O valor social e cultural da nutrição

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de doenças e enfermidades”. É uma abordagem que considera o ser humano em todas as suas dimensões, não apenas biológica, mas também psicológica, emocional e social.

Definir o valor da nutrição implica usar essa mesma abordagem. A nutrição extrapola em muito a satisfação do instinto biológico da fome. Respondendo a necessidades biológicas que são críticas para um corpo saudável e uma mente sã, o ato de nos alimentarmos carrega também inúmeros valores simbólicos.

Através da alimentação, através do ato de comer, mas também de preparar os alimentos e servi-los, transmite-se tradição e cultura, reforçam-se laços familiares e de amizade, estreitam-se comunidades, selam-se acordos, assinalam-se momentos de alegria e de homenagem, presta-se solidariedade, celebram-se e perpetuam-se lembranças, aproximam-se culturas, demonstra-se e recebe-se amor.

Poucos atos haverá com tamanha carga simbólica e tão gigante impacto aos níveis emocional, psicológico, social e cultural. Um impacto difícil de medir. Intangível, talvez. Difícil de transmitir em dashboards de indicadores. Mas tangível, afinal, no estado de bem-estar dos indivíduos, das famílias, dos grupos, das comunidades.

A nutrição aborda todas essas dimensões para que possam ser trabalhadas e conseguidas. Mas aborda outras ainda, essas potencialmente mais passíveis (talvez) de quantificar. A dimensão ambiental e económica, ou numa perspetiva integrada, a dimensão da sustentabilidade.

Saber comer implica ter consciência de onde vêm os alimentos, os processos de produção utilizados, o respeito que houve pelos recursos ambientais e humanos, a dimensão e circularidades das cadeias de produção, o reforço das comunidades e a preservação da sua capacidade produtiva. E conjugar essas dimensões com a salvaguarda da saúde. O papel da nutrição é também o de perceber tudo isso, “descomplexificá-lo” e torná-lo acessível ao cidadão comum, permitindo-lhe a tomada de decisão informada, consciente e também facilitada.

No Congresso da Associação Portuguesa de Nutrição, nos dias 16 e 17 de maio, no Centro de Congressos da Alfândega do Porto, teremos a oportunidade de abordar as diferentes dimensões que permitem perceber muito do valor a retirar da nutrição, para construirmos sociedades mais saudáveis e também mais coesas, mais solidárias, mais sustentáveis.

 

Secretária-geral da Associação Portuguesa de Nutrição