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O que aprendemos das palavras de Marissa Mayer sobre sexismo

Há uma Marissa Mayer em cada mulher bem-sucedida? À custa do próprio sucesso a presidente executiva da Yahoo parecia ter-se esquecido que, na maioria estatística dos casos, as mulheres ganham menos do que os homens na mesma posição, ou que as mulheres demoram mais tempo a atingir as lideranças por questões que lhes são externas acabando por desvalorizar quem luta pela igualdade no local de trabalho. Mas, de repente, o discurso de gestora mudou.

Marissa Mayer era uma das poucas mulheres de topo nas empresas de alta tecnologia da Califórnia a afirmar que não havia questões de género na firma onde trabalhava. Enquanto Sheryl Sandeberg se tornava ativista dos direitos das mulheres e o Facebook ajudava a criar um grupo de apoio para as gestoras de produto lidarem com as frustrações específicas da dicotomia mulher/tecnologias da informação (TI), a presidente da Yahoo afirmava que ser homem ou mulher era irrelevante para o que fazia.

Há pouco mais de um ano, a CEO da Yahoo deu uma entrevista ao jornal Business Insider em que afirmava que o género não era uma questão relevante e as palavras que usou “a partir do momento que se joga esse jogo, passa a ser um assunto”, de alguma forma desvalorizavam o que os números insistiam em mostrar: em Silicone Valley, onde a sede da Yahoo está, bem como os escritórios da maioria das empresas americanas de novas tecnologias, as mulheres auferem salários mais baixos, estão em minoria nos postos de trabalho intermédios e nas lideranças.

A própria Marissa Mayer faz parte dos 4% de presidentes executivos das companhias de tecnologia que são mulheres. Os outros 96% são homens. A própria Marissa Mayer faz parte dos 37% de mulheres da força de trabalho da Yahoo. A Google, onde Marisa Mayer subiu a pulso como gestora até ter saído para administrar a Yahoo, tem ainda menos mulheres como empregadas: são apenas 30%.

AppleMark

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Agora que Marissa Mayer acaba de vender o motor de busca e os negócios associados a um baixo custo – 4,4 mil milhões de euros quando tinha sido valorizada em 104 mil milhões em 2000 – à empresa Verison, falou de uma outra forma nesse aspeto na sua carreira:

“Tentei ignorar as questões de género e acreditar a tecnologia é uma zona neutra mas agora acredito que houve uma carga sexista na forma como se fizeram artigos sobre mim,” disse Marisa Mayer ao Finantial Times.

Nessa entrevista, Mayer reconhece que há questões que se colocam às mulheres, mesmo em altos cargos, que não se colocam jamais aos homens:

“Todos vemos coisas que só afetam as mulheres líderes, como os artigos que se focam na aparência, como a Hillary Clinton fazer desporto com umas novas calças de treino. Creio que todas as mulheres estão conscientes desta questão, mas em 2015 e 2016 eu esperaria ver menos artigos deste género. É uma vergonha.”

Terá sido esse o maior problema que Marisa Mayer teve de enfrentar enquanto mulher e CEO? É que o escrutínio foi bem maior quando em 2015 Mayer deu à luz duas meninas. Se quando foi contratada pela Yahoo, em 2012, anunciou para jubilo da imprensa que estava grávida de cinco meses e esperava um rapaz, quando optou por tirar apenas duas semanas de licença de maternidade na sequência do nascimento das gémeas não faltaram opiniões contraditórias sobre o que se espera das mulheres, o que se espera dos CEOs, que mensagens passa esta opção para outras mulheres, se será um erro para a saúde, um dano para as crianças, ou uma aposta certa no futuro.

Nenhuma destas perguntas foi feita publicamente a um homem. Por exemplo, quando Mark Zuckerberg, o patrão do Facebook, teve a primeira filha, também em 2015, ninguém se perguntou acerca as prioridades do empresário. Ninguém levantou estas questões. Não serão estas razões para nos envergonharmos ainda mais?

Provavelmente o melhor legado de Marissa Mayer nesta alteração de posição face ao sexismo empresarial é que não vale a pena assobiar para o lado. Há ainda questões de género por resolver que vão tocar um dia todas as mulheres, sejam empregadas da limpeza ou CEOs de uma tecnológica de ponta.

Carla Macedo