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O mérito tem sexo?

“Meritocracy is a good thing. Whenever possibly, people should be judged based on their work and results, not superficial qualities.”

Eric Ries

Atualmente ouve-se com frequência a palavra MERITOCRACIA, parecendo que com a frequência com que é repetida, se pretende que retenhamos o conceito. Mas o conceito não é novo! Então porquê agora? Foi, com certeza, uma coincidência este tema ter sido mais ativado desde que a proposta de lei sobre Quotas de Género nas Administrações de Empresas deu entrada na Assembleia da República. Mas há sempre temas que geram mais interesse na nossa sociedade, em diferentes momentos, sem que para isso seja necessário haver uma causa-efeito.

O mérito deve ser sempre a base de promoções e mudanças na carreira profissional, aferido por quem decide e confirmado por todos os que o rodeiam, independentemente do cargo e do género. O mérito, num sentido mais lato, quando avaliado por critérios objetivos, é aceite como justo e maioritariamente alcançado pelas mulheres, bastando para isso avaliar as listas de alunos que acedem todos os anos às Universidades, as notas com que ingressam nas mesmas, assim como as notas de saída, para percebermos que não parece haver dúvidas sobre o mérito das mulheres para estarem naqueles lugares e para se superarem a cada ano que passa.

Mas tudo se complica a partir dos primeiros anos pós-saída da universidade em que a progressão por mérito parece ter dificuldade em acontecer. Os critérios deixam de ser tão objetivos, começando a ter primazia a perceção e o viés inconsciente que traz consigo as nossas vivências, preconceitos e crenças.

Assim, podemos questionar se o tão apregoado mérito é realmente tema, ou se temos de trazer para este debate outros fatores relevantes que influenciam a tomada de decisão, dado que nunca foi por uma questão de (falta de) mérito, que as mulheres não alcançassem as posições de topo nas organizações.

O mérito não é uma ciência exata, e devemos compreender que utiliza meios pouco objetivos e não facilmente mensuráveis, levando-nos a pensar que enquanto não tomarmos consciência desta ambiguidade, não encontraremos soluções que permitam uma verdadeira igualdade de oportunidades.

É evidente que o mérito deve ser privilegiado, mas é isso que tem sucedido? Ou o tema do mérito é agora bandeira para justificar o injustificável?

A sociedade tem de mudar e não só as empresas. O viés inconsciente e os preconceitos têm de ser banidos (muito aspiracional) ou suavizados, através de um esforço coletivo de tomada de consciência, e só assim podemos falar de mérito de forma aberta e transparente, como fator de seleção.


Ana Torres, Presidente da PWN Lisbon e Pfizer Western Europe Cluster Lead, Rare Disease