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Maria José Amich: “Não é correto manter as desigualdades.”


A Women Win Win vai realizar a conferência Empowerment Day, a 24 de fevereiro. Será um dia inteiro para ouvir casos de sucesso empresarial no feminino, fazer bons contactos e ganhar inspiração. A presidente da associação, Maria José Amich, 49 anos, nascida em Barcelona e a viver em Portugal há duas décadas, quer que o empreendedorismo deixe de ser a única alternativa para as mulheres com mais de 45 anos, mas sabe, por experiência própria das dificuldades de regressar ao mercado de trabalho. Em entrevista ao delas.pt revela o que é que falta ao país, às empresas e às mulheres para não serem “sacrificadas ad aeternum”.

É neste momento diretora de uma empresa internacional e é também presidente da Associação Women WinWin.
Sim, partilho a minha vida profissional entre duas áreas. A Women Win Win em que sou cofundadora da associação e fundadora da rede womenwinwin.com e sou presidente da associação women win win, associação para o desenvolvimento do capital humano e da iniciativa empresarial feminina, e também tenho um trabalho como diretora executiva de uma empresa internacional de branding global, a Summa.
Veio para Portugal por circunstâncias profissionais?
Não. Estou em Portugal há dezanove anos e vim por uma razão totalmente diferente, não ligada à razão mas ao coração. Vim para casar com um português. Essa foi a razão principal e depois tive a grande sorte de dar continuidade à minha carreira profissional em Portugal.
Quando chegou sentiu muitas diferenças entre os países, no que toca às mulheres?
Na altura era muito jovem. Tinha 29 anos e honestamente tenho que pensar… Honestamente, naquela altura, eu não dava importância a estas questões. Nunca tinha tido nenhum problema, nenhum obstáculo a entrar no mercado de trabalho, a desenvolver uma carreira profissional. Não, acho que não. Comecei logo a trabalhar com mulheres profissionais, com uma formação excelente, com competências superiores, por isso não notei diferença. O que sim notei, e que aliás está já estudado, que havia muito mais no mercado de trabalho em Portugal do que em Espanha.

Ainda hoje o envolvimento das mulheres portuguesas no mercado de trabalho é superior à média europeia. Mas continuamos a ser das que menos acedem às chefias e aos cargos de administração.

Eu diria, sem ser uma absoluta conhecedora das estatísticas, que provavelmente há mais mulheres no mercado de trabalho em Portugal porque é necessário para compensar os salários baixos dos agregados, para trazer maior sustentabilidade à família. Também é verdade que nas chefias e nas posições de direção, Portugal está na antepenúltima posição nos países membros da União Europeia, no que toca à colocação de mulheres.
É por estas razões que funda a Women Win Win em 2013?
Lançámos a associação nos finais de 2013 e o portal, embora não seja dirigida a mulheres profissionais, porque o target são mulheres empreendedoras, são portanto mulheres que têm a vontade de avançar ou que já têm uma empresa própria, mas também temos que dizer que temos cada vez mais, dentro da rede, mulheres que estão a trabalhar por conta de outrem mas que são intra-empreendedoras, ou seja, que têm de desenvolver competências de empreendedorismo dentro das empresas em que estão empregadas, e que eventualmente estão a ponderar lançar o seu próprio negócio.

A razão para fundarmos a womenwinwin.com não foi tanto esta diferença entre homens e mulheres nas posições de chefia mas sim, sobretudo, porque com a crise tanto as mulheres, como os jovens como as pessoas seniores, foram claramente as mais afetadas.

Houve muitas mulheres que perderam o seu emprego, ou quiseram regressar ao mercado de trabalho por terem estado afastadas por causa da conciliação familiar e não conseguiam ter oportunidades. Era um talento que se estava a perder.

