Subir

Lina Moreira: “Nunca senti que não podia tocar na banda por ser mulher”

Tem 55 anos, é bancária, e foi uma das primeiras três mulheres a integrar a Banda da Música da Sociedade Filarmónica Vestiariense, da zona de Alcobaça, Leiria, e, ao mesmo tempo, uma das primeiras a conseguir lugar numa formação musical civil – tradicionalmente dominada por homens – em Portugal.

Começou a aprender solfejo aos 13 anos e, um ano depois, já em setembro de 1976, integrava o núcleo de executantes.

Lina chegou levada por uma amiga, Emília, cujo pai era músico nessa mesma associação, e não teve qualquer impedimento por parte dos progenitores. “O meu pai já era sócio da Filarmónica e acho que até gostou que eu quisesse ir”, conta ao Delas.pt.

E se o mais complicado estava feito, o mais simples para Lina há muito não oferecia dúvidas: o gosto pela música marcava-lhe o ritmo da vontade. E da decisão.

Com que idade integrou a Banda Filarmónica da Vestiaria?

Comecei a aprender com 13 anos e, aos 14, comecei mesmo a tocar na banda. O pai da minha amiga Emília era musico lá e, com ela, acabei por ir porque queria aprender musica. Fui por arrasto, mas gostava muito de música (risos).

E que instrumento foi aprender?

Saxofone. Na altura, aprendíamos os instrumentos que eram necessários, que não tinham qualquer executante na banda. Por isso, fiquei com o saxofone. Não tinha uma ideia feita, mas gostei do som e do conjunto e fiquei a aprender. Primeiro estudei o solfejo, que adorava. Só depois da lição 100 – e que era difícil – é que podíamos começar mesmo a tocar. Hoje em dia, a formação já é feita de forma diferente. Na altura, os instrumentos eram emprestados, mas era assim que íamos aprendendo.


Conheça a história das mulheres nas bandas filarmónicas portuguesas


E como foi convencer os seus pais a integrar uma formação só composta por homens?

Foi bastante fácil, os meus pais não colocaram quaisquer entraves. O meu pai já fazia parte da Filarmónica, era sócio e achou bem, acho que gostou que eu quisesse ir.

Quanto tempo esteve na banda?

Toquei uns dez anos. Comecei a trabalhar aos 19 anos e conciliar nem sempre era fácil. Mas, durante esse tempo em que estive na filarmónica, surgiu a oportunidade de os mais jovens constituírem uma orquestra ligeira – o que foi uma novidade na época – e eu, com as minhas colegas, fomos também membros iniciais dessa orquestra. Chegámos, inclusive, a ir à FIL e a participar numa orquestra muito maior.

Era mais interessante, tocava temas mais atuais?

Quando começámos na orquestra só havia um instrumento de cada naipe. Tínhamos mesmo de tocar, se não faltava mesmo aquele tom e a música corria mal (risos). Era mais desafiante e as músicas eram muito interessantes. Também gostava muito da da banda porque sempre apreciei música clássica.

Como foi ser rapariga num clube ainda tão dominado por homens, em plenos anos 70?

Éramos muito bem tratadas, fomos muito bem recebidas. Tanto pelos mais velhos, como pelos mais novos. Na altura, ser rapariga numa banda filarmónica já não era raro porque elas já estavam presentes como porta-estandartes [na da Vestiaria desde 1969]. Aliás, já havia, por norma, três raparigas que acompanhavam a banda cumprindo essas funções. Como executantes, foi novidade, mas tudo correu sempre de forma natural. Nunca me foi dito, nem nunca senti que não podia tocar na banda por ser mulher.

Nos anos 80 e 90 do século passado, muitas das mulheres acabavam por desistir das filarmónicas porque se casavam. Foi o seu caso?

Saí da orquestra ligeira na mesma altura em que abandonei a banda. Por acaso, não tinha casado ainda, mas já namorava. Ele ia comigo e apanhou algumas ‘secas’ até (risos), o meu namorado acompanhou sempre. Curiosamente, tenho dois filhos e ambos estudaram musica na banda da Vestiaria e passámos a ser nós a acompanhá-los.

Eles seguiram carreira musical?

A mais velha seguiu música a nível profissional. O meu filho é informático, não seguiu, mas continua a tocar. A música faz muito bem quer pela parte social, pelo convívio, pelo respeito mútuo, mas também porque desenvolve capacidades como a matemática e ciências. E só pode fazer bem.

Imagem de destaque: Shuttertsock

Carla Bernardino