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O meu filho tem muita personalidade!

“O meu filho tem muita personalidade!” É mesmo verdade, ou desculpa de pais para filhos mal comportados?

Ter muita “personalidade” ou o famoso “ele é mesmo assim” podem ser desculpa para tudo? Ou não há personalidade que se sobreponha a pais mal preparados no que toca a pedagogia? Cada vez mais a sociedade se interessa por compreender melhor os mais pequenos e os gatilhos que causam aquilo a que chamamos “mau comportamento” ou “má educação”. Qual a origem? Estará nas crianças e na sua “personalidade” – ou nos pais? O Delas.pt quis aprofundar o assunto e falou com duas especialistas em comportamento infantil que esclarecem todas estas dúvidas, e ainda dão dicas para melhorar a relação com os seus filhos – e, consequentemente, atenuar ou acabar com os problemas diários de comportamento.

O que é, afinal, um “mau comportamento”?

Comecemos pelo princípio! Mikaela Övén, fundadora da Academia de Parentalidade Consciente e autora de diversos livros sobre o tema, afirma que esta é uma questão muito relativa. “O que eu sei é que há comportamentos do meu filho que me irritam, ou que não me dão jeito nenhum. Mas se eu perceber que todo o comportamento existe para satisfazer uma necessidade da criança, não tenho de dizer que é um «mau» comportamento. É simplesmente um comportamento, uma consequência. Como mãe, o importante é perceber que tipo de comportamento mexe comigo e ultrapassa os meus limites. Mas antes tenho de assegurar que os meus filhos têm os recursos necessários para terem o comportamento que eu espero deles. Não é só «dar-lhes na cabeça», e dizer que têm uma má personalidade. Isso não ajuda ninguém, não capacita, nem dá competências à criança.” A especialista acredita que a maioria das crianças, atualmente, vive em constante défice de sono e que isso influencia negativamente o seu comportamento. “A criança não tem recursos para se portar bem (eu não gosto muito destes termos, «portar bem» ou «mal», mas para ser mais simples e me fazer entender, vou recorrer a eles). Para eu me portar bem tenho de me sentir bem. E muitas vezes as nossas expectativas em relação ao comportamento da criança não estão adequadas aos recursos que ela tem. Não sei se os pais culpam a personalidade dos filhos como desculpa, ou por desconhecimento. Há muitos pais que não se querem pôr em causa no que diz respeito ao comportamento dos filhos, então é fácil dizer que é da sua personalidade. Mas se eu contar as horas de sono que o meu filho tem, vou perceber que talvez ele tenha défice de sono. Então não é a personalidade, é sono! Ou pode ser uma criança cujas necessidades emocionais não sejam satisfeitas, sejam elas quais forem, ou que lhe falta organização, rotina, estrutura, controlo, segurança, e essa criança vai obviamente reagir com mau comportamento.” Mikaela acredita que é parte das competências dos pais “ativar o detetive” neles mesmos e perceber, afinal, o que se passa com o filho, e se as suas necessidades básicas fisiológicas e emocionais estão a ser satisfeitas. “Eu diria que em 99% dos casos não estão. Uma criança que tem recursos para se portar bem, vai portar-se bem”, afirma Mikaela Övén.

Dar limites implica definir e aplicar regras claras e adaptadas a cada fase do crescimento, regras que a criança possa compreender e respeitar de acordo com o seu nível de maturidade, com maior ou menor dificuldade de pôr em prática, conforme as características da sua personalidade

Ana Rita Botelho Moniz Dias, Psicóloga e especialista geral em Psicologia da Saúde e especialista avançada de Psicoterapia e Intervenção Precoce, defende que se “considera mal comportada uma criança que adota um comportamento desadequado a determinada situação social. Quando se classifica um comportamento como desadequado/desajustado, temos de ter em consideração determinados fatores, tais como a idade da criança e a eventual existência de deficiência ou patologia. Não será estranho assistir a uma birra numa criança de aproximadamente 3 anos. Regra geral os comportamentos desajustados acontecem inicialmente quando a criança ainda tem dificuldade em comunicar e não consegue transmitir as suas necessidades, e/ou posteriormente quando é contrariada.”

