Monique Jaques: “Em Gaza as raparigas não se limitam a ficar sentadas e a ser espetadoras”

Enquanto observa a montagem da sua exposição de fotografia, em frente aos Pavilhões da FIL, no Parque das Nações, em Lisboa, Monique Jaques confessa-nos o entusiasmo pelo facto de a exposição que traz a Lisboa ser a primeira que mostra num espaço público, ao ar livre e de entrada gratuita. É também a primeira vez que as imagens de ‘Raparigas de Gaza’ – projeto que a fotógrafa americana, de 33 anos, a residir em Istambul, iniciou em 2012 e que demorou cinco anos a concluir – são exibidas em cubos.

Tal como o formato escolhido para as apresentar, as obras em exposição na Alameda dos Oceanos, a partir desta sexta-feira, 6 de abril, são tudo menos tradicionais e unidimensionais. ‘Raparigas de Gaza’ mostra como as jovens mulheres crescem naquela zona exígua e conflituosa do globo, como conseguem perseguir os seus sonhos e as suas próprias vidas. Por isso, nas suas fotografias é possível ver raparigas palestinianas a praticarem surf ao lado de outras que usam abayas e véu, raparigas em cerimónias de formação académica e outras a jogar futebol. “As mulheres em Gaza [na Palestina] também são como as mulheres na Turquia ou até em Portugal. Se lhes perguntarmos quais são os seus sonhos, são muito semelhantes aos nossos”, conta ao Delas.pt. A exposição ‘Raparigas de Gaza’ insere-se nas comemorações do 25 de Abril, promovidas pela EGEAC, e está patente ao público até dia 30 deste mês.

 

O que procurou retratar com esta exposição?
A primeira vez que fui a Gaza – quando comecei a fazer trabalhos lá – notei que as imagens que saiam eram muito semelhantes, muito focadas em duas coisas: violência, claro, porque essa é a situação em Gaza, e serem todas de homens. Todas as imagens que vi eram de homens e as poucas que apareciam de mulheres eram apenas das que usavam o corpo todo coberto por abayas. E eu olhava à volta e pensava: ‘não é isso que se passa aqui’. Isso acontecia porque a história estava ser contada do ponto de vista dos homens e isso não correspondia à situação real. Uma amiga minha que era de Gaza disse-me que eu estava certa e que devia ficar depois de o conflito terminar, que ela me mostraria como Gaza realmente era. E eu fiquei e foi de certa forma por aí que dei início a este projeto, porque veem-se mulheres de abayas, mulheres que usam véu, mas também mulheres que praticam natação, que fazem todo o tipo de coisas. Portanto, senti que havia uma discrepância na narrativa em relação a esse lugar, mesmo a nível internacional. Quis mostrar que este é um lugar multidimensional, com camadas diferentes e essas camadas, sim, são muito complicadas e andam em paralelo. Não estou a dizer que não há violência em Gaza, o que digo é que há outras coisas a acontecer e o meu trabalho centra-se nelas.

Quando é que começou a desenvolver este trabalho?
Foi em 2012, houve um grande conflito esse ano e fui para lá para fazer a cobertura, como jornalista. Fiz esse trabalho e depois fiquei algum tempo.

Mas estes registos fotográficos começaram exatamente quando, e durante quanto tempo levou a reuni-los?
Bom, foi desde 2012, portanto foram cinco anos de trabalho. Voltei regularmente a Gaza ao longo desses anos, fui conhecendo mais gente, tirando mais fotografias e este projeto foi o culminar disso tudo.

O que é que a surpreendeu mais enquanto neste trabalho sobre as Raparigas de Gaza?
É difícil dizer se fiquei surpreendida porque deixe-me absorver por tudo, estava recetiva a tudo. Tal como as outras pessoas que não são de Gaza, eu tinha esta ideia pré-formada sobre o que ia encontrar e essa ideia não correspondia à realidade. Claro que é um sítio confinado e que está isolado, mas, é como noutros lugares. As mulheres em Gaza também são como as mulheres na Turquia ou até em Portugal. Se lhes perguntarmos quais são os seus sonhos, são muito semelhantes aos nossos: querem viajar, conhecer pessoas, casar com quem quiserem, fazer todas essas coisas. É uma história muito universal.

“É incrível conhecer as histórias das mulheres em África que estão a construir coisas ou das raparigas em Gaza que fazem surf”, diz Monique.

Mas como é que elas vivem? Porque como referiu, e sabemos, o espaço em Gaza é exíguo e a zona é fechada.
O que acontece muito em Gaza, com as famílias, é que, um edifício inteiro é ocupado pela mesma família (pais, filhos), o que pode ser bom para o círculo familiar, sobretudo quando há crianças, mas quando se é uma adolescente e se está a tentar perceber quem se é, é muito difícil ter espaço para se ter segredos e se permitir ter sonhos porque há sempre alguém a ver onde vão, o que estão a fazer e com quem estão. Isso é o que faz de Gaza um sítio particular, porque é um lugar pequeno e compacto e torna muito difícil escapar e tentar ser outra coisa ou tentar alguma fazer algo novo, porque se passou a vida toda com as mesmas pessoas. É difícil, mas ao mesmo tempo as mulheres acabam por encontrar uma maneira de ter as suas vidas. Muitas raparigas contaram-me que tinham um namorado secreto, por exemplo. Ou seja, elas encontram certas formas de terem a sua própria vida apesar de todas aquelas circunstâncias.

A imagem mental que temos das raparigas de Gaza, e palestinianas, provavelmente foi quebrada pela imagem de Ahed Tamimi, a jovem de cabelos loiros encaracolados e soltos, que se veste como as jovens europeias, entretanto detida pelas autoridades israelitas há quatro meses por ter dado uma bofetada a um soldado.
Sim, as mulheres em Gaza também têm olhos azuis e cabelos loiros. A questão é que vimos tão pouco deste lugar, que a nossa visão é muito estreita a ponto de acharmos que elas têm de ser todas as iguais. Mas ela não representa apenas uma jovem palestiniana que tem uma aparência diferente, ela teve um alto nível de educação, é uma ativista, é determinada e tem as suas próprias opiniões. Isso também é algo que existe em Gaza, as raparigas não se limitam a ficar sentadas e a ser espetadoras. Elas protestam. Aliás, tem havido protestos e há um grande marcado para esta sexta-feira, e eu estava a ler um artigo que contava a história de uma rapariga que foi ao último protesto com a mãe…

Mas, mais uma vez, as imagens que vimos dos últimos protestos só mostravam rapazes e homens.
Sim, creio que o que acontece é que são os homens que acabam por estar na linha da frente, que é também a mais perigosa, mas talvez a uns 500 metros atrás a manifestação é pacífica, as pessoas partilham história, partilham comida e penso que muitas mulheres marcam presença aí. Mas é difícil mostrar porque eu não estou lá, não estão lá fotógrafas. Infelizmente, em Gaza, os repórteres de imagem são todos homens e eles só fotografam homens e assim só se conhece metade da história.

Foi por isso que se interessou em revelar o lado feminino, não só em Gaza, mas também noutras regiões do globo.
Sim! Estamos a perder tanto e tanta coisa sobre o contexto destes lugares, porque muitas destas sociedades, não tanto no Médio Oriente, mas em África são geridas por mulheres. São as mulheres que cultivam os terrenos, enquanto os homens passam o dia a dormir e a beber. E temos perdido muito esse lado das histórias.

“As mulheres em Gaza também são como as mulheres na Turquia ou até em Portugal. Se lhes perguntarmos quais são os seus sonhos, são muito semelhantes aos nossos.”

Fotografa realidades e contextos muito diferentes, desde conflitos e revoluções a eventos de moda islâmica na Turquia, por exemplo, as primeiras mulheres guardas florestais do Parque Nacional de Virunga, no Congo. São de facto histórias muito diferente de zonas do globo sobre as quais temos muitas ideias pré concebidas.
Penso que muito do meu trabalho se concentra em tentar mudar a narrativa dominante em relação a certos países. Todas estas mulheres são muito fortes, independentes e lutam por aquilo que querem de forma determinada até o conseguirem. Em Istambul, por exemplo, elas dizem-nos que a moda islâmica não tem de ser toda em preto. E não é. A mensagem que essas mulheres dão é que se podem expressar a sua criatividade de diversas formas, nos lenços, mas também nas joias, nas roupas. Eu posso usar perfeitamente essas peças. Não há um “nós” e um “eles”. Podemos existir entre essas duas dimensões. Nem tudo é preto e branco. Existe aquela zona cinzenta onde provavelmente seria melhor a sociedade viver, é melhor pensarmos nas coisas de forma mais fluida. Além disso, acho que a história daquelas mulheres é inspiradora. É incrível conhecer as histórias das mulheres em África que estão a construir coisas ou das raparigas em Gaza que fazem surf.

Fotografou também a Primavera Árabe em diferentes países. E também nesses momentos procurou trazer para esse registo fotográfico as mulheres. Foi uma forma de mostrar que as mulheres também fizeram estas revoluções?
Tinha sempre isso em mente, não apenas por eu própria ser mulher, e especialmente no Médio Oriente é mais fácil aceder às mulheres do que aos homens e também sou mais bem aceite por elas. Mas também porque queria ter mulheres que não eram representadas e cujas histórias também precisavam de ser contadas.

E qual foi o papel das mulheres nesses momentos revolucionários?
As mulheres têm sempre um papel importante, mesmo que seja a fazerem a comida ou a tratar dos feridos. São coisas que são importantes neste tipo de movimentos mas que são frequentemente ignoradas.

Voltando a Gaza a esta exposição, quantas imagens trouxe para a exposição em Lisboa?
Acho que são 20 ou 21, e são parte de um livro que reúne 65 imagens. Portanto, trouxe um terço do que está nesse livro. No total, foram milhares as fotografias que tirei.

Quais são as suas expectativas como artista em relação à recetividade do público português?
Estou muito entusiasmada. Sei que a zona [Parque das Nações] é muito visitada, sobretudo aos fins de semana e estou muito contente por haver essa possibilidade de ter tanta gente a ver este trabalho e de essas pessoas poderem a partir dele pensarem na forma como olham para o Médio Oriente, talvez abrirem um pouco as suas perspetivas e usarem essa abertura para outros, como por exemplo, para os muçulmanos em Portugal.

Veja na galeria, em cima, imagens da montagem da exposição e das fotografias que fazem parte da mostra.

Fotografias da montagem da exposição: Álvaro Isidoro/Global Imagens