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Marta Dias: “A Alice Vieira ficou muito abalada quando viu a peça”

Estreou em junho e agora regressa ao palco do Teatro Aberto, em Lisboa, até 29 de outubro, para uma segunda vida e para dar oportunidade àqueles que ainda não viram o espetáculo inspirado na vida e obra da escritora Alice Vieira. ‘Toda a Cidade Ardia’, protagonizado pela atriz Ana Guiomar , tem texto e encenação de Marta Dias, a quem coube dar forma a uma peça a partir dos poemas daquela autora, numa adaptação livre. Em entrevista ao Delas.pt confessa que chegou tarde ao universo de Alice Vieira. Foi há dez anos que se cruzou com ele, fruto de uma escolha literária de João Lourenço, encenador principal daquele teatro e de quem é assistente. Formada em dramaturgia, Marta Dias tem feito o seu percurso pela encenação, assistindo outros ou tomando as rédeas a projetos seus, como este ‘Toda a Cidade Ardia’. Depois desta peça vai começar a ensaiar outra também a partir de outro autor português.

A peça ‘Toda a Cidade Ardia’ está de volta ao Teatro Aberto, até ao final do mês. Por que decidiram voltar à cena?
Tentamos sempre que as peças estejam o máximo de tempo em cena. Evidentemente, que o primeiro motivo é poder rentabilizar o investimento feito. Parece que é contra as decisões dos agentes culturais atualmente mas a nosso ver é estranho que assim não seja noutros sítios. Para além disso, é sempre um prazer podermos estender a carreira e voltar a dar oportunidade às pessoas de assistirem ao espetáculo. É a nossa filosofia de produção. Independentemente do investimento, o espetáculo tem de estar em cena o tempo suficiente para as pessoas o irem ver e recomendar. Porque diga-se o que se disser, o boca a boca é que funciona.

E houve muito esse boca a boca da primeira vez que a peça esteve em cena?
Tivemos, sim. E também tivemos muito uma outra coisa que não foi muito a nosso favor, embora tivéssemos casas muito boas, numa fase que é sempre muito ingrata para o teatro que é quando há imensos festivais de música, há futebol. Há muita concorrência.

E de ar livre.
Exato. Depois está bom tempo, as pessoas vão à praia…Mesmo assim, conseguimos ter boas casas e agora temos a oportunidade para toda a gente que disse: “ah, eu depois vou quando voltar a época da escola”. Sobretudo os professores, estavam a organizar-se para vir agora na reentré, que era o que fazia mais sentido. Por esses motivos todos, de certa forma, já estávamos a prever esta reposição.

O que é que a Alice Vieira achou da peça quando a viu?
Eu estava em pânico porque embora tivesse feito chegar o texto da peça à Alice isso não invalida aquela primeira reação quando se vê no palco. Agora, eu nunca pretendi contar a história da Alice Vieira. Então desapareceu o nome Alice e entrou o nome Ana e tudo foi livremente trabalhado. Das conversas que tive com a Alice Vieira e ela foi sempre muito generosa, na liberdade que me concedeu e nas várias histórias que me foi contando, eu liguei-me mais a coisas que me marcaram a mim, pessoalmente, que eu achei que fazia sentido desenvolver para contar uma história inspirada nela. Apesar de tudo isso, eu senti que a Alice Vieira ficou muito abalada quando viu a peça mas pela positiva. Acho que gostou, pelo menos o abraço que ela me deu foi muito forte.

Alice Vieira e Marta Dias na estreia, a 22 de junho. [Fotografia: Daniel Viana Martins]

Porque realmente apesar dessa adaptação ser livre, há, de facto muitas semelhanças. Nesta peça o que é inteiramente livre, o que é decalcado dos textos?
Se calhar também poderíamos perguntar quanto da Alice Vieira está nos seus livros, misturado. Eu senti que havia certas coisas dessas que eram a Alice e que, de certa forma, também me interessavam a mim. Não era por ser ela. Aquilo que fiz foi uma seleção dos poemas, tanto dos que mais gostava como dos que sentia que tinham uma linha narrativa. Pedi à minha cenógrafa, Marisa Fernandes, para também escolher poemas, sem justificar a escolha, e pedi o mesmo à Ana Guiomar e à Sílvia Filipe, que escolhessem três poemas de cada livro e que não me dissessem o motivo. Fiz uma estrutura narrativa com os poemas e depois fui preenchendo com uma história que eu mais ou menos criei. Como nos filmes, em que enchem a parede de papéis? Eu fiz mais ou menos isso, inspirado, aí sim, na vida da Alice, e depois tomei a liberdade de trocar a ordem das coisas, inserir ou tirar, e depois desenvolver temáticas. Houve muitos personagens que surgiram a propósito de um determinado tema ou situação. Foi muito orgânico e muito trabalhado.

Uma das coisas que a peça foca, através da obra da Alice Vieira, é a condição da mulher ao longo das várias épocas retratadas. A emancipação feminina, as questões da profissão, as expectativas familiares.
Mais do que a situação da mulher como uma questão feminista – isso interessa-me sempre, mas não em si – interessa-me mais dentro do panorama da vida política. A mim choca-me uma mulher há 50 anos ter de pedir autorização ao marido para viajar. Isso para a minha geração em diante é surreal. E acho importante falar sobre isso e muito interessante pôr em palco e em perspetiva essas realidades que me parecem estranhas. E já estavam muito enraizadas e a florir nos livros da Alice, porque é uma mulher. Eu acho que é difícil fugir-se àquilo que nós somos, e, portanto, as temáticas com as quais nos confrontamos no dia-a-dia acabam por vir ao de cima quando escrevemos com o coração. Não é preciso ter uma agenda, é natural. E depois é isso que tem força, quando lemos. E depois, no palco, vejo que para as atrizes também é relevante, mas não é uma coisa consciente.

