Terapia com ecstasy é “como se curássemos o trauma como curamos uma constipação”

Esta semana, o parlamento português discutiu o uso da cannabis para fins terapêuticos. Khaliya especialista em saúde pública, licenciada pela Universidade de Columbia e o mais jovem membro da equipa de conselheiros para o Futuro da Saúde e dos Cuidados de Saúde do Fórum Económico Mundial, defende uma abordagem revolucionária na saúde mental, através do uso terapêutico do ecstasy para o tratamento de pessoas com stress pós-traumático.

O recurso ao princípio ativo presente no ecstasy está ainda numa fase inicial, a ser submetido a ensaios clínicos e à espera de aprovação final da FDA, organismo americano equivalente ao Infarmed, para poder ser integrado nos programas de saúde pública dos E.U. A. Foi sobre isso que a co-fundadora da Falkora, organização sem fins lucrativos para a saúde mental e para a iniciativa neurotecnológica, outrora conhecida por ter sido esposa do príncipe Hussain Aga Khan, costuma falar publicamente para grandes audiências.

À margem do evento, Khaliya explicou, numa entrevista ao Delas.pt, em que consiste a terapia assistida com MDMA (com a substância do esctasy) e quais os seus efeitos nos pacientes.

Os problemas da saúde mental são frequentemente chamados e reconhecidos como uma “epidemia silenciosa”, mas, como sublinha, nem sempre é uma prioridade nas políticas de saúde pública. O que é que se pode fazer para mudar esse padrão?

Bom, o facto é que temos de o fazer. Em muitos lugares, um pouco por todo mundo, estamos a assistir a um alastrar da violência relacionado com problemas de saúde mental. É uma consequência do facto de muitas pessoas terem problemas de saúde mental que estão escondidos, não diagnosticados. Nos Estados Unidos da América há um histórico de uso de opiáceos em proporções que nunca vimos antes. Uma parte deles são prescritos, mas passou-se do consumo de opiáceos prescritos para o de heroína. E isso é destrutivo, destrói quem consome, destrói famílias e comunidades. O que muita gente não compreende sobre as doenças mentais e psicológicas é que não é um problema individual. É socialmente construída. Se se cresce num bairro onde não há segurança, sem pais que cuidem, ou se se tem uns que maltratam, se se está em risco a toda a hora cresce-se de uma maneira diferente de quem não passou por isso. As pessoas não se apercebem é que as doenças mentais têm os mesmo fatores epidémicos que o vírus têm: cria raízes, e assim que uma pessoa o tem as pessoas à sua volta são afetadas, não é um problema individual. Além disso, mesmo que o indivíduo comece a melhorar, se o ambiente à sua volta é mau a probabilidade de se reabilitar é baixa. Um das coisas que se fala para ultrapassar a dependência de drogas, mas também as doenças mentais é a pessoa ter cuidado com quem se rodeia. Porque é preciso ter pessoas que apoiem. A construção social da saúde é aquilo que me interessa abordar e eu penso que a construção social da saúde começa na mente.

Para isso defende que é preciso colocar as questões da saúde mental na agenda política. Como é que pensa alcançar isso?

Em parte, planeio fazê-lo contando a minha própria história, que é de que as pessoas que são consideradas de certa forma “danificadas” não estão necessariamente “danificadas”. Por isso, criei este termo, “ferida mental”. Quando as pessoas passam por alguma coisa que lhes causa um impacto mental são consideradas como tendo uma doença mental e psicológica, algo permanente. Tem depressão, ou tem um problema de ansiedade. Nunca é visto como algo de que se possa sair. E acho que isso contribui para o estigma. É preciso mostrar que é realmente possível uma pessoa curar-se desse problema. No meu caso, eu sofri um incidente que me deixou traumatizada durante algum tempo, alguns anos, e curei-me. Por isso agora posso ir aos sítios e falar em nome dos que ainda não estão curados e tentar que eles tenham a ajuda de que precisam e sem a qual não podem ser uma parte funcional da sociedade. Quando estava doente eu não conseguia fazer as coisas que faço agora: fazer conferências, associar-me a uma série de iniciativas. Nada disso teria sido possível há quatro anos. Foi muito difícil para mim recuperar.