As sociedades evoluem com as pessoas e as pessoas evoluem com formação e com capacidade de desenvolver-se a si própria e por isso achámos que fazia todo o sentido ter uma plataforma que ajudasse as mulheres a desenvolver competências como empreendedoras e nomeadamente uma plataforma que fosse uma rede que possibilitasse o relacionamento e a partilha de experiências, contactos e conhecimentos. Este é o grande motor que pensamos que faz falta. Por outro lado, é preciso acrescentar que as mulheres utilizam as redes sociais, 30% mais do que os homens para fazer networking, e são mais adeptas da internet para fazer compras online. 22% das mulheres nas economias ocidentais fazem uma compra por dia online. Quer dizer que a internet é uma ferramenta indispensável para as mulheres no mundo dos negócios. Por isso, faltava uma plataforma focada, orientada, para este nicho de mercado que são as mulheres empreendedoras. Para que conseguissem através do online relacionar-se e promoverem-se como empreendedoras dos seus próprios negócios.
Há uma experiência pessoal que a leva também a fundar esta plataforma.
Abracei uma carreira de grande consumo multinacionais norte-americanas e a dado ponto da minha carreira sabia que tinha de optar por uma carreira internacional para progredir. Isso era complicado porque já tinha uma filha, outra vinha a caminho e optei por continuar a minha carreira em Portugal já com alguns constrangimentos. A dificuldade de conciliar a vida pessoal e profissional é real e houve uma opção de casal, familiar, ponderada, de ser eu a sacrificar a minha carreira profissional para poder dar mais apoio aos meus filhos. Por essa razão comecei a trabalhar num projeto em part-time. Depois, quando os meus filhos já estavam numa idade mais autónoma, mais independente, foi no meio da crise. Nessa altura, apercebi-me que as mulheres, apesar de terem formações de excelência e uma trajetória profissional boa, se encontram com grandes dificuldade para entrar no mercado de trabalho. E pensei que como eu deve haver muitas mulheres, com muito talento a ser desperdiçado. A Women Win Win, o que pretende, é inspirar muitas mais mulheres a verem o empreendedorismo como uma opção para dar continuidade à sua carreira profissional.
O que é que quem quer iniciar o seu próprio negócio encontra no site?
Encontra uma possibilidade de ter o seu perfil de empreendedora, de promover o seu projeto e negócio e de ter uma rede de contactos de outras mulheres empreendedoras para procurar parcerias de negócios, organizadas por áreas geográficas ou ramos de negócios. Isto é uma ferramenta muito útil. Eu, por exemplo, agora estou a desenvolver projetos no Porto e tenho como tenho feito a minha vida profissional sempre em Lisboa conheço menos as pessoas dali. Posso ir à ferramenta da Women Win Win ver que mulheres estão no Porto e ver se na área de serviços e contabilidade ou na área de coaching ou de marketing há alguma mulher. Obviamente que isto me serve para desenvolver contactos.
A partir daí encontra parceiros para as atividade que precisa de desenvolver?
Parceiros, potenciais clientes, colaboradores. O ADN da Womenwinwin.com é… há um provérbio indiano que diz ‘o que não damos na vida, perde-se’ e o que mais se perde se não o damos é o conhecimento. Se não partilhamos estas experiências não conseguimos enriquecer a vida de ninguém. Isto que está no nosso ADN é dar e receber. Damos muita ênfase em que dar seja a primeira palavra, dar contactos, dar dicas, dar know-how, dar conhecimento. Tudo isto é muito útil e na vida é como um boomerang: o que damos, acabamos por receber de volta.

Lisboa, 29/01/2016 - Maria José Amich, sócia fundadora da PWN Lisbon (Professional Women Network) e fundadora e presidente da associação sem fins lucrativos WomenWinWin . Maria José Amich (Gerardo Santos / Global Imagens)

(foto de Gerardo Santos/ Global Imagens)

É por isso que, para lá do site, a Women Win Win começou a dar formação?
Sim, essas são outras áreas da associação. Uma que para nós é essencial é o programa de mentoring, que foi desenvolvido de raiz em Portugal por um grupo de mulheres que colaboram connosco, liderado por Ana Oliveira Pinto, com o apoio de David Clutterbuck, que trouxe o mentoring no início dos anos 80 dos Estados Unidos da América para a Europa. Ele foi o nosso conselheiro para este programa de que vamos lançar este ano a terceira edição. Abrange por agora 20 mulheres que têm uma relação one-to-one com um mentor, que pode ser um homem ou uma mulher, com a condição de que tenham e sejam empreendedores, que estejam à frente de empresas. E damos também importância ao facto de que sejam pessoas que tenham tido um fracasso empresarial.
O fracasso é importante para nos tornarmos melhores empresários…
Sim…
Ou melhores pessoas?
Depende. Depende do perfil das pessoas porque, como dizia Saint-Exupéry, “o fracasso fortalece os fortes”, porque há pessoas que têm mais capacidade de dar a volta ao fracasso, de levantar-se quando cai e para outros, infelizmente, o fracasso é uma contingência tal que não lhes permite evoluir.

O fracasso é uma oportunidade de apreender.

