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Transparent: o género oferece liberdade ou prisão?

A quarta temporada de Transparent estreia esta sexta-feira, nos Estados Unidos, e é mais urgente do que nunca ver esta série. Conversa em Nova Iorque com os autores e atores da série da Amazon.

A criadora da série Transparent, Jill Solloway, odeia Donalt J. Trump. “Ele é um homem terrível, abertamente misógino, e derrotou uma mulher altamente qualificada”, diz a escritora sobre o presidente dos EUA. “Estávamos a caminhar em frente, para a modernidade, e isso significava mais tolerância. Trump ganha, rasga tudo isso e diz: ‘Vamos em frente, mas com menos tolerância.’” A autora decidiu que a sua série, que conta a história de uma homem de terceira idade que decide mudar de sexo, teria de refletir essa nova realidade americana. Mas, quando chegou a altura de escrever a temporada, entendeu que a ação se passaria noutro país. Na quarta temporada, a família Pfefferman parte para Israel.

Uma vez mais, a série recusa mensagens políticas óbvias e duras, e opta pela subtileza. Encontramos Maura (a personagem que muda de género) a aceitar um convite para falar numa conferência em Israel. O resto da família – Ali (Gaby Hoffmann), Sarah (Amy Landecker), Josh (Jay Duplass) e Shelly (Judith Light) – acaba por chegar ao país, de uma forma ou outra, e no deserto, perdidos, aprendem um segredo sobre a família e continuam o seu caminho de aceitação e descoberta.

A escolha de Israel permite falar sobre um dos grandes temas da série. “Tentamos pensar sobre limites e fronteiras, e como estas podem ser usadas para manter as pessoas seguras ou não. A ideia do que é feminino e masculino mantém as pessoas seguras, mas qual é o custo dessa segurança?”, pergunta Solloway. “Da mesma forma, os judeus foram para Israel para ficarem seguras, mas qual foi o custo disso?”

A autora acredita que no país, criado em 1948 como resposta ao Holocausto, assim como na vida das personagens, não existem respostas fáceis. “Não é claro quem é o agressor e o agredido, quem é o ocupante e a vítima. Há árabes que são cristãos, beduínos que lutam no exército israelita. Nas questões de género também não há binários simples. É um sentimento sempre em mudança”, explica.

Israel, explica Solloway, acabou também por ser o local ideal para falar sobre Donald J. Trump e as suas políticas discriminatórias “Muitas pessoas gostam de Trump porque acham que ele está a criar uma fronteira que é apropriada. É por isso que ele fala tanto do muro – não existe representação mais literal de uma fronteira. As pessoas constroem muros para se sentirem seguras, mas acabam por não conseguir ver. Uma barreira é diferente – com uma barreira podes ver o que se passa do outro lado?”

Jeffrey Tambor, o autor que venceu um Emmy por desempenhar Maura, diz que a eleição presidencial do ano passado o fez “conduzir um pouco mais rápido para o estúdio” de gravações. A proibição de pessoas transexuais servirem nas forças armadas e o fim de algumas proteções para crianças que estão a mudar de género é algo que o motiva. “A eleição não faz parte da temporada, mas é algo que está muito presente. Quando sonho sobre aquilo que representar pode ser, é exatamente aquilo que estamos a fazer.”

Judith Light, que desempenha Shelly, a mulher de Maura, não acredita que o programa possa mudar tudo, mas espera que ajuda a mudar muita coisa. “É perigoso dizer que vamos mudar o mundo. Mas podemos mudar a cultura, criar uma dinâmica diferente, mudar a conversa, ajudar a acabar com a intolerância e preconceito. E fazer isso sem ser didático, mas com entretenimento. É uma coisa maravilhosa tentar encontrar esse equilíbrio, de forma artística, e acho que o estamos a conseguir.” E com sorrisos e gargalhadas, interrompe Tambor, para acrescentar. “Sempre achei que o humor era a melhor forma de iluminar um assunto sensível.”

Não é, portanto, o programa que muda nesta quarta temporada. As personagens e as histórias são as mesmas de sempre, mas o simples facto de as contar na América de Trump tornou-se um ato político; como quase tudo que acontece na América liberal de 2017, é um ato de resistência. “Todas as vezes que alguém conta uma história que não é sobre um homem heterossexual e branco a tentar conquistar poder, está a esvaziar a narrativa que Trump tenta vender”, explica Solloway. “O que ele esta a promover é uma ortodoxia religiosa muito fundamentalista sobre a forma como ele vê o mundo, em que não existe outro género além de homem ou mulher. Mas o nosso show cria um ecossistema em que a tolerância é uma prioridade.”

Solloway começou a produzir esta série em 2012, reticente sobre falar da sua vida pessoal. Acabaria mais tarde por conceder que a história era inspirada no seu pai, que se assumiu como transexual quando as duas filhas (a irmã de Jill, Faith, é produtora do programa) já eram adultas. Este ano, a série tornou-se ainda mais pessoal. Solloway passou a descrever o seu género como “não binário”, que define como “viver num espaço em que os rótulos masculino e feminino” não a definem. “Todas as personagens tentam perceber se o género lhes oferece liberdade ou uma prisão. Como posso ser feliz? Seria mais se não tivesse de lidar com as expectativas de género? Eu estou certamente nessa viagem”, explica.

A autora divorciou-se, cortou o cabelo e usa agora roupas mais masculinas. Recorda como, no evento para imprensa do ano passado, ainda passou duas horas a arranjar o cabelo e a colocar maquilhagem. “Eu não tenho duas horas para me meterem pestanas falsas nos olhos. Para quê? E porque não tens de o fazer”, pergunta, dirigindo-se a um jornalista homem. “Ainda tenho de usar maquilhagem para estes eventos, mas agora peço que me façam a “Bradley Cooper”, que demora cinco minutos. E passo o resto das duas horas a trabalhar no meu livro. Para mim, isto é sobre política, é sobre ter uma voz.”

A nova temporada de Transparent estreia em Portugal no dia 30 de setembro, no TVSeries.

Alexadre Soares, em Nova Iorque