Mãe escreve sobre suicídio da filha como alerta para bullying

No dia 13 de fevereiro de 2013, Nora Fraisse chegou a casa e viu a sua filha, Marion, de 13 anos, enforcada no quarto. Ao lado tinha o telemóvel, simbolicamente enforcado também, para que quem a encontrasse depressa percebesse que naquele pequeno dispositivo móvel estavam alguns dos motivos da sua morte. No dia seguinte, depois de um jornal francês divulgar uma carta escrita pela criança encontrada pela polícia, os pais vieram a saber que a filha tinha sido vítima de bullying e cyberbullying durante meses a fio.

Os pais de Marion nunca desconfiaram que a filha era uma vítima. Sabiam que fazia parte da turma mais problemática da escola e já tinham pedido várias vezes para que a aluna exemplar mudasse de turma, mas sem sucesso. Os pedidos foram sempre ignorados, tal como a família da adolescente foi desprezada por toda a escola depois do suicídio. O diretor ordenou a todos os professores que não contactassem a família e aconselhou os pais a fazerem o mesmo. Mentiu, dizendo que os familiares de Marion não queriam ser contactados.

Mais tarde, e depois de falar com vários pais de colegas e amigos da filha, Nora Fraisse descobriu como a escola tentou ignorar o assunto e decidiu escrever num livro a história da filha, em jeito de homenagem e alerta. Todas as informações estão patentes nesse livro que tem agora uma versão em português.


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“Para que os pais evitem que os seus filhos se tornem vítimas, como tu, ou agressores, como aqueles que te levaram ao desespero. Para que as direções das escolas se esforcem por vigiar, por escutar, por estender a mão às crianças em sofrimento. Escrevo este livro para que nunca mais uma criança tenha vontade de enforcar o seu telemóvel, nem de suspender a sua vida para sempre”, escreveu Nora Fraisse em 13 anos para sempre, Marion.

Muitas escolas portuguesas ignoram o bullying

O livro que conta a história de Marion Fraisse foi bestseller em França, com 141 mil exemplares vendidos, e saltou para o grande ecrã no país, onde foi visto por mais de quatro milhões de espetadores. Em Portugal, está disponível nas livrarias e já foi tema de debate na FNAC do Centro Comercial Colombo, numa tertúlia organizada pela editora Bertrand e que contou com a participação do psiquiatra Daniel Sampaio, o representante do projeto MiudosSegurosNa.Net Tito Morais e a professora Vanessa Limpo.

Durante esta discussão, Daniel Sampaio afirmou que o que mais o impressionou na obra foi “a cortina e o silêncio da escola”, ressalvando que “as televisões [portuguesas] falam e mostram muitos casos de pancadaria na escola, mas é muito mais importante falar deste bullying invisível” (na galeria de imagens acima pode ver alguns dos sinais que, segundo Daniel Sampaio, podem indicar que as suas crianças estão a ser vítimas de bullying).

Segundo o último estudo da Organização Mundial de Saúde sobre o tema, de setembro do ano passado, em média 42% de rapazes e 37% de raparigas já foram expostos ao bullying. Na opinião de Tito Morais, o livro de Nora Fraisse e estes números são um sinal de alerta. E nas escolas portuguesas o fenómeno também está bem presente.

“São inúmeros os casos de pessoas que me contactam a pedir ajuda e acusam a escola de colocar o assunto para baixo do tapete. Temos de olhar para lá do testemunho desta mãe. O Estado francês foi condenado por ter 25% de responsabilidade na morte da jovem. É um tema que se devia legislar no sentido de obrigar as escolas a trabalhá-lo e não a empurrá-lo para baixo do tapete por questões de imagem”, explicou Tito Morais.

Enquanto professora e diretora de turma, Vanessa Limpo também ficou chocada com a atitude da escola e dos professores no caso de Marion. “No livro chocou-me profundamente a atitude do diretor de turma. É fundamental ouvirmos os pais. Nem sempre todos os professores querem ou estão preparados para ouvir os alunos”, sublinhou a docente.

O bullying mata?

Na capa do livro 13 anos para sempre, Marion está em destaque a frase “o bullying mata”. Daniel Sampaio não concorda com esta afirmação. “Ninguém se suicida por bullying ou cyberbullying e nisso não concordo com a mãe da Marion. Isto não é exatamente verdade”, afirmou o psiquiatra.

Para o especialista, que tem lidado com muitos destes casos ao longo dos anos, é urgente que as escolas se organizem para discutir o problema. Em relação ao ciberbullying, o psiquiatra afirma que retirar totalmente o acesso aos dispositivos não é uma solução e que o mais eficaz é conversar constantemente com os filhos.

“O que me choca em Portugal é que as pessoas pensam que isto se resolve com psicólogos e pessoas que escrevem livros. Não podemos diabolizar nada do que tenha a ver com a Internet. O que é preciso é discutir. Dá trabalho mas é esse o caminho”, acrescentou Daniel Sampaio.

Ficha técnica do livro:

Bullying

13 anos para sempre, Marion, Nora Fraisse. Bertrand Editora, 15,50 euros