O meio-termo marca o equilíbrio

Ana Rita Botelho Moniz Dias acrescenta que existem vários modelos e estilos parentais, desde os autoritários, rígidos, permissivos, tolerantes, entre outros. “Os modelos parentais mais adequados respeitam as necessidades da criança de forma flexível, tolerante e protetora, dão regras e limites, integram a família alargada, respeitando valores e tradições, dedicam tempo de qualidade aos seus filhos e respeitam a opinião de todos os profissionais que prestam cuidados à criança. Crescer é difícil para pais e filhos, sendo que introduzir a frustração é sempre uma tarefa difícil, mas que se reveste de uma importância primordial no processo de crescimento. Uma criança que não experimenta a frustração e não respeita os limites da realidade vai crescer sem organização interna, com um «Eu» fragilizado e com dificuldades no processo de integração na sociedade. Não vai ser capaz de respeitar o outro na sua dimensão familiar e social”, afirma a psicóloga.

Eu e o meu filho temos iguais direitos de exprimir as nossas emoções, necessidades, opiniões… Exprimi-las é uma coisa, outra é fazer o que se quer e bem entende. Aí está o limite. Eu não quero que o meu filho me bata, não quero que ele grite no restaurante, nem que ande debaixo das mesas.

Mikaela Övén refere que, entre o controlo excessivo que retrai a criança e a permissividade total que não impõe limites, há uma terceira via, onde reside a fórmula mágica. “Chama-se parentalidade consciente. Existem limites pessoais para todos. Quais são os meus como mãe? E quais são os limites pessoais do meu filho? É isso que tenho de comunicar. E tenho de ajudar o meu filho a perceber que, por exemplo, há pessoas no restaurante onde estamos a almoçar que também têm os seus próprios limites pessoais, que eu quero que ele respeite. O que acontece, muitas vezes, é que quem se quer livrar dessa parentalidade mais tradicional da mãe e do pai «a mandar», parece que vai para o extremo oposto. Coloca a criança no centro, o que é errado. Uma criança que está sempre no centro do circulo não se sente parte do todo. E nós, humanos, queremos sentir-nos parte do grupo. Se eu, como criança, não sentir isto, pode despoletar em mim o mau comportamento. Porto-me mal e não tenho ninguém que me ponha travão. Eu acredito no igual valor e algumas pessoas demasiado permissivas não entendem o que significa. Eu e o meu filho temos iguais direitos de exprimir as nossas emoções, necessidades, opiniões… Exprimi-las é uma coisa, outra é fazer o que se quer e bem entende. Aí está o limite. Eu não quero que o meu filho me bata, não quero que ele grite no restaurante, nem que ande debaixo das mesas. Ele tem o direito de exprimir o seu aborrecimento, mas eu como mãe também tenho o direito de exprimir o que sinto naquela situação. Agora, preciso de avaliar se posso ter a expetativa de o meu filho ficar sentado ou não à mesa. Aí, tenho de perceber: se eu quiser ficar mais uma hora no restaurante, que estratégia devo usar? Se calhar o ideal é encurtar o tempo do almoço para respeitar as necessidades do meu filho. Assim, é um compromisso de ambas as partes. Ambos cedemos para que todos fiquemos satisfeitos, sem prejuízo de terceiros”, explica Mikaela. A especialista em parentalidade consciente adverte, no entanto, que mal a criança se sinta manipulada, vai boicotar toda a estratégia. “Imaginem: eu quero que o meu filho se porte bem. Só que a minha intenção, em primeiro lugar, tem que ser sempre ver o meu filho, e conectar-me com ele. E ele tem de sentir isto. Mal ele sinta que eu só quero que ele se porte bem para poder comer descansada, que só tenho o meu benefício em consideração e só quero que ele me obedeça, vai boicotar a situação e portar-se ainda pior.”
A psicóloga Ana Rita B. M. Dias explica que dar limites implica definir e aplicar regras claras e adaptadas a cada fase do crescimento, regras que a criança possa compreender e respeitar de acordo com o seu nível de maturidade, com maior ou menor dificuldade de pôr em prática, conforme as caraterísticas da sua personalidade. “Crianças mais afirmativas, com maior rigidez defensiva, têm mais dificuldade em aceitar limites, mas estes podem e devem ser igualmente colocados com clareza, firmeza e continuidade. Sempre que os limites são claramente assumidos e são considerados como um valor para a família, as crianças vão aceitá-los e integrá-los progressivamente na sua vida. Dar o exemplo, não abusar de castigos e regras rígidas dificilmente realizáveis, não usar a força física, são regras de ouro de uma educação que respeita a criança”, segundo a especialista.