Uma em três mulheres é violada. Não é uma doença feminina, um problema feminino, é uma condição feminina este legado de sermos abusadas pelos outros. É um facto. Claro que vamos ter maiores taxas de trauma nas mulheres, se os homens passassem pelo mesmo, é claro que havia taxas mais altas neles.

Partilhou a sua experiência, num artigo no ‘New York Times’, onde fala da terapia assistida feita com uma substância ativa do ecstasy. Pode explicar melhor como funciona e em que processo se encontra o desenvolvimento desta terapia?

Em setembro [de 2017], a FDA deu luz verde para a terceira fase de ensaios clínicos e aceite como uma droga experimental, que oferece a oportunidade de fazer o que mais nenhuma droga atualmente no mercado conseguiu fazer até agora. Chegar a essa fase faz com que esta droga possa ser aplicada mais depressa do que outras, o que é crucial, porque as pessoas que estejam com tendências suicidas, que estão realmente a sofrer neste momento, não têm tempo a perder. Eu acho que as pessoas não percebem a urgência disto. Mas foi um passo histórico no sentido em que essa substância foi criminalizada nos anos 80 e devido a esse estatuto não se pode fazer investigação com ela ou se se fizer é muito mais caro. E nenhum dos mercados farmacêuticos quer financiar algo que pode efetivamente acabar com os problemas. Há pessoas que tomaram Prozac a processar o governo em milhares de dólares, todos os anos. Uma em cada cinco pessoas toma algum tipo de anti-depressivo. Será um grande mercado aquele que irão perder se houve, de facto, soluções que curem. Portanto, há muitos incentivos para que não avance, mas há muitas razões para que ter de acontecer.

E que razões são essas?

Digo que tem de acontecer porque a maioria das pessoas que a realizaram saíram dela curadas, nunca mais tiveram stress pós-traumático. Nunca vimos nada semelhante: 83% das pessoas que se submeteram aos três ensaios clínicos – durante os quais também fizeram psicoterapia. Isto num tempo limitado, cerca de quatro meses. Estamos a falar de pessoas com depressão resistentes aos tratamentos ou que viviam, em média, há 17 anos com um elevado grau de stress pós-traumático. Foram 17 anos em que tiveram problemas em ir à loja, em que poderão ter sido agressivos com os membros da sua família e os magoado. Por isso, o facto de podermos impedir todas estas pessoas de sofrerem, numa questão de meses e para sempre, é um feito enorme. E em termos de epidemia – a minha formação é em doenças infecciosas e segurança nacional – olhei para isso como que se tivesse um vetor, um reservatório de doenças. Se se afastar esse reservatório há muito menos pessoas a apanhá-las. É como se curássemos o trauma como curamos uma constipação, uma infeção. É por isso que eu acho que tem de acontecer.

Mas como funciona exatamente esta terapia?

O que esta terapia faz é injetar o corpo com oxitocina. Quem tem stress pós-traumático grave, tem o corpo tão assustado com o que aconteceu no passado que aprendeu a organizar uma reação. Portanto, se se tiver estado numa situação de rapto como eu estive, na guerra da Síria, seja o que for, cria-se um caminho na mente, que é ativado e responde: ‘tenho de reagir imediatamente, tenho de sobreviver’. E o cérebro é muito eficaz a criar essas vias rápidas para a ação. Infelizmente também são essas as vias para o pânico. Estabelece uma linha entre o catalisador e a parte primitiva do cérebro que controla as “bandeiras vermelhas”, as reações ao pânico. E porque nos está a tentar manter vivos – é uma coisa muito biológica – ignora o córtex pré-frontal que é o que nos faz tomar decisões. E o que a terapia com a substância do ecstasy [MDMA, em inglês] faz, porque enche o corpo com oxitocina, serotonina, etc, e pára a reação fisiológica ao medo, o cérebro não envia a mensagem de que devemos ter medo. E então é possível olhar para as coisas que estão a causar medo, que se tornaram catalisadores e ver que elas já não têm esse efeito.