Mas a escolha de um mentor que tenha passado por uma crise surge porquê?
O critério do perfil do mentor é que tem que ser empresário, não gestor por conta de outrem, tem que ter iniciado e lançado uma empresa, e tem que ter também soft skils, estas competências relacionais. Tem de ter vontade de ajudar o desenvolvimento de uma empreendedora e que pode estar em várias fases do seu ciclo empresarial – pode estar no lançamento ou pode estar na fase de internacionalizar o seu negócio, por exemplo. Precisamos de pessoas que tenham essa vontade intrínseca de fazer crescer o outro e de forma de voluntário.
O mentoring funciona como a psicanálise de uma empresa?
Sim e da empreendedora. O mentor faz as perguntas, nunca dá opinião, mas é a mentee que deve encontrar as suas soluções. É como a educação dos filhos, se diz eles esquecem, se explicar o outro vai perceber mas se é o outro que encontra a solução aprende, nunca mais se esquece do que aprendeu. Esta é a metodologia utilizada. O mentor tem que colocar as questões, ajudar com ferramentas técnicas de gestão para que a mentee desenvolva o seu conhecimento. E vai orientando e encaminhado para encontrar as soluções.
O que é que o mentor recebe em troca?
Quando perguntamos as razões que os levam a aderir, percebemos que os mentores são genuinamente generosos em dar este conhecimento. Temos homens e mulheres.

Estatisticamente está provado, nos EUA, que é que economia que faz mais estudos sobre este tema, que as mulheres quando são bem-sucedidas no mundo dos negócios revertem parte dos seus resultados, primeiro, para formação individual (elas querem chegar a um nível de excelência e portanto investem em educação) e, segundo, na contribuição para que outras mulheres consigam avançar.

E é isso que o mentoring permite fazer à escala nacional?

O que eles nos dizem é que aprendem imenso. Suponho que não aprendem técnicas de gestão, porque estas já as dominam, mas aprendem técnicas de liderança, de comportamento. E ajuda a colocar os mentores nos sapatos do outro e a compreender melhor as dificuldades dos seus próprios colaboradores, a lidar melhor com as pessoas que estão a crescer dentro das empresas.
A rede Women Win Win tem hoje quantas pessoas ligadas?
Temos mais de 2 mil. Sobretudo em Portugal, mas temos algumas mulheres brasileiras, de Angola, de Cabo Verde, mas 90% são portuguesas.
Qual é o perfil da empreendedora?
A nossa rede tem sobretudo atraído mulheres com formação universitária e que são ambiciosas na hora de empreender. Quando me perguntam se há diferenças entre o perfil empreendedor feminino ou masculino eu respondo que não: as competências que uma pessoa tem que ter são idênticas. Mas há temas que são mais presentes nas mulheres, como a falta de autoconfiança ou ter uma maior aversão ao risco. Mas é algo que está a mudar. O que creio que está por trás são as motivações que levam a mulher a empreender. Estas são diferentes das dos homens.
Quais são?
Há um estudo do U.S. Centre for Work Life que constatou que no mundo laboral a mulher dá mais importância a outros critérios que não sejam apenas a remuneração, como a flexibilidade horária, como ter um superior que as inspire, como estar num ambiente de meritocracia, como trabalhar com valores de honestidade, de transparência e de ética. Há sempre exceções.
Não somos todas boazinhas.
Não, de todo, há de tudo em todas as partes. E no empreendedorismo feminino acaba por haver motivações que não são apenas as do retorno financeiro: a autorealização, conciliação da vida profissional com a vida familiar, ser dona do seu tempo. É por isso que as mulheres fazem mais o chamado lifestyle enterpreneur, aquele que empreende para que a empresa se ajuste ao seu estilo de vida. E como nós mulheres, na Ibéria, carregamos com o peso da educação dos filhos e o tratamento da casa, muito mais do que nos países do norte da Europa, por exemplo, isto faz com que o tempo seja escasso. Quando as mulheres empreendem, empreendem em projetos mais pequenos, que precisam de menor financiamento externo. Este é outro indicador: as mulheres captam menos 60% de financiamento externo do que os homens.
Mesmo com um projeto semelhante?
Aqui há duas faces da mesma moeda. Isto acontece, poderão alguns afirmar que é uma questão de discriminação, mas acontece sobretudo porque as mulheres antes de recorrer a financiamentos externos procura o autofinanciamento e o financiamento de familiares e isso, a priori, condiciona.
Com investimento menor o projeto é necessariamente menor.
Sim, é menor. E tem também a ver com a aversão ao risco. Não sei se está relacionado com o facto de sermos mães.

