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“No Japão as mulheres exercem uma força poderosíssima mas silenciosa”

Há 23 anos, Kristina Mar decidiu ir viver para o lado de lá do mundo, no longínquo Japão. A alma artística ditou-lhe que uma simples viagem a Macau se estendesse para a restante Ásia e pelo resto da vida. Kristina Mar, ceramista de Coimbra formada em Cerâmica Industrial e em Escultura pelas Belas Artes do Porto, premiada e exposta um pouco por todo o mundo, resolveu agora voltar e trazer com ela os ensinamentos da arte do kintsugi:

“É uma arte japonesa, com mais de 400 anos. O kintsugi, literalmente ‘reparação com ouro’, ou kintsukuroi, ‘renovação dourada’, é um método de reparação ou restauro com laca natural, urushi, que honra a história única do objecto, enfatizando, não escondendo, a ruptura.”

Está inserido numa filosofia mais global?

É uma estética nascida do conceito mottainai – um sentimento de arrependimento quando algo é desperdiçado – as rachaduras são “costuradas” com resina de laca natural urushi e cobertas a ouro em pó ou em folha, prata ou platina, e muitas vezes evocam formas naturais como cascatas, rios ou paisagens. Este método transforma o objecto em algo novo, tornando-o mais raro, belo e com um mais sentimental significado que o original.

Como entrou o kintsugi na sua vida?

Pelo facto de querer saber mais um pouco sobre técnicas urushi iniciei alguns estudos num atelier de Kyoto e consequentemente, como ceramista, usando essas técnicas para reparos. Usei-o também para desenvolver ideias na área do design, com objetos de índole mais contemporânea.

No Japão o kintsugi é uma profissão ou um hobby?

Pode ser as duas. Muita gente aprende e pratica como hobby para reparar as peças próprias com valor sentimental, e até mesmo como uma forma de terapia e relaxamento. Mas na realidade existem artesãos que trabalham na área da laca, fazem restauros e reparações a nível profissional, de grande qualidade técnica e estética e são altamente remunerados e apreciados.

Quando é que foi viver para o Japão e porquê?

Há 23 anos. Durante uma acidental visita a Macau decidi ficar mais algum tempo viajando pela Ásia e, depois de 2 anos viajando e trabalhando, decidi procurar no Japão maneira de estudar por algum tempo mais técnicas locais. Também busquei contactar com maneiras de trabalhar dos artistas e dos artesãos japoneses. Caminhos abriram outros caminhos e até hoje…

Como é diferente a vida de uma mulher cá e lá?

Pergunta tão geral e tão particular! Em geral posso dizer que a universalidade de ser Mulher ou Homem pouco se altera onde quer que se esteja. Mas particularmente na sociedade japonesa, sendo aparentemente uma sociedade dominada por uma força de trabalho masculina, muito especialmente nas posições de poder, as mulheres exercem uma força poderosíssima mas silenciosa na organização e suporte da sociedade. Apenas a sua cultura refinada e delicada, e religião de base xintoísta ligada com a natureza, predispõem a que a energia feminina aparente uma certa passividade e, num sentido figurado, meia velada mesmo. Como em tudo na sociedade japonesa, a linha que separa os dois polos extremíssimos é ténue e indelével como suaves portas de papel.

Como surgiu a ideia de trazer estes cursos de kintsugi para Portugal?

Através de uma proposta do Centro para as Indústrias Criativas de Macau, depois de uma conversa com a sua excelente diretora e dinamizadora Lúcia Lemos. Daí apresentei propostas também em Portugal a algumas entidades e ateliers ligados à cerâmica ou a práticas de técnicas de chá, como a bela Companhia Portugueza do Chá, o Museu Nacional de Arte antiga, entre outras. Na realidade será apenas feita uma aproximação básica das técnicas tradicionais, dando mais ênfases à parte filosófica e à estética. São, fundamentalmente, conceitos wabi sabi, uma visão estética centrada na aceitação da transitoriedade e na imperfeição.

Como é visto o kintsugi, ancestral e contemplativo, pelos japoneses contemporâneos?

Penso que continua intacto o apreço e o valor que lhe dão. No entanto passivo, pelo simples facto de ser esta uma sociedade muito “ocupada”. Incongruentemente pouco tempo resta para que disfrutem de uma tão rica e profunda maneira de sentir e apreciar a vida inerente à sua cultura.

 

E pelos ocidentais?

Como em todas as coisas pouco conhecidas ou estudadas, com um misto de curiosidade e desentendimento. Mas na realidade isso é o que me aflige menos quando abordo estes temas em workshops. Tento contrariar esta sobrevalorização do exótico e até de um certo cultivar do “inatingível” quando falamos da cultura japonesa. Estudar in loco e viver localmente é importante, mas há novas maneiras de comunicar e conhecer todas as culturas, ideias e maneiras de viver, ao alcance de um dedo. Desmistificar e estudar mais a fundo outras formas de ver as coisas é muito mais gratificante. Se eu puder ajudar um pouco nesse sentido, fazendo o que gosto, ficarei feliz.

O que pode fazer a prática do kintsugi por cada um de nós?

Para além do que já disse antes, o kintsugi, sendo uma prática de restauro que geralmente se centra em objetos pessoais, com valor sentimental, incita ao relaxamento, à meditação e ao estar consigo mesmo, um exercício que acho ser fundamental na vida de todos os seres humanos.

O próximo atelier de kintsugi disponibilizado por Kristina Mar decorrerá no Porto, dias 1 e 2 de novembro no Atelier Brâmica. Mais informação sobre este e futuros encontros no FB da artista, https://www.facebook.com/kristinamar8 e no site http://www.kristinamar.com.

João Galvão