Em 2016, Khaliya White foi distinguida com o Prémio da Paz Middelthon-Candler. Em 2017 recebeu o Booth Luce Award for International Service.

De qualquer forma estamos a falar de uma droga, e as drogas, mesmo as prescritas, podem causar dependência. Isso não é um risco nesta terapia?

Não. Se não for prescrito como um medicamento há risco – porque ninguém se quer sentir assustado, toda a gente se quer sentir bem e eufórico. Mas se for feita apenas numa clínica especializada não o poderão fazer, porque estarão sempre na terapia. É controlado dessa forma, não enquanto substância, mas no mecanismo do seu uso. Eu não defendo a MDMA, eu defendo a terapia MDMA assistida. Esta não se limita a dar a droga e deixar a pessoa sentada. Faz-se psicoterapia antes, cerca de um mês, depois é então administrada a substância, numa sessão normalmente de seis horas e com dois terapeutas na sala, treinados para este tipo de terapia. Eles dão o comprimido, depois colocam uma máscara nos olhos da pessoa, põem música e o paciente não tem de fazer nada. Talvez fale com eles, mas basicamente viaja ao interior da sua mente e quando se vão afastando os escudos mentais, percebendo que o que assustava já não assusta, a pessoa naturalmente começa a querer entrar nesse processo. É como uma porta com a qual sempre se esteve preocupado, mas que hoje se arrisca a abrir e a ver o que está para lá. E uma vez aberta percebe-se que o que está lá não é assustador. Quando termina a terapia aquilo já não é uma questão, já não existe. O que é recomendado são três sessões, mas muitas vezes consegue-se tratar em apenas uma. O que vejo nesta terapia é um potencial para tratar pessoas que passaram por grandes catástrofes, tiroteios – como nos Estados Unidos. Em situações como estas podemos tratar números elevados de pessoas, para que o trauma não se repita e possam viver vidas mais felizes e melhores.

Os traumas, psicológicos nestes casos, são muitas vezes vistos socialmente como fraquezas, e fraquezas frequentemente associadas às mulheres.

Sim, uma em três mulheres é violada. Não é uma doença feminina, um problema feminino, é uma condição feminina este legado de sermos abusadas pelos outros. É um facto. Claro que vamos ter maiores taxas de trauma nas mulheres, se os homens passassem pelo mesmo, é claro que havia taxas mais altas neles. E penso que estamos a ver essa mudança. Mas não acho que seja a condição física de uma mulher que a torna mais passível de sofrer desse trauma. São as condições sociais de mulher que as tornam mais propensas a isso. É por isso que digo que muitas destas doenças são socialmente construídas. Idealmente, num mundo perfeito, não precisaríamos da terapia com MDMA, porque não teríamos uma construção social tão forte da doença, tantas pessoas que precisássemos de tratar. Mas já as temos, já está a acontecer. Temos de tirar as pessoas daquele passado [traumático], dessa história, e para fazer isso penso que são precisas ferramentas que atuem no corpo de forma rápida e o MDMA faz isso.

A adição é uma coisa com uma motivação muito emocional quando as pessoas estão infelizes e não conseguem perceber como vão resolver os seus problemas. Se tratarmos isso, podemos tratar tantas outras coisas.

E como é que se podem mudar as construções sociais que levam à doença, como é que chegaríamos a um mundo em que não fosse preciso o MDMA?

