distinguisse dos demais.

Esta é a 14ª edição do Cool Jazz Fest. Que balanço faz?

É um balanço positivo. Foi uma ideia que tive há anos e que se mantém, com todos os desafios e todas as conturbações económico-financeiras que o país atravessou, só pode ser um balanço muito positivo. O próprio mundo da música tem passado por grandes alterações – passar do suporte físico para o digital, os streamings – e nós crescemos muito. Nascemos em 2004 e ao longo destes anos o festival conseguiu consolidar-se, afirmar-se e adaptar-se.

Ter um formato diferente dos demais festivais – aqui não se dorme, os espaços dos concertos são mais pequenos – ajuda a demarcar o território?

Sim. Quando criei o Cool Jazz pensei: ‘Vou a todos os festivais, adoro música, desde à erudita, ao pop, à eletrónica, mas determinado público que não gosta de ir para esses, ou que gosta de estar num ambiente mais intimista, mais próximo dos palcos, dedicado a um artista ou dois no máximo por noite não tem onde ir’. Este festival apresenta isso mesmo e tem uma plateia sentada. Nos outros festivais ninguém se senta numa cadeira.

Os espaços dos concertos também ajudam a essa diferenciação.

Sim. Temos espaços históricos e inseridos na natureza. São muito bonitos. A música que o festival tem: o jazz, o soul, o funk, o pop, o pop rock, faz o resto.

Karla Campos, fotografada nos escritórios da Live Experiences (fotografia: João Viegas Guerreiro)

Quem é que destaca este ano?

The Pretenders, com uma mulher maravilhosa na liderança, a Chrissie Hynde. É uma mulher extraordinária com uma carreira incrível e com uma energia inesgotável, com o seu punk-rock.

A matriz inicial do Jazz nunca vai desaparecer neste festival?

Não. Essa é a base deste festival. É o que faz a diferença. Agora é sempre um jazz com um conceito alargado, mais main stream, como o Jamie Cullum que cresceu com o festival.

O Jamie Cullum já faz parte da família?

Sim. Apareceu neste festival em 2005, num espaço pequeno – na Cidadela de Cascais – e de tal forma cresceu, que sempre que ele está disponível ou tem um disco novo, eu tento trazê-lo cá. E há uma ligação tão grande entre ele e o público do Cool Jazz que cada vez que ele vem é uma festa.

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A Karla dirige o festival. O que é que isso quer dizer concretamente?

Criei o festival em 2003 e ele foi lançado em 2004. Criei o conceito, o formato, o estilo de música e escolhi o tipo de espaços que podem ser usados – este ano estamos no Jardim do Palácio do Marquês de Pombal em Oeiras e no Estádio do Parque dos Poetas. Como o festival foi crescendo, os artistas que trazem público que já não cabe no jardim atuam no Estádio.

Mas ao longo do ano não faz só isso. A escolha dos artistas também é sua?

Todos os pontos do festival – sendo um festival da Live Experiences e sendo eu a empresária – estou em todos os pontos. E a programação é uma coisa que faço 365 dias por ano, 24 horas por dia. Estou sempre a ouvir música, a receber informação que o artista há de ter um um disco novo, entrar em tourné… nessa altura começamos logo a trocar ideias com os agentes para tentar perceber se esse determinado artista pode vir ao Cool Jazz.

Karla Campos, fotografada nos escritórios da Live Experiences (fotografia: João Viegas Guerreiro)

É fácil montar esse puzzle que é a programação do festival?

É um samba rock que exige muito tempo. É um processo. Temos que estar sempre de volta deles porque as tournés não se formam de um dia para a noite. É um leilão entre promotores do mundo inteiro. Começamos a saber se as digressões vêm para Europa por volta do setembro anterior. Em função disto nós lançamos o interesse. Depois é negociar… num impasse que é uma úlcera. [risos]


O EDP Cool Jazz decorre até 29 de julho. Conheça a programação aqui.