Por que decidiu fazer uma peça em torno da obra da Alice Vieira?
Já tive oportunidade de lhe dizer [a Alice Vieira], por isso digo isto publicamente, que é: eu consegui passar totalmente ao lado da Alice Vieira no meu percurso escolar e na juventude. Isto é incrível, vendo agora [risos]. Tentei agora compensar, lendo o mais possível. O único livro da Alice que eu tinha em casa antes era o ‘Eu Bem Vi Nascer o Sol’, que é uma coletânea de poemas que não são da Alice Vieira, são coligidos por ela. Portanto, zero! [risos].

E então como é que se deu essa aproximação ao trabalho da escritora?
Aconteceu quando o João Lourenço e eu estávamos a ensaiar uma peça. E, de natureza curiosa, a assistente chega à mesa de ensaio e está um livro chamado ‘Dois Corpos Tombando na Água’, de Alice Vieira. E começo a ler e, ‘que lindo! A Alice Vieira Escreve poemas, não sabia’. Fui comprá-lo e assim fiz com todos.

E isso foi quando?
Isto foi 2007/2008.

Portanto, foi há dez anos.
Há dez anos. Exatamente, vai fazer 10 anos. E nessa altura encenar não era uma realidade. Eu tinha planos de ir tirar o mestrado em dramaturgia – ponderei sempre ser dramaturgista e ir estudar para Londres. Depois nunca cheguei a ir, fui fazendo coisas. Mas encenar não. Depois o João [Lourenço] e a Vera [San Payo de Lemos] desafiaram-me para encenar e tem corrido bem, até agora e espero que continue [ri-se]. O João normalmente tem-me proposto textos para ler e desafia-me, mas eu também proponho. Só que os dele são melhores. Mas aqui foi finalmente aquela oportunidade. Eu queria muito fazer isto já há muito tempo.

Estreou-se na encenação, em 2012, com a peça ‘Pelo Prazer de a Voltar a Ver’. Desde então foram quantas as peças que encenou até agora?
Mais ou menos uma por ano. Esta é a quarta, vamos ver se estreio outra em janeiro do próximo ano. Tenho conseguido, à exceção de um ano, fazer uma peça anualmente, porque quando não estou a encenar sou assistente do João Lourenço ou de outros encenadores. Não sou só uma coisa – acho que hoje em dia ninguém é – e é uma constante aprendizagem.

Fotografia: Paulo Spranger/Global Imagens

O que gosta mais: encenar um texto de um autor consagrado ou juntar em si texto e encenação?
Em qualquer dos trabalhos [texto ou encenação] há sempre um trabalhar o material. O texto primordialmente, é a raiz de todo o trabalho de toda a gente. Na encenação o que acontece é o encenador ou a encenadora tenta guiar, entrelaçar e gerar a criatividade dos outros e dirigi-la numa direção para se fazer aquela peça.

Nos últimos anos vamos vendo mais encenadoras, no país. A que é que isso se deve? Tem notado essa evolução, é mais uma perceção de quem está de fora?
Eu acho que talvez seja de fora, embora ache que é um pouco como em tudo. No trabalho artístico se calhar nunca surgem tantas mulheres mesmo devido às necessidades da vida. Os homens acabam por ter maior liberdade ou mais tempo para isto que é não ter horários ou que é viver para isto. E se calhar ou não chegam tão longe ou depois não têm tanta visibilidade. Mas eu não me sinto preocupada com isso, eu não creio que isso seja realmente um problema. Eu acho que é só uma fase, porque há cada vez mais mulheres. Não sinto que haja falta de espaço. Acho que é mais uma questão de visibilidade, porque sempre houve mulheres a encenar. Se calhar é difícil ter voz. Eu acho que isso é que é grave. Não é tanto o encenarem ou não. É o facto de se ouvir aquilo que elas dizem, de se ir ver aquele espetáculo porque é x ou y. Mas isso são questões muito complexas que também têm a ver com redes de influência ou de amizade e com os percursos que se criam.

Falando em homens e mulheres, qual foi a importância do João Lourenço no seu percurso?
Foi toda, foi enorme. Mas em primeiro lugar, Vera San Payo de Lemos, porque a Vera foi minha professora e aproximei-me dela no final do curso, porque pensei, ‘eu, se calhar quero seguir a profissão desta professora’. Então na reta final ela disse-me que o João Lourenço estava à procura de uma assistente para encenação. E depois fiquei, e fui ficando.

E depois de ‘Toda a Cidade Ardia’, o que é vai encenar?
A seguir a ‘Toda a Cidade Ardia’ sair de cena vou estar a fazer assistência ao João Lourenço e vou estar a ensaiar, a partir de novembro, um espetáculo a partir de um poema de Ruy Belo. Volto aos poemas mas não tem nada a ver com esta peça, nada mesmo. Foi uma coisa que propus fazer num formato mais leve para fazer uma digressão. Eu também queria fazer uma coisa mais simples a seguir a este espetáculo [que está em cena] e são só quatro atores. [O espetáculo] é feito a partir de um poema do Ruy Belo, chamado ‘Um Dia Uma Vida’.

Imagem de destaque: Paulo Spranger