Maria José Amich

(foto de Gerardo Santos/ Global Imagens)

Há pouco falava-me do peso das tarefas domésticas na vida de uma mulher. Elas são um impedimento à progressão na carreira ou à concretização de bons negócios? Se houvesse mais igualdade em casa havia mais mulheres no topo ou é ao contrário?
Eu acho que ter um companheiro de vida que equilibra tanto nos cuidados com a casa como nos cuidados dos filhos deixa esse espaço que a mulher precisa para evoluir na carreira. Agora, a própria sociedade civil e o setor privado devem também oferecer condições para que a mulher possa assumir a maternidade como um elemento normal e que não tenha que escolher entre ser uma boa profissional ou abraçar a maternidade. Infelizmente não há muitos progressos nesta área. Seria bom que houvesse creches nos locais de trabalho, medidas de flexibilização de horários, mas não é comum. Vamos à Escandinávia e é muito normal que existam apoios nas empresas para que a mulher possa, por exemplo, durante os primeiros meses fazer o aleitamento materno.
Estamos num momento em que, por um lado, há uma insistência para que as empresas e os ciclos de trabalho se tornem mais amigos das famílias, por outro, temos vários exemplos de mulheres que não gozam a totalidade dos direitos adquiridos na maternidade, porque há a responsabilidade de um cargo de direção e há claro, ainda, o medo de perder o lugar por causa da ausência.
A internet ajuda imenso, hoje em dia. É possível estar em casa a cuidar dos filhos e estar ligada à empresa, embora seja óbvio que não funciona sempre assim tão bem. Há preocupações que são prioritárias. Há países e que a licença de paternidade tem de ser 50% da licença parental por nascimento de um bebé. Cá, nem o tempo máximo opcional chega a ser gozado pela grande maioria dos homens.

É preciso mudar a cabeça das pessoas. Este é um direito que a sociedade ainda não vê com bons olhos. Estes são avanços culturais, são avanços sociais, até que não ocorram, será mais difícil.

Os casais devem fazer contas e no fim preferir perder os 500 euros e poucas possibilidades de progressão na carreira das mulheres do que os mil dos homens e os lugares de chefia mais ao alcance, por exemplo, e por isso elas vão sempre encarregar-se mais dos filhos. A igualdade salarial ajudaria a romper com a desigualdade do peso das tarefas domésticas e os dos cuidados com os filhos?
Ajudaria, sim. Obviamente isto é uma decisão de casal e os números falam por si. Eu tenho duas filhas e um filho e eu claramente digo às minhas filhas que elas não desistam de conseguir conciliar, com os seus companheiros, a família e a carreira.

Primeiro que tudo, que escolham bem o companheiro, porque um dos nossos problemas é que se calhar não escolhemos a pessoa certa para um cenário de vida que sabemos já qual é, que queremos ser profissionais.

Há mulheres que não, que preferem deixar o mundo profissional e dedicar-se à família. Mas a igualdade salarial ajudaria a resolver esse problema, ainda mais quando hoje sabemos que as mulheres tem mais formação académica, não só em percentagem mas também em termos de resultados, não é minimamente correto manter as desigualdades. E assim as mulheres continuam, numa decisão de casal, a ser as que sacrificam a carreira. E depois são sacrificadas ad aeternum, porque quando querem regressar ao mercado de trabalho depois de alguns anos a tomarem conta da família, têm muitas mais dificuldades. O empreendedorismo aqui aparece como uma necessidade de encontrar um trabalho.

No próximo dia 24 a Women Win Win vai realizar uma conferência para dar resposta a essas mulheres? O que é que vai acontecer no Empowerment Day?
Apercebemo-nos nos workshops de uma manhã que fizemos nestes dois anos de existência que esses encontros eram importantes não só pelo tema que abordavam como eram importantes para o networking, para desenvolverem relações e contactos. Em média tínhamos 30 a 40 pessoas e notámos que isto não era suficiente. Portanto, foi uma ideia que tivemos para marcar agenda com um evento anual, um evento que tenha uma componente importante em termos formativos mas também sem esquecer duas coisas que são para nós importantíssimas: uma, o espaço de networking – seria importante que as pessoas usassem a ocasião para se apresentarem e se relacionarem, é importantíssimo relacionarem-se, porque das relações e dos contactos saem imensas oportunidades; a segunda muito importante é uma componente inspiracional – para nós é importantíssimo ouvir histórias de sucesso, casos de mulheres que na primeira pessoa nos expliquem como foi o processo para ser tornarem empreendedoras de sucesso e que veem de áreas muito diferentes e transversais da economia: tecnologias, vinhos, biotecnologia.


Saiba mais sobre o Empowerment Day da Women Win Win


 

Carla Macedo