Agora mesmo, nos céus do Porto

Mélanie Astles é a primeira mulher a pilotar um avião na Red Bull Air Race World Championship, que neste fim de semana regressa aos céus do Porto. E a sua história é uma belíssima sucessão de improbabilidades.

Tem 34 anos, está pela segunda vez a concorrer na Red Bull Air Race e uma boa classificação, hoje, no Porto pode garantir-lhe lugar na final de Indianápolis – e a subida de escalão na próxima época. Esta é Mélanie Astles, cinco vezes campeã francesa de voos acrobáticos e primeira mulher a voar na corrida das corridas. Uma entrevista por e-mail não costuma ser suficiente para perceber o tom emocional das respostas. E no entanto Mélanie não consegue disfarçar o entusiasmo. Tudo o que parecia impossível tornou-se realidade.

Há um momento exato da sua vida em que decide ser piloto ou foi um daqueles sonhos de infância que se mantiveram consistentes?

Eu tinha uma paixão realmente grande por aviões de combate quando era pequena. Colecionava posters e cromos desses aviões, enquanto as outras meninas brincavam com bonecas. Na verdade, era apaixonadíssima por tudo o que fosse rápido e poderoso. Mas como fui criada em circunstâncias bastante modestas, e como nessa altura não havia mulheres pilotos, não angariei grande interesse ou apoio junto dos adultos que me rodeavam. Ainda assim, o meu sonho de me tornar piloto era bem forte e fui perseverante. Acabei por conseguir.

E hoje é a primeira mulher a disputar a Red Bull Air Race, que é muitas vezes apontada como a principal competição de voos acrobáticos do mundo. Imaginava chegar aqui?

Sinto um orgulho tremendo em ser um Challenger Pilot [a segunda categoria da competição, em que um piloto com bons resultados durante a época pode subir à categoria Master] na Red Bull Air Race, como aliás todos os outros que chegaram aqui. Claro que esse orgulho é redobrado por ser a primeira mulher a alguma vez competir a este nível. Mas a Red Bull Air Race tem uma atmosfera muito particular para mim, Os pilotos e o staff são de nacionalidades diferentes e sinto que somos todos uma espécie de família. Sinto-me bem tratada e bem aceite como piloto. E talvez um pouco mimada por ser mulher, o que está longe de ser desagradável.

Ser a única mulher convoca mais atenção?

Como sou a única mulher o público e os meios de comunicação social reparam mais em mim. Isso pode trazer de facto algum stress adicional, mas por outro lado é fantástico sentir que tenho todo este apoio.

Mas não há de ser fácil entrar num clube de rapazes. Deixe-me fazer-lhe a pergunta assim: admira mais as mulheres pilotos?

Acho que admiro todos os pilotos porque é um investimento total de vida competir com um avião, um carro ou uma moto. Sejam homens ou mulheres, todos estamos a investir muito nas nossas paixões. Por isso, desde que sejam dedicados, trabalhem duro e deem o seu melhor, são exemplos a seguir para mim. Admiro vários pilotos, homens e mulheres, mas é uma lista demasiado extensa para estar aqui a recitá-la.

No seu caso foi particularmente difícil tornar-se piloto. Teve de trabalhar numa estação de serviço muitos anos até juntar dinheiro para fazer o curso, verdade? Mas, lá está, andou sempre perto das máquinas.

Trabalhei numa estação de serviço durante sete anos. Foi na verdade um prazer para mim trabalhar com carros, motos, etc. Como queria aprender alguma coisa sobre mecânica achei que não era mal pensado ir trabalhar para uma oficina. Era muitas vezes engraçado ver as reações surpreendidas dos clientes quando viam esta miúda de 19 anos mudar-lhes um pneu ou arranjar-lhes a caixa de mudanças. Mas foi importante para adquirir conhecimento na área da mecânica. Hoje vejo essa experiência como mais um passo na direção de concretizar os meus sonhos de infância.

Conhece o Porto? Vai conseguir conhecer o Porto vendo-o lá de cima e concentrada em fazer manobras?

Estive no Porto há muito, muito tempo, penso que devia ter 18 anos na altura. Tinha acabado de tirar a carta de condução. Eu e a minha melhor amiga, que por acaso é portuguesa, guiámos do Mónaco até ao Porto. Vimos lugares lindíssimos, conhecemos pessoas simpatiquíssimas, comemos maravilhosamente bem e toda a gente tomou bem conta de nós. Lembro-me disso, que tinha um ambiente fantástico. E agora é um enorme prazer para mim voltar ao Porto. Não apenas por ser um lugar de que gosto, mas por poder também voar ali. Pelos vídeos que vi das edições anteriores os portuenses são verdadeiramente entusiastas da Red Bull Air Race. No Porto vou ter sucesso, tenho a certeza.

Uma Ás pelos ares

Mélanie Astles é a primeira mulher a competir na Red Bull Air Race e foi cinco vezes campeã de França em acrobacia aérea. A partir dos 18 anos tornou-se gerente de vários postos de combustível e economizou dinheiro para as aulas de voo. No aeródromo onde tirou o curso, os instrutores permitiram que trabalhasse em troca de aulas, que começou a ter aos 21 anos. No primeiro ano de competição acrobática, em 2007, venceu a Taça de França na categoria Espoir (Esperança). Em 2015 foi considerada a quinta melhor piloto do sexo feminino no mundo na categoria de topo. Voa num Extra 330LX.