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Miguel Telles da Gama, artista de ofício, responde a provocações

O hotel Tivoli Lisboa recebe a partir de hoje e até 30 de maio duas exposições do artista plástico Miguel Telles da Gama, ou melhor, dois conjuntos artísticos que perfazem agora uma única exposição. A série de pinturas apresentadas parte de dois projetos recentes de Miguel Telles da Gama: ‘Azul Profundo’ exposição apresentada em dezembro de 2014 na Casa Museu Medeiros e Almeida e ‘Vuoto’ que aconteceu na Sala do Veado em 2012. O artista de 52 anos, responde às pequenas provocações do delas.pt.

Talento ou trabalho?

O talento com certeza que existe, mas é um bocadinho como a inspiração. Sem trabalho não há talento. Desde sempre, desde 1988, que sou pintor, nunca fiz outra coisa.

Esta exposição que apresenta é uma ou duas?

Vou apresentar um conjunto de 14 obras, sendo que seis fazem parte de uma exposição e oito de outra.

Queria expor arte num restaurante de hotel?

Venho a convite. A programação deste espaço tem sido boa. Se o Calapez expôs, se o Valdez expôs, se a Inês Teixeira expôs, se o Calçada Bastos expôs, porque é que eu não vou expor? E aceitei logo.

Podia ser complicado expor num espaço não dedicado à Arte em exclusivo.

Há uns anos atrás era quase incapaz de aceitar este projeto. Estava demasiado ocupado com programação de galeria. Eu tive um contrato de exclusividade com a Galeria 111.

Mas faz ou não diferença expor num restaurante?

Não sou uma pessoa que se preocupe muito com pormenores de carreira. Eu quero viver razoavelmente bem mas… Sou um artista de ofício, não tenho a pretensão de ser artista. Eu tenho um ofício, eu sou pintor.

Há menor importância numa exposição como esta?

Há uma coisa importantíssima. Assim que aceitei o convite eu quis ter a maior das dignidades a fazer este trabalho. Um escritor de romance, um bom escritor, mesmo a escreve rum telegrama tem que ter brio. Independentemente do espaço, se há uma programação, se tem a dignidade de receber durante dois meses obras de arte há que fazer as coisas como deve ser. Não estou expectante como se fosse na Gulbenkian ou no Moma de Nova Iorque, agora, há que ter brio.

Arte em hotéis, como no passado?

Era muito mais bonito, como se fez tantos anos, os hotéis convidaram o Almada, em Nova Iorque o Marc Rothko, é mais interessante porque é uma obra definitiva para aquele espaço. É mais interessante. Eu gostaria de ter tempo para fazer obras especificamente para aqui, para cada espaço. Mas também não tive.

Como está organizada a exposição?

A dos seis quadros chama-se ‘Azul Profundo’ eram 25 trabalhos que estavam pensados para a Casa Medeiros e Almeida. São trabalhos com uma metodologia muito própria minha. Estas gelatinas são usadas em cinema e eu estou a utilizar para o meu métier. As oito peças são parte de uma grande mural de 18 metros, dentro das mesmas regras materiais.

Que mensagens estão nestes quadros?

O que é que quer dizer? Não sei. Isto não é óbvio. Há sempre um lado escondido na minha pintura. Tu vês uma mancha e procuras algo dentro da mancha. Mesmo na minha obra mais figurativa, também está escondido. O mais importante de tudo é não querer dizer. Não gosto das coisas óbvias. A minha própria vida não é óbvia.

Carla Macedo