“Não sei como uma mulher pode votar em Trump”, diz Michael Cunningham

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Michael Cunningham [Fotografia: Orlando Almeida / Global Imagens]

Em entrevista, o romancista fala do monstro na cave, na Inteligência Artificial, na proibição dos livros e o que pretende fazer se Trump for reeleito presidente dos Estados Unidos da América.

O romance ‘Dia’ centra-se no dia 5 de abril? O que se passou de específico nesse dia?

Escolhi abril porque foi o mês mesmo a meio da pandemia, foi quando, nos Estados Unidos da América, estava tudo muito forte. Depois, gosto do número cinco. Num romance, há aspetos que são intencionais e outros arbitrários, e este é um destes.

Mas não é arbitrário escrever sobre uma pandemia sem nunca referir o nome dela.

Não, não é. Quando damos nomes e significados a coisas ou a alguém, elas parecem tornar-se mais trabalháveis. Por isso, prefiro referir-me ao do que nunca se fala, que parece ser do submundo. Num filme de horror, o facto de existir qualquer algo escondido na cave torna-o mais assustador do que quando sobe as escadas. Queria a ideia do monstro, dar mais ênfase ao medo, à dúvida. Também imaginei que nunca ninguém que fosse ler o livro não saberia de que se tratava da pandemia.

Que tipo de monstros acha que saíram da cave das pessoas em geral?

O monstro na cave ajudou Dan e Isabel [personagens de ‘Dia’] a entenderem o casamento, que acho que foi uma coisa que aconteceu frequentemente durante a confinamento. As pessoas estavam bem, mas também não tão bem. A pandemia trouxe a ideia das relações ‘ok’, o monstro da cave obrigou as pessoas a estarem tempo suficiente fechadas para descobrirem que as relações podiam prosseguir ou tinham de ser terminadas.

E a si, Michael, o que pandemia lhe trouxe? O que reconsiderou?

Para mim, estava confinado em casa com o meu marido, e ficámos bem. Foi melhor estar com ele do que sozinho. E, tenho de dizer, acho que o monstro da Covid-19 na cave pesou na questão da idade, da mortalidade e da ideia do fim. Não saberíamos se o mundo iria sobreviver, e isso era uma má notícia.

O mundo sobreviveu, ficámos melhor ou pior como pessoas?

Diria que sim e… sim. O mundo inteiro ficou mais extrema-direita, que não existia há dez anos. Não sei se está relacionado com o Covid-19, mas não posso deixar de notar que o mundo mudou. Por outro lado, como civilização, também demonstrou como conseguimos sobreviver todos juntos, estivemos lá uns para os outros, o que não é uma má notícia.

Estava a escrever outro livro quando decidiu abordar a pandemia. Porque o fez?

Não podemos ignorar a realidade.

E a realidade das eleições dos EUA e a condenação de Trump também pode vir a ser trabalhada?

Pois, tivemos notícias. Trump foi condenado por 34 crimes. Não me lembro de quantas vezes pensei que ela estava mesmo tramado, e afinal não estava. Ele voltava sempre, tipo zombie. Era ferido nas costas, atacado, parecia que estava morto, mas depois voltava à vida. A violação das mulheres, ao escândalo de Ucrânia, da Georgia,…

E agora?

Penso que é cedo para dizer. Nada na Constituição norte-americana impede que ele possa ser presidente e estar preso. Ambas coisas podem acontecer, não há nada que proíba.

O advogado afirmou que vai recorrer.

Sim, vai. E a melhor hipótese de sucesso dele é realmente a levar a acusação reduzir as medidas, o que pode acontecer.

Crê que a maneira como os americanos olham para Trump vai mudar?

Pois, creio que é o mistério dos eleitores americanos que votaram nele numa primeira vez. Não sei como uma mulher poderá votar nele, ele que foi condenado por agressão sexual e difamação [no caso interposto pela ex-colunista E. Jean Carroll]. Pura e simplesmente não sei. Não sei! Não sei quem são essas pessoas.

Escreveria sobre isso? A realidade das eleições americanas?

Só posso escrever sobre realidades que conheço, acho que não saberia o suficiente ou sobre as mulheres que votam em Nova Iorque. Não presumia escrever sobre uma mulher que vive no MidWest dos EUA. Então, seria apenas um autor com alguma espécie de teoria sobre como seria uma mulher dessas, e isso não chega.

Esteve em Portugal numa residência artística. Vai repetir a experiência, tem planos para estar cá mais vezes?

Desta vez estou aqui apenas por uns dias para lançar o livro.

Mas conta voltar nos mesmos moldes?

Adoraria.

Considera mudar-se para aqui?

(risos) Muitos de nós na América pensam mudar-se para outros países.

Considera essa possibilidade também?

Considerarei, possivelmente com algo que tenha a ver com as próximas eleições presidenciais [em novembro de 2024 e cujos principais oponentes são, de momento, o atual presidente Joe Biden e o ex-Donald Trump].

Está a pensar deixar os EUA se…

… se Trump for eleito, [pausa] muitos de nós pensam sobre isso de forma muito mais séria: provavelmente, é tempo de deixar este país. Se é algo que os meus amigos na América têm vindo a falar há já muito tempo. Eles sentem-se tão oprimidos aqui. Livros proibidos, sabe… A segunda presidência Trump, direitos humanos e LGBT+, direitos dos negros, sim.[Pausa] Sim!

Sente-se ameaçado com o movimento da proibição dos livros. Como escritor, como a entende?

Sim, em todos os sentidos. Não apenas como escritor, mas como leitor também. Acredito que toda a gente no país se deveria sentir ameaçado. Não há outro lado para os livros proibidos.

Falamos de mais de seis mil livros proibidos desde 2021, um aumento de 33% em apenas um ano (2023).

Na verdade, tudo começou com os pais que não queriam que os seus filhos fossem levados a ler livros queer ou trans, partiu daí e depois escalou. Começa sempre com qualquer coisa que até pode parecer vagamente razoável como ‘eu, como pai, tenho o direito de não querer que os meus filhos leiam este livro’ e depois escala. Está a crescer. Começa com o desejo dos pais e acaba no ódio dos americanos ao outro.

Como resolver?

Quem me dera saber. Creio que pela resistência. Há uma loja que apenas vende livros proibidos, podemos fazer isso. A verdade é que ajuda a manter a questão viva, a sabermos o que se está a passar. Nos EUA, há muitos níveis de decisão politica: o governo deferal não aprovou a proibição federal de livros, mas o condado pode.

Como escritor e como professor, de que maneira tal interfere no trabalho?

Não muda nada, e no momento em que se pense dessa maneira, está-se na estrada para o inferno. Não se pode escrever a pensar ‘espero que não seja banido’. Estou banido na Rússia, e sinto-me algo orgulhoso por isso.

Temos a extrema direita a crescer um pouco por todo o mundo, o politicamente correto. Como entende estes caminhos como escritor? São ameaças ou terreno para explorar e lutar?

Creio que qualquer movimento pela mudança social poderá provavelmente tornar-se extremo por forma a que seja recentrado depois. Creio que este movimento das mulheres é um bom exemplo. É absolutamente real, válido e podemos conquistar terreno para uma genuína mudança social que envolva o conhecimento dos direitos que as mulheres têm de não serem regularmente ‘lixadas’ pelos homens. É a mesma coisa para os direitos dos homossexuais e para todos os outros. Mas é preciso realmente puxar para conseguir conquistar terreno na consciência comum.

Como olha para Inteligência Artificial (IA)?

Não me sinto ameaçado pela Inteligência Artificial. Por um lado, acho que o que um romancista faz é tão sobre intuição, experiência, memórias que não consigo imaginar que a IA possa fazer ou ter. Mas vamos ver. Suspeito que continuará a haver interesse em ficção feita à mão (Risos). Vamos pensar como no Marketing, na diferença entre uma obra da IA e uma outra feita à mão. Outra coisa interessante sobre IA é que devemos saber que ela pode ser também a resposta em tempo para salvar a nossa mãe de um cancro, e creio que não queremos tirar isso da equação. É ameaçador num plano estético, mas, adivinhe-se, a mãe sobrevive porque um médico humano não teria detetado.

Porquê dez anos de hiato na sua escrita e como os viveu?

Passei um certo numero de anos a trabalhar nesse livro que ainda não está terminado. Sabe, eu não quero escrever um romance porque é esperado que o faça ou é tempo de o fazer. Faço-o quando estiver preparado. Eu quero o romance que quero mesmo escrever. Por isso, era importante olhar a pandemia, uma das coisas que os escritores de ficção fazem é o reporte histórico e é, idealmente, manter vivo o facto de se estar vivo. Esta particular fronteira entre a vida e a morte. Isto fez-me sentir pressionado de uma forma melhor, a própria experiência sobre o que estava a acontecer. Ao mesmo tempo, nestes anos continuo a ensinar, a escrever ensaios, estou sempre ocupado em TV, filmes.

Mas sentiu a pressão?

A maior pressão que sinto vem de As Horas. Foi díficil para mim, no início, nunca tive tanta atenção sobre um livro meu. Por um lado, toda a gente espera que eu escreva As Horas outra vez e ficam zangadas por eu não o fazer.

Como reage?

Frequentemente, quando alguém me fala sobre o significado de As Horas no meu trabalho, o meu primeiro instinto é dizer: ‘escrevi outros livros, também!’ Mas depois orgulho-me e penso: porque é que as pessoas continuam a falar deste livro 25 anos depois de ter sido publicado? É muito raro! Portanto, talvez devesse ficar calado e agradecido por isso [Risos]. E continuo a trabalhar.