Subir

Não existe discriminação grande ou pequena. Existe discriminação e é para combater

Vai por aí uma grande confusão sobre esta história do já chamado, com graça, Happy Meal Gate. Quando eu ia arrumar o assunto na gaveta das coisas passadas, aparece-me este texto do jornalista Pedro Ivo de Carvalho (PIC), que me deixa mesmo triste.
Fico triste porque ele começa por explicar as razões que o levam a discordar da questão da discriminação e entra numa escalada de ridicularização às pessoas que consideram legítima e aceitável que se deixe de dividir os brinquedos por “de menina” ou “de menino” – pessoas como eu – que me chateia.
Apesar de já ter dito sou uma dessas maluquinhas que consideram um avanço esta coisa de não se rotularem os brinquedos como sendo de menina ou de menino, na verdade, não só não acho que seja maluca (estava a ser irónica) como sou uma pessoa que até investe bastante tempo a entender estas questões e, precisamente, a diferença que fazem medidas simples como estas e outras, tão básicas como elogiar as competências intelectuais das raparigas em vez de elogiar apenas os seus atributos físicos. Podem ser giras, claro, e também se devem importar com isso, mas é bom que sejam reconhecidas por serem fortes, corajosas e outras características que, como se lê no tal inquérito que acompanhava a promoção do McDonald’s, são adjudicadas aos rapazes, logo discriminatórias. Criatividade e culinária vs. trabalho de equipa e força?
Quando leio PIC dizer que é um inquérito “a que provavelmente nenhum miúdo responde”, então… Está a brincar à contra-argumentação? Acha que se pode dizer o que quer que seja porque “provavelmente ninguém responde…”. Estou a rebolar os olhos…
Parte do problema é este: não se trata de ter os brinquedos todos os iguais, não se trata de querer que todos os rapazes brinquem com Kittys e as miúdas com transformers. Tal como não se trata de um dia deixarmos de ter roupa de homem ou de mulher, porque efetivamente existe um corpo de mulher e um corpo de homem, embora nada nos impeça de irmos a essa secção e nos vestimos dos pés à cabeça com roupa do outro género.
O que acontecia no McDonald’s é que começaram a dizer “menino ou menina?” e, tal como eu, muitas pessoas devem ter começado a perguntar de seguida: “o que está em cada um?”. Raramente vou ao Mac mas numa das vezes disse realmente ao senhor que por menino ou menina não ia lá porque uma das crianças dispensava bonequinhas. Era muito mais simples perguntar apenas: carro ou boneca? E a seguir cada um escolhe.
Mas se isto tinha maneira simples de resolver, mais difícil é escolher através daqueles (novos) ecrãs táteis. A opção é apenas Happy Meal de menina ou de menino. Ora, a questão não é isto ser um ataque ao género de cada um. É NÃO saber exatamente o que lá está dentro que faz a discriminação.
A minha outra tristeza com este tema é esta: “vamos guardar a discriminação para os casos graves”. Realmente, também não acho que isto seja um caso de lesa-pátria. No entanto, quem sou eu e quem é qualquer uma das pessoas do mundo para dizer o que é uma discriminação grave? Onde é que está a lista de critérios de gravidade da discriminação? Não me falem do Chris Rock nos Oscars. Lá porque o Chris Rock diz não quer dizer que seja lei. Depois porque nem sequer concordo com o que ele disse, não concordei logo na altura. “Nos anos 60 as pessoas tinham assuntos mais importantes”, disse ele. Sim, e no século XIX eram escravas. E no XVIII eram capturadas por tribos africanas, entregues a portugueses e levadas em barcos imundos para outro continente, agrilhoadas. Que teria sido da Humanidade se nos anos 60 tivessem dito à Rosa Parks “minha senhora, os seus antepassados eram escravos, guarde a sua indignação para as coisas importantes, agora vir aqui chatear porque vai lá atrás na carreira. Tem lugar, já é bem bom”. Ou, antes disso, “meu senhor, queixa-se de ser escravo e trabalhar de sol a sol? Os seus primos estão em Angola a fazer o mesmo e as suas casas nem paredes têm”. Tudo é muito relativo.
Neste caso boicotar os Oscars era inútil porque eles se fariam na mesma (disse-o o próprio Chris Rock), e foi vexatório para quem, como Will Smith, tem o direito de querer lá estar e considera que existe discriminação. Mas isso aconteceu pelo instrumento usado para criticar, não porque ele não tenha razão. Tal como o próprio Chris Rock reconheceu, o que se pede são oportunidades iguais. Porque elas não existem.
A mesma coisa com o Happy Meal. Não é o fim do mundo, mas é um passo. Ao atribuirmos valores de género às coisas contribuímos para o perpetuar a ideia de que existem atos, profissões e emoções de mulher ou de homem. O que, como sabemos, não é verdade.

Lina Santos, jornalista do Diário de Notícias