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ONU apoia luta das mulheres yazidis para levar ISIS a tribunal

A 4 de agosto de 2014 os ‘jihadistas’ do Estado Islâmico atacaram a comunidade yazidi em Sinjar, norte do Iraque. Milhares de homens e jovens rapazes foram mortos e mulheres e crianças capturadas, abusadas e vendidas como escravas, um cenário que se foi repetindo noutras regiões onde viviam membros desta minoria.

Três anos depois, a comissão de investigação da ONU sobre os crimes cometidos na Síria pede à comunidade internacional que reconheça a agressão a este povo como genocídio e que sejam tomadas medidas para que os seus autores sejam levados à Justiça.

O pedido das Nações Unidas é o culminar de uma luta que tem vindo a ser travada por refugiadas yazidis e advogados especialistas em direitos humanos, como Amal Clooney.

No final de 2016, Nadia Murad Basee e Lamiya Aji Bashar, duas jovens yazidis que foram escravizadas sexualmente pelo autoproclamado Estado Islâmico durante meses, ganharam o Prémio Shakarov, do Parlamento Europeu, pelos esforços na denúncia dos crimes contra a sua comunidade e das mulheres feitas prisioneiras pelo ISIS.

Nadia Murad (L) com a advogada, Amal Clooney, na sede da ONU, em Nova Iorque. (REUTERS/Lucas Jackson)

Em maio, Farida Khalaf, outra refugiada yazidi que também foi feita escrava sexual pelos ‘jihadistas’, esteve nas Conferências do Estoril para falar da sua experiência e pedir à comunidade internacional que leve o Estado Islâmico a julgamento no Tribunal Penal Internacional.

Farida Khalaf, refugiada yazidi, foi uma das oradoras das Conferências do Estoril deste ano (DR)

“Nós não temos apenas que combater os militantes do ISIS, temos de combater a ideologia. Se os levarmos a tribunal saberemos de onde vêm a sua ideologia e os seus recursos”, disse em entrevista ao Delas.pt, à margem das Conferências.

Farida relatou as atrocidades a que foi submetida no livro ‘A Rapariga que Derrotou o Estado Islâmico’ (editado pela ASA) e tem viajado pelo mundo contando a sua história na esperança que ela ajude a chamar a atenção da comunidade internacional para as outras mulheres e meninas da sua comunidade que ainda permanecem em cativeiro.

Num relatório de junho de 2016, a Comissão da ONU já tinha denunciado a venda de milhares de mulheres como escravas sexuais e centenas de crianças doutrinadas para se converterem em combatentes islâmicos.

Nesse documento, o organismo determinou que tinha sido cometido o crime de genocídio, ao considerar que os ‘jihadistas’ pretendiam destruir esta comunidade e cometer diferentes formas de humilhação com o propósito de a dizimar.

Este crime de genocídio mantém-se mas não está a ser investigado, alerta a Comissão, denunciando que milhares de homens yazidis continuam desaparecidos e 3.000 mulheres são mantidas prisioneiras pelo Estado Islâmico e violadas diariamente.

Algumas destas mulheres estão em Raqa, norte da Síria, e diversos relatos indicam que os ‘jihadistas’ estão a tentar vendê-las, com o avanço das forças da coligação que os combate.

A Comissão recomenda, por isso, às forças que combatem o ISIS que incluam a libertação destas mulheres nos seus planos para recuperar a cidade.

Recorde-se que desde o ano passado, a violação passou a ser reconhecida como crime de guerra pelo Tribunal Penal Internacional, que condenou, numa decisão sem precedentes, Jean-Pierre Bemba, comandante do Movimento de Libertação do Congo e vice-presidente do país, por crimes contra a humanidade, entre os quais o de ordenar a violação de civis como ato de guerra.

Imagem de destaque: Shutterstock

Ana Tomás