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Morreu Maria Isabel Barreno, voz ativa na defesa dos direitos das mulheres

A escritora, investigadora e jornalista portuguesa Maria Isabel Barreno morreu ontem aos 77 anos. Novas Cartas Portuguesas, de 1972, é a sua obra literária mais famosa, escrita em co-autoria com Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. Banida pelo Estado Novo pelo seu alegado teor pornográfico, a obra desencadeou um processo judicial que ficou conhecido como o “Caso das Três Marias”.

Acompanhado pela imprensa portuguesa e internacional, o julgamento durou dois anos e só conheceu o seu desfecho em 1974, já depois da Revolução de Abril – acontecimento que Maria Isabel Barreno definiu como o mais importante da sua vida. As três escritoras foram absolvidas e consideradas as grandes vozes dos direitos femininos em Portugal.

Numa mensagem de condolências, enviada à família da escritora e publicada na página oficial da Presidência da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa sustentou que a obra de Maria Isabel Barreno foi “muito além” da co-autoria das Novas Cartas Portuguesas. Também o Ministro da Cultura fez questão de salientar a voz singular de Maria Isabel Barreno na luta pela igualdade de direitos entre os homens e as mulheres. “A riqueza do seu pensamento e o rigor dos seus princípios em muito contribuíram para termos hoje uma sociedade mais justa, livre e igualitária”, afirmou Luís Filipe Castro Mendes, numa nota de pesar.

Nascida em Lisboa, a 10 de julho de 1939, no seio de um regime opressor, Maria Isabel Barreno cedo começou a escrever. Dos poemas, que nunca chegaram a ser publicados, passou para os romances. De Noite As Árvores São Negras foi o primeiro, publicado em 1968. Nesse mesmo ano foi co-autora do volume A Condição da Mulher Portuguesa. Além de Novas Cartas Portuguesas destacam-se A Morte da Mãe, publicado em 1979, e Vozes do Vento, publicado em 2009 após uma pausa de 15 anos na escrita.

Licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Maria Isabel Barreno escreveu mais de 20 títulos, entre artigos sociológicos, romances e contos, e foi por várias vezes distinguida. Com Crónica do Tempo, de 1991, recebeu o Prémio Fernando Namora. Dois anos depois, o seu livro de contos Os Senso Incomuns valeu-lhe os prémios Camilo Castelo Branco e Pen Club Português de Ficção. Em 2004, foi condecorada com o Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Com uma vida dedicada à escrita, Maria Isabel Barreno chegou a passar pela redação já extinta Marie Claire portuguesa. Trabalhou no Instituto Nacional de Investigação Industrial e foi Conselheira Cultural para o Ensino do Português em França.

Maria Isabel Barreno será hoje cremada no cemitério dos Olivais, em Lisboa, pelas 17h.

Imagem de destaque: Arquivo/Global Imagens

 

Cátia Pereira Matos