Reagir às birras em público

“Uma vez o meu filho, aos 2 anos, teve um meltdown num shopping. Eu sabia que ele estava muito cansado e com fome, só que o cansaço fazia com que ele nem conseguisse dizer-me o que queria comer. E resultou numa gigantesca birra. As pessoas que nos observavam obviamente não sabiam o que se passava. E também não sabiam que o meu filho tinha estado sem mim o dia todo. O meu filho tem muita necessidade segurança e controlo, e não tinha sido informado de que íamos comer ao shopping. Felizmente estava com o meu marido, ele colocou-o debaixo do braço, a espernear, levou-o para o carro, eu fui comprar comida, e fomos embora. Esta cena foi total responsabilidade nossa, pais, porque não estavam satisfeitas as necessidades do meu filho. Justificou-se a força do pai de pegar nele e levá-lo embora, porque precisava de um espaço emocional e fisicamente seguro. Nestas situações há que ignorar totalmente as outras pessoas, e só conectar-me com o meu filho. Se elas acham que eu devo dar uma palmada, isso é problema delas – é um recurso ao qual não quero recorrer. Aliás, nestas discussões eu nem entro porque não vale a pena”, conta-nos Mikaela Övén. A especialista acredita que, como terceiros, podemos sempre oferecer ajuda, sem julgar. “Se a pessoa recusar ou reagir mal, e normalmente é o que acontece, pelo menos tentámos. Sei que é difícil não julgar alguém que bate no filho no meio de um shopping, mas temos de fazer um esforço e perceber qual será a melhor forma de ajudar, sempre com compaixão.”

O desafio da autoridade

Há idades em que o comportamento de oposição é uma caraterística, como por exemplo a “fase de oposição” que surge entre os 2 e 4 anos de idade, e posteriormente no início da adolescência, segundo Ana Rita Botelho Moniz Dias. “Também há crianças que são mais afirmativas por caraterísticas de personalidade, mais desafiadoras, e para essas será igualmente importante manter clareza e firmeza na aplicação das regras. Não deve haver lugar a cedências ou condicionamento de comportamentos por chantagem emocional ou material. Também não é correto punir fisicamente uma criança: inibe o comportamento por imposição e medo, sem compreensão, e pode ter consequências graves inesperadas para a vida da criança, traduzindo igualmente a incapacidade do adulto em lidar com a situação. De acordo com a idade, deve haver sempre uma forma de repreender uma criança por um comportamento desadequado, e a repreensão deve ser ajustada à idade e ao nível de gravidade do comportamento. Uma criança deve ser ajudada a respeitar o outro e o espaço exterior, deve ser ensinada que não pode agredir o outro, assim como não pode deteriorar objetos. A capacidade de compreensão dos seus atos vai sendo gradual desde o nascimento. Uma criança no primeiro trimestre de vida sabe exprimir as suas necessidades e começa a integrar horários e rotinas. A partir dos 2 anos a criança já compreende as regras. Progressivamente vai tendo a noção das consequências dos seus atos e a perceção de que tem comportamentos desadequados”, explica a psicóloga.
Mikaela Övén considera que uma das tarefas dos filhos é precisamente desafiar os pais. “Quando há pais que recorrem à minha ajuda e me dizem que não castigam os filhos, que fazem tudo de acordo com a parentalidade consciente, eu percebo que não, não estão. Estão apenas a ser permissivos e a esquecer-se de si mesmos. Respeitam os filhos, mas não a eles mesmos. Crianças que desafiam muito estão um bocadinho à procura de limites. Querem perceber quem são os pais, que por vezes se escondem atrás de pedagogias. Há que perceber onde ficam os meus limites pessoais e comunicá-los, antes de entrar no ponto de rutura e cair no erro das palmadas”, afirma Mikaela. Há também grandes diferenças entre a parentalidade mais tradicional, a parentalidade muito permissiva e a parentalidade consciente, que Mikaela muito simplesmente define desta forma: na parentalidade tradicional há um circulo e a criança está fora dele – só fará parte dele caso se comporte de certa forma; na parentalidade permissiva a criança está no meio do circulo – também não faz parte do mesmo, todos gravitam à sua volta, toda a logística depende dela; e na parentalidade consciente há um circulo que inclui todos, com igual importância, sendo que, claro, os pais detêm mais responsabilidade.
Ana Rita B. M. Dias corrobora esta teoria, e acrescenta que “A criança deverá ocupar o seu lugar na família, que será respeitado da mesma forma que o de qualquer um dos outros elementos que a compõem. Certo é que também não compete à criança implementar regras ou estabelecer prioridades na vida familiar. Quem estabelece as regras deverão ser os adultos responsáveis, regras que respeitem todos os elementos que compõem a família no que diz respeito às suas caraterísticas físicas e psicológicas. Uma família organizadora para uma criança deve ter uma hierarquia em que cada um tem a sua função e papel claramente definidos, e todos são respeitados.”

Reverter “reizinhos”

Como podem os pais reverter uma situação em que a criança está no centro do circulo, em que controla a gestão familiar? Mikaela Övén aconselha. “Os pais têm de definir as suas intenções. «Quem quero ser como mãe?» – e não «quem quero que o meu filho seja». Se o meu filho estiver a ser desafiador e desrespeitador, e eu quero que ele seja mais respeitador, então tenho de pensar em quem tenho de ser para o meu filho adquirir esta competência. Talvez tenha de me respeitar mais a mim mesma, para poder respeitar também o meu filho. Quando eu ponho de lado todas as minhas necessidades a favor das necessidades do meu filho, estou a praticar o desrespeito. Estou a demonstrar ao meu filho que não faz mal desrespeitar-me. Também se exige mais empatia. Depois há que perceber quem é o meu filho, quais são as suas necessidades, e se elas estão a ser preenchidas (aquilo de que já falámos). O comportamento nunca é um problema, é sim uma solução para o problema, a que a criança arranjou inconscientemente para preencher uma necessidade. Não quero corrigir comportamentos, quero primeiro satisfazer necessidades. E aí o comportamento deixa de existir e de fazer sentido.”
A psicóloga Ana Rita B. M. Dias considera que “seguramente, uma criança a quem não foram dadas regras e limites vai ter sérios problemas ao longo da sua vida. Inicialmente vai ter dificuldade na integração no grupo de pares, dificilmente vai ser respeitada e desejada para uma partilha de experiências e jogos em grupo, experiências tão importantes e organizadoras para o seu desenvolvimento. Vai ser um adulto com dificuldade em estabelecer as suas próprias regras na sua vida futura social e familiar.” A especialista recomenda aos pais que incluam a criança, conforme o seu grau de desenvolvimento, em determinadas tarefas em prol do bem-estar familiar. “Participar na gestão doméstica, tal como ajudar nos momentos das refeições, na limpeza e manutenção da casa, apoiar os mais dependentes, etc., são tarefas que devem estar sempre presentes no dia a dia da família e da criança. Estas atividades fazem parte do estabelecimento de valores e regras de respeito por cada um no sistema familiar.” Acrescenta ainda que a personalidade forte em algumas crianças é, de facto, uma realidade. “Na minha prática profissional encontro com alguma frequência pais extremamente cuidadosos e adequados no seu desempenho parental que se vêm confrontados diariamente com crianças muito afirmativas, com caraterísticas de personalidade extremamente exigentes para gerir a vida familiar quotidiana com harmonia, e que não reúnem as condições para enquadrar qualquer patologia do foro emocional. Serão crianças a quem será necessário fazer respeitar as regras e os limites com firmeza, condição para que se sinta segura, amada e respeitada. Com a clarificação e redefinição de algumas regras, afeto, paciência e persistência, na continuidade a criança acaba por aceitar e respeitar as regras estabelecidas”, conclui a especialista.

Carmen Saraiva