Neste momento, estamos numa espécie de barco que deixa entrar água por todos os lados, vamos ter de acabar por construir um barco melhor. Mas antes de podermos construir um barco melhor, temos de bloquear as fugas para não afundarmos. Neste caso, acho que temos de lidar com os traumas que já criámos, agora, enquanto construímos, ao mesmo tempo, a sociedade de forma a não recriarmos este paradigma. Mas se tivéssemos a começar do zero, deveríamos construir comunidades. São as comunidades que sustentam as pessoas. Um bom ambiente para se viver, comida saudável, um bom estilo de vida, estar ao ar livre, praticar exercício, todas as coisas que são de senso comum, mas que às vezes perdemos. As pessoas chegam a passar dias fechadas em casa sem ver o sol, não veem os amigos, enviam-lhes mensagens. As comunidades estão a acabar, à medida que o mundo fica mais urbano. Muitos poucos de nós conhecem os seus vizinhos. Não sabemos de onde vem a nossa comida. Sentimo-nos perdidos e desligados e isso faz com que as pessoas sintam falta de ter uma ligação a alguma coisa. Isso pode levá-las a aderir a um grupo extremista, a querer morrer de uma forma gloriosa. As pessoas querem sentir que existem e que são necessárias à comunidade, se não sentem isso procuram outra forma de dar sentido à vida, nem sempre de uma maneira boa.

Outra das suas prioridades de intervenção é o acesso das pessoas à saúde e o custo desse acesso. Quais são as suas perspetivas, nessa matéria, caso a terapia com MDMA seja aceite e também em relação à tecnologia aplicada à medicina. Acha que podem ambas contribuir para reduzir esses custos, ou o contrário?

Como sabe, os Estados Unidos são um dos maiores consumidores mundiais de opiáceos e foi feito um estudo que mostrou que muitas das pessoas que estavam a tomar analgésicos, não tinham dores, estavam deprimidas. Usavam-nos para atenuar o seu sofrimento emocional. Penso que muitos dos elementos físicos que estamos a ter agora acontecem, em parte, por aquilo que se passa na mente. Isso não significa que mesmo que estejamos felizes e bem, não nos apareça cancro, que o HIV vá deixar a existir, mas significa que vamos impedir muitas outras coisas, como a adição. A adição é uma coisa com uma motivação muito emocional quando as pessoas estão infelizes e não conseguem perceber como vão resolver os seus problemas. Se tratarmos isso, podemos tratar tantas outras coisas. Portanto, uma maneira de lidar com os elevados custos dos serviços de saúde atualmente é resolver os problemas antes de eles começarem. Mas sim, os custos da saúde são estratosféricos, em parte porque as farmacêuticas gastam uma média de 10 milhões de dólares em drogas que colocam no mercado e que nem sempre funcionam. Então por que não usar uma droga que já é gratuita, em que a pesquisa seria relativamente barata? Não há interesse político suficiente para que isso aconteça. As células estaminais são outra das coisas que poderiam revolucionar completamente os cuidados de saúde e resolver muitas doenças, mas não daria dinheiro a quase ninguém. Temos um problema fundamental que domina a saúde neste momento, que é o lucro, em vez de serem as pessoas e a redução do sofrimento.

É favorável à criação de um serviço de saúde universal e gratuito no seu país, como há em vários países da Europa?

No geral, diria que sim, mas penso que haverá sempre uma necessidade de haver uma parte que esteja mais focada nos avanços científicos, enquanto um serviço universal de saúde visa atingir o máximo de pessoas possível, pelo menor custo possível, o que é fantástico. Mas para a ciência progredir é necessário criar uma estrutura de incentivos que canalize investimentos para lá. Penso que tem de se ter sempre os dois lados, um em que toda a gente tem acesso aos cuidados básicos – e é embaraçoso não termos isso nos Estados Unidos – mas também o outro, onde exista uma escada para que as pessoas tenham por onde subir e progredir. Espero no meu tempo de vida ver as pessoas chegarem aos 120 anos de idade e isso pode vir a acontecer se trabalharmos arduamente e avançarmos nas direções certas e não na direção de fazer dinheiro.