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Masih Alinejad: “Se não se pode criticar o hijab nas repúblicas islâmicas, o protesto sobre a proibição do burkini soa oco”

É iraniana, vive no Reino Unido e completou 40 anos no passado dia 11 de setembro. Esteve recentemente no Parlamento Europeu a falar sobre a proibição do burkini em França, mas é a outras proibições que esta jornalista premiada, que fugiu do seu país há cinco anos, se tem dedicado. Em 2014, Masih Alinejad criou a plataforma online My Stealthy Freedom, um movimento social em rede, com site e página no Facebook, e cujo objetivo é acabar com o uso obrigatório do hijab (véu que as muçulmanas usam para cobrir os cabelos e o pescoço) e dar liberdade de escolha às mulheres, em países como o Irão. Através desse movimento, são denunciadas as leis que obrigam mulheres e meninas a seguir esse código de vestuário, mas também reveladas iniciativas que desafiam essa forma de opressão. Em entrevista ao Delas, Masih Alinejad explica como as mulheres vão resistindo nesse contexto e pede àquelas que detém algum poder, sobretudo político, que usem o seu estatuto e as apoiem.

Por que decidiu criar este movimento social na internet?
Inicialmente não pensei em criar um movimento online. Postei algumas fotos minhas sem o hijab tiradas em Londres e Teerão, e as mulheres no Irão responderam. Foi a resposta das iranianas, que se opõem às leis que obrigam ao uso do hijab, que criou este movimento social na internet.

O ‘My Stealthy Freedom’ defende que o uso do hijab devia ser uma escolha pessoal e tem mostrado, através da sua página do Facebook, vídeos publicados por mulheres que se filmaram a si próprias a tirar o hijab no meio da rua, no Irão. Presumo que seja preciso muita coragem para fazer isso…Não é demasiado arriscado?
As mulheres iranianas conhecem bem os riscos e os perigos, dessas ações. Eu própria fui presa quando vivia no Irão por usar um burkini, só que na altura não se chamava assim. Fui detida por duas horas e proibida de ir à praia. Ou seja, as mulheres conhecem os riscos, afinal, em 2015, 3.6 milhões de mulheres receberam avisos por não estarem totalmente cobertas e outras 40 mil os seus carros apreendidos. O que conseguimos com esta campanha foi tornar as [questões das] mulheres parte da discussão política e não apenas objeto de reflexão.

Os vídeos mostram também as reações dos homens que vão passando por essas mulheres na rua. E são reações muito surpreendentes e positivas, sem insultos ou tentativa de abuso, ao contrário do que muitas vezes é dado a entender, na Europa…
A nossa campanha criou uma divisão real. Muitos homens querem ser associados à liberdade de escolha, à igualdade de direitos, e não querem ser comparados a outros sistemas políticos opressivos. E depois há homens que têm uma visão mais tradicionalista, que acha que as mulheres são propriedade sua, estes homens e o seu machismo levam a uma perspetiva em que as mulheres são consideradas cidadãos de segunda classe. O Irão está a mudar, lentamente mas de forma firme e muitos iranianos querem ser mais como os homens de outros países.

Recentemente, a página do movimento publicou fotografias de homens iranianos a usar hijab como forma de mostrarem o seu apoio às mulheres no país. Que impacto teve este apoio masculino?
A nossa campanha existe para criar consciência em torno da oposição à obrigatoriedade do uso do hijab e as fotos dos homens usando o hijab chamaram a atenção para o facto de as mulheres não estarem sozinhas nesta luta.

Apesar das reações positivas e do apoio dos homens à vossa campanha, o governo continua a reprimir e a endurecer as medidas de repressão às mulheres que transgridam, dando quase plenos poderes para as autoridades as punirem como quiserem. A que tipos de abuso as iranianas estão sujeitas, neste contexto?
As mulheres enfrentam pena de prisão e um máximo de 72 chicotadas se forem detidas sem o hijab. E, claro, a polícia que zela pela moral tenta sempre obrigar as mulheres a usarem-no e obriga-as a andarem totalmente cobertas. E isto é muitas vezes feito de forma extremamente rude e violenta. O governo tenta criar um clima de medo e terror, ameaçando as mulheres com punições severas, assim como com julgamentos negativos por parte da sociedade. Ao mesmo tempo, o governo participa numa campanha negativa massiva para encorajar uma maior obediência às leis que obrigam a usar o hijab, advertindo as mulheres de que elas não alcançarão o paraíso se não andarem com o corpo totalmente coberto ou que sem o lenço a cobrir-lhes a cabeça não se livram dos olhares dos homens e dos comentários sexistas.

E como é que as mulheres, e também os homens, podem combater isso?
Combatendo. Isto é um movimento social pacífico. Temos de mudar não apenas a obrigatoriedade de usar o lenço, o hijab, mas também a cultura que define as mulheres como propriedade e lhes impõe regras patriarcais que mantêm debaixo de um muro de tecido negro. O nosso objetivo é continuar a pressionar, trazer a público essas leis e quão ridículo é forçar as mulheres a taparam-se, contra a sua vontade, em pleno século XXI. As mulheres iranianas são inteligentes e corajosas. Elas cobrem 60% da população universitária, mas por mais talentosas e brilhantes que sejam não podem decidir como se vestem para sair de casa. As mulheres no Irão têm de esconder a sua identidade e fingir que são pessoas diferentes.

Enquanto o Irão força as mulheres a usar o hijab, a França obriga as muçulmanas a não usar burkini nas praias. O que pensa disso? Concorda com essa lei?
Sou contra qualquer lei que force as mulheres a taparem-se ou a despirem-se. Sou pelo direito da mulher poder escolher. Por esse motivo, não posso apoiar a proibição do burkini, em França. No entanto, o burkini é uma interpretação salafista do Islão. Eu não vi burkinis em países muçulmanos. No Irão é banido porque é demasiado revelador. Nos meus 20 anos usei uma vez uma espécie de versão iraniana do burkini, como referi antes (publiquei, inclusivamente, fotos disso recentemente, no meu Instagram) e fui detida, precisamente, por ele ser visto como demasiado revelador. Mas se condenamos a proibição francesa, temos de condenar a obrigatoriedade do hijab. E, muito sinceramente, os políticos ocidentais estão sempre dispostos a ignorar as leis islâmicas que obrigam a usar o hijab, para poderem fazer acordos comerciais. Muitas vezes dizem que essas leis são leis internas e que não podem comentar ou interferir. As mulheres políticas que visitam o Irão também usam o véu obrigatório e argumentam que também têm de obedecer à lei. Isso é uma hipocrisia. Se não se pode criticar o hijab obrigatório nas repúblicas islâmicas, o protesto sobre a proibição do burkini soa oco.

Pensa que a proibição francesa pode ser usada como arma de propaganda nos países islâmicos para reforçar o uso do hijab, do véu e continuar a impor códigos de vestuário às mulheres, convencendo-as de que estão a proteger as suas convicções religiosas enquanto outros, como as autoridades francesas, as atacam?
Até há 20 anos, as mulheres iranianas não eram forçadas a tapar-se, isso é o resultado do controlo dos países islâmicos por elementos extremistas. Em muitos países muçulmanos, a questão do burkini nem se põe porque ninguém o usa, mas a sua proibição permitiu aos extremistas usar isso para denegrir o ideal de liberdade pessoal do Ocidente. Mas como disse, é uma hipocrisia desafiar as leis francesas sem desafiar as leis opressivas dos países muçulmanos, incluindo as repúblicas islâmicas.

Por vezes, vemos as mulheres serem mais conservadoras que os próprios homens no que toca à defesa do uso do hijab, do véu, etc. Isso também acontecerá no Irão, certo?
Se houvesse liberdade de escolha no Irão, muitas mulheres deixariam de usar o hijab e muitas iriam aderir ao seu uso.

Deixou o Irão em 2009. Pode falar-nos um pouco sobre as razões que a levaram a sair e como era a sua vida lá?
Eu era jornalista de política no Irão e ganhei reputação falando sobre a corrupção no parlamento. Durante as eleições de 2009, que foram roubadas por Ahmadinejad, fui avisada de que iria ser presa e fui forçada a deixar o país.

Como é que uma mulher muçulmana que vive num país ocidental lida com a islamofobia crescente e ao mesmo tempo com a luta pelos direitos das mulheres nos seus países de origem, sendo que estes são muitas vezes utilizados como argumento para fundamentar o sentimento islamofóbico?
Costumo dizer que venho de uma família tradicional de agricultores do norte do Irão, uma família de muçulmanos devotos. A minha e as minhas irmãs, aliás todas as mulheres da minha família usam hijab. Estou muito familiarizada com o Islão e não sou contra ele. É a República Islâmica que é contra as mulheres. A islamofobia não apareceu do nada, se os líderes islâmicos parassem a discriminação contra as mulheres e condenassem a brutalidade e opressão das suas leis isso acabaria com a islamofobia. Não digo que a islamofobia não é real, mas as muçulmanas enfrentam desafios maiores que esse.

Uma outra campanha em que o My Stealthy Freedom tem estado a trabalhar é no envolvimento das mulheres políticas, no sentido de usarem o seu poder para falar da falta de direitos das mulheres no Irão. Como está a correr?
Essa campanha é um projeto em contínuo, porque algumas estão mais disponíveis para desafiar as leis do que outras.

Que outras campanhas pretendem lançar no futuro?
Temos uma série de projetos diferentes na cabeça e iremos revelá-los na altura certa!

Ana Tomás