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Lara Morgado: “Há mulheres que mataram os maridos porque eles as deixaram e arranjaram outra mulher”

Trabalhou vários anos como psicóloga em estabelecimentos prisionais e trouxe parte dessa experiência para a série que criou para a RTP 1. ‘Dentro’, com estreia marcada para setembro, passa-se num estabelecimento prisional feminino e conta as histórias de várias reclusas, mostrando a sua complexidade e afastando as tipologias mais comuns que encontramos na realidade. Nesta série, os crimes são tão diversos como as personalidades das personagens e a prisão é tão literal como metafórica. Lara Morgado gosta de trabalhar as emoções e a partir delas construir histórias. As suas criações dividem-se pela escrita para televisão, para teatro e pelos livros, tendo lançado este ano a sua terceira obra, ‘As Cores de Branca+ (Porto Editora). Mas evita criar amarras nos seus processos criativos. Gosta de “partir do zero absoluto e ter como única meta chegar às pessoas”. Em ‘Dentro’, que tem Vera Kolodzig num dos principais papéis, a aproximação faz-se através da imprevisibilidade das personagens e de sentimentos que são comuns a todos, com mais ou menos liberdade.

Como é que surgiu a ideia de criar uma série sobre um estabelecimento prisional feminino?
Eu sou psicóloga e trabalhei em estabelecimentos prisionais durante algum tempo. E há uns anos surgiu a possibilidade de fazer uma série e achei que o tema, não só da cadeia feminina mas também confronto da ingenuidade e fragilidade de um psicólogo estagiário e a vida daquelas mulheres experientes seria um mote interessante para falar de muitas coisas. Este contexto é mostrado através desse confronto e achei que a experiência quando era psicóloga estagiária era muito rica em termos de possibilidades para criar a história.

E essa experiência que teve foi apenas em estabelecimentos prisionais femininos?
Estive nos dois, femininos e masculinos.

Quais foram as principais diferenças que encontrou nestes dois universos de reclusos?
De uma forma geral, as mulheres fazem mais barulho e os homens são mais sérios. Ou seja, nas cadeias femininas, todos os dias há confusão, mais escândalos, mais gritos, nas dos homens há uma tensão latente, também há discussões, mas menos vezes. Há uma agressividade mais silenciosa, digamos, que se percebe pelo ambiente, pelos olhares… E de vez em quando há confusão a sério. As mulheres vão exteriorizando mais, diariamente. Esta é a minha perceção.

Que tipos de reclusas encontramos nesta série?
O que mais detesto quando escrevo é ser previsível e os crimes que vou revelar nesta série não são propriamente os mais estereotipados e que as pessoas possam esperar, como a mulher que era vítima de violência doméstica e que matou o marido. Tentei pegar em histórias, absolutamente ficcionadas, mas com sentimentos reais. Ou seja, estas mulheres são muito diferentes umas das outras, muito mesmo. E é muito interessante perceber – quando estava a escrever e depois quando vi os episódios – que, às vezes, as mulheres mais complexas em termos de vocabulário e raciocínio não são necessariamente as que são mais complexas em termos emocionais. Há uma personagem muito calma, muito simples em termos de vocabulário, mas tem uma densidade emocional por trás muito grande. São pessoas muito diferentes a nível da linguagem, da expressão… Foi nessa diversidade que tentei pegar, e também pelos crimes. Tentei pôr crimes diferentes, dentro da moldura portuguesa, que pudessem ser interessantes de explorar.

E para criar essas histórias baseou-se na sua experiência como psicóloga em estabelecimentos prisionais ou, e uma vez que estamos a falar de ficção, procurou dar outras características às suas personagens?
Procurei, sem dúvida, porque acho que a ficção é a melhor forma de exprimir a realidade. Quanto mais ficcionamos mais reais estamos a ser, porque as emoções é que são a realidade. Explicar a história de uma pessoa que conheci quando trabalhei em cadeias provavelmente não a percebe emocionalmente, mas se inventar uma história que não é necessariamente igual se calhar vou compreender melhor essa mulher que conheci. Ou seja, inventei as histórias exatamente para dar corpo às emoções que vi e que vi não forçosamente na cadeia. É um bocado metafórico, a cadeia não é necessariamente a vida numa cadeia é a vida, simplesmente. Aquelas emoções são comuns a todas as pessoas não só às que estão presas. As dúvidas, os medos… De certa forma estamos todos presos de alguma forma, às vezes a uma pessoa, a uma casa ou a um emprego.

Uma das personagens desta série é, como referiu um psicólogo estagiário, que acaba por ser uma espécie de alter-ego seu. Mas por que quis que esta personagem fosse um homem?
Eu fui estagiária numa cadeia de homens e, de alguma forma, achei que o facto de o género ser diferente era mais fácil em termos de possibilidades porque há tensões a vários níveis. Claro que se fosse mulher a maioria das experiências continuava a estar lá. Mas o facto de ser um homem numa cadeia de mulheres dá para trabalhar muitas coisas. Quando estive numa prisão masculina foi muito complicado. A questão de ser uma rapariga nesse meio, como me consegui impor… Achei que era mais interessante ser um homem, um rapaz novinho a fazer essa personagem.

É também escritora e a escrita tem estado, de resto, presente desde cedo na sua vida. Até que ponto a psicologia entra nos seus livros?
Eu gosto de responder que não entra. Ou seja, acho que se tivesse outra profissão seria igual. Claro que a psicologia me permite estar em contacto com pessoas e com os seus dilemas e a suas dúvidas, mas acho que na minha vida estaria sempre atenta aos outros mesmo que não exercesse esta profissão.

Tem três livros editados, o último dos quais, ‘As cores de Branca’ foi lançado este ano, pela Porto Editora. Como é que definira a sua escrita? O que é que procura explorar nos seus livros?
Eu gosto mesmo de criar a partir do nada, a todos os níveis, na história e na forma. Mas não é nenhum preciosismo é porque acho que este partir do zero absoluto e ter como única meta chegar às pessoas, fazê-las pensar e deixar a minha impressão digital, a minha identidade é o mais precioso. Por isso, não estou nada preocupada em saber que estilo é que sigo, quem é que eu sigo, que escritores… Pelo menos, tento não seguir, porque claro que não consigo evitar aquilo por que sou influenciada. Mas, acima de tudo, tento tocar as pessoas porque essa é a função da arte.

E foi a arte, neste caso a da escrita, que surgiu primeiro ou foi a vontade de ser psicóloga?
Ah, sem dúvida que foi a arte.

Tem ideia de quando começou a escrever mais a sério?
Sim, esta coisa da escrita é só uma manifestação de algo que já vem acontecendo que é olhar para as coisas e pensar no que é que elas são e porque são assim. Mas, oficialmente, comecei a escrever aos 17 anos… Bom, a minha primeira peça [de teatro] foi escrita quando tinha 18 anos.

O teatro ocupa grande parte da sua atividade criativa e profissional. No ano 2000 fundou, no Porto, o grupo X-Acto, assina a dramaturgia e encenação de várias peças. Também o utiliza na sua atividade como psicóloga?
Sim, como psicóloga uso muito o teatro para trabalhar com as pessoas, em contexto comunitário. Percebi que era uma arma muito grande, que sabia usar e então usei-a muito mesmo. Nas cadeias onde trabalhei fiz muitas peças de teatro. Mas o maior tempo da minha vida e as maiores obras que criei, digamos assim, foram as peças de teatro. Foi o que escrevi desde sempre.

Portanto, a escrita surge através ou ligada ao teatro…
Sem dúvida. Eu não tinha a ideia de vir a escrever livros, como tinha, por exemplo, em relação aos guiões para televisão, porque eu gosto muito de criar diálogos e histórias nessa forma. Os livros surgiram depois.

Qual foi o maior desafio que sentiu quando começou a escrever livros?
Em termos práticos, um livro demora mais tempo e implica uma disciplina e que a história esteja de uma forma mais permanente na minha cabeça, que a rede de histórias esteja sempre presente. Implica uma concentração maior. As peças também podem ter essa estrutura, claro que sim, mas vivem mais de momentos de inspiração. Faço uma cena, depois gosto ou não gosto, e então faço outra. Nos livros, é preciso uma maior disciplina, mas é igualmente emotivo. Eu tenho reações físicas quando escrevo [risos] e entretenho-me sozinha nesse processo que, nesse aspeto, é igual nas diferentes áreas.

Voltando à série ‘Dentro’ e à sua experiência nas cadeias, é possível traçar um perfil dos criminosos do sexo feminino?
Na série não parto disso, mas posso falar da minha experiência, embora já não trabalhe em estabelecimentos prisionais há cinco anos e por isso a minha perspetiva possa não ser absolutamente atualizada. Tendo em conta a realidade, muitas eram mulheres que tinham sido presas por tráfico de droga, tomando a responsabilidade dos crimes para defender filhos e maridos, muitas associadas a crimes passionais envolvendo maridos ou companheiros, não só por defesa, mas também por ciúme. Há sempre aquela ideia de que as mulheres mataram os maridos porque senão eram eles que as matavam, mas às vezes não é só isso. Há mulheres que mataram os maridos porque eles as deixaram e arranjaram outra mulher. Também existe essa parte. Os crimes das mulheres são sempre menos violentos, em termos físicos, que os cometidos por homens. Mas, e embora não seja regra, nas cadeias femininas soube de crimes muito mais rebuscados que nas masculinas, em termos de requinte. Isto é apenas a minha experiência, não é uma análise estatística. Nos crimes, os homens eram mais agressivos, mas as mulheres eram mais requintadas.

Dada a sua experiência na área da dramaturgia, podemos rever nas mulheres desta série semelhanças com algumas personagens femininas do género que conheçamos do teatro ou do cinema?
Elas nunca são só uma coisa, têm vários lados. A personagem da Vera Kolodzig, que faz de Marta, uma das reclusas e personagens mais enigmáticas da série, já foi comparada um pouco à da Sharon Stone, no filme ‘Instinto Fatal’, pelo confronto, não tanto por ser sexualizada. A Marta é uma personagem um pouco à parte das outras da série. Não é a típica reclusa, porque é uma mulher muito inteligente, que consegue controlar a cadeia inteira com a sua perspicácia e também o psicólogo estagiário.

E das outras atrizes também podemos esperar grandes surpresas ao nível do desenvolvimento das suas personagens?
Sem dúvida nenhuma! Aliás, ela não é a única protagonista. Todos os episódios têm uma história e uma protagonista e, além disso, existe uma evolução transversal das personagens fixas, ao longo da série. Portanto, os episódios são autónomos e depois existe uma outra história que é transversal e há outras personagens como as da Carla Galvão, da Margarida Cardeal ou a da Susana Mendes, que faz a personagem Cátia, que é muito atípica. É uma mulher muito simples, que está sempre a oferecer o corpo mas que ao mesmo tempo é muito densa emocionalmente. Não fala muito bem, mas não é só aquela personagem cómica “burrinha” e tonta. A atriz acabou por dar uma complexidade à personagem, que acabamos por sentir uma ligação com ela absolutamente incrível.

 

Imagem de destaque: Porto Editora

Ana Tomás