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O 25 de abril de 1974 visto por uma agricultora do Alentejo

Sou bisneta, neta, filha, nora e mulher de homens sempre ligados à terra, que sempre a trabalharam, com muito entusiasmo, e fizeram dos campos o seu meio de vida. Hoje sou eu também agricultora e dos seis filhos que tenho, quatro são hoje também agricultores.

Falar do 25 de Abril de 1974, para mim é sempre difícil, pois sinto um misto de sentimentos, sentimentos bons, porque nos deu a liberdade de escolha e o desenvolvimento a todos os níveis que temos hoje, mas ao mesmo tempo o sentimento de dor e angústia que sofri quando ocuparam ilegalmente as nossas terras, que nos tinham sido passadas por várias gerações de pais para filhos.

A minha vida ficou bem marcada por todo o período do PREC em Portugal, começou no dia 3 de Agosto de 1975, dia para mim muito especial, pois era o dia do meu noivado, que acabou sem festa alguma, pois fomos avisados que no dia seguinte nos iam ocupar o monte. Então o meu noivo e os pais resolveram voltar para o monte onde moravam para evitar que a ocupação se realizasse. Mas nada o evitou.

Todos nós (quando digo nós estou a referir-me ao meu pai, sogro e marido e mesmo eu) concordávamos com uma reforma na agricultura, pois os ordenados eram baixos e algumas terras não estavam a dar o rendimento que deveriam por falta de assistência dos seus donos, mas essas terras não foram ocupadas, mas sim aquelas que estavam em boas condições para produzir e que tinham cortiça e que os próprios donos moravam lá e criaram os seus filhos, ensinando-lhes o respeito por todos, desde o mais velho ao mais novo, do mais rico ao mais pobre.

Antes de nos ocuparem as terras, o sindicato mandava grupos de homens que se apresentavam nas herdades para trabalhar sem nós os termos contratado e no final da semana (pois no campo ganhava-se à semana) teríamos que lhes pagar o salário pois senão o fizéssemos as terras eram ocupadas. Como não queríamos que isso acontecesse fomos pagando sempre até que o dinheiro se acabou.

Tudo isto foi muito bem pensado, primeiro a descapitalização, depois a ocupação com direito absoluto aos animais e tudo o que as propriedades tivessem (tratores, máquinas e todo o mais). Nós tivemos 15 dias para deixar a nossa casa e levar os nossos pertences, pertences esses que no caso da nossa família eram de várias gerações. No nosso caso só perguntávamos “porquê?” nunca fizemos mal a ninguém, sempre ajudamos toda a gente, fomos sempre gente honesta e trabalhadora. Os nossos trabalhadores não queriam ocupar a terra mas não tiveram alternativa, se não fossem eles seriam outros que não tinham ligação nenhuma connosco. Tudo isto é muito estranho para algumas pessoas, que me podem perguntar: “porque é que não lutaram pelas vossas coisas?” Mas era impossível pois só havia duas coisas a fazer: resistir e ser presos ou até haver confrontos, ou sair com a cabeça erguida, pois a nossa consciência estava tranquila, e manter a esperança que esta injustiça um dia iria acabar.

Depois de tudo isso veio o 25 de novembro. Eu era casada e em casa de meus pais começou se a ouvir imenso barulho era – mais uma manifestação do poder popular que ia a casa das pessoas busca-las à força para as prenderem.

Eram 21h00, estávamos a ver televisão, o meu pai, que era o médico veterinário da aldeia, muito estimado por toda a gente a quem sempre ajudou, era um homem calmo, sem medo, que nos dava muita confiança, estava confuso com esta gente e então disse-nos: “Todos para o primeiro andar, sem fazerem barulho, eu fico aqui no hall de entrada com a espingarda carregada, se arrombarem a porta eu dou o primeiro tiro na minha vida”. A manifestação passou a porta e parou a gritar o nome do meu pai, e alguém disse: “O senhor Doutor não que ele é um homem bom”. Então todos nos respiramos de alívio mas com a consciência de que se aquele alguém não tivesse falado a porta teria sido arrombada e a desgraça seria muito grande.

Eram tempos em que as pessoas se deixavam levar pelos ideais que lhes eram vendidos na altura sem sequer os questionarem. Ao fim de 3 anos as coisas começam a ser diferentes, começaram a entregar, sem quaisquer contribuições de valor, as terras aos seus donos. Só mais tarde recebemos alguns títulos de tesouro para pagamento destas ocupações ilegais. Tivemos que começar uma nova vida, comprar gado, alfaias agrícolas e contratar pessoas para trabalhar, mas mesmo assim não desistimos de nada, cá estamos agarrados à terra, a mesma terra que os nossos antepassados nos deixaram de geração em geração e nos vamos continuar com esse legado para os nossos filhos e netos se Deus quiser.

Hoje com 59 anos tendo passado por várias perdas (marido, pai e sogro) e tendo lutado muito para transmitir aos meus filhos e netos este amor incondicional pela terra e tudo o que ela nos dá. Não sinto mágoa por aqueles que irresponsavelmente me fizeram passar momentos de revolta e incompreensão pois também eles foram enganados por outros senhores que encheram os bolsos em nome do povo mas eles continuam iguais ao que eram antes.

Testemunho recolhido por Carla Macedo