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“Parecia que estávamos num cenário de guerra”

Há quase um mês, a Macedónia usou gás lacrimogéneo contra refugiados. Bénedicte de Dorlodot estava lá. A notícia desse 11 de abril correu mundo e recebeu inúmeras críticas a nível internacional: a polícia macedónia recorreu a gás lacrimogéneo contra refugiados que tentavam passar a fronteira a partir do campo de Idomeni, na Grécia.

Com uma forte ligação a Portugal, onde morou cinco anos, Bénedicte de Dorlodot, de 41 anos, é funcionária da União Europeia em Bruxelas e decidiu dedicar as suas férias ao trabalho voluntário com a ONG norueguesa Drop in the Ocean, que distribui kits de higiene, vestuário e tudo o que fizer falta exceto comida, a cargo de outras organizações. Regressou há poucos dias e conta aqui a sua experiência.

O que aconteceu a 11 de abril?
Houve confrontos com a polícia macedónia e fomos atacados por gás lacrimogéneo dentro do campo. Lançaram-no bem para dentro do recinto, atingindo famílias, bebés, voluntários, gente que não tinha nada que ver com as tentativas de abrir a fronteira. Tivemos de fugir com a cara em fogo. Foi terrível, dói imenso e todos corremos para escapar do fumo, as crianças a gritarem de dor e de terror…

Houve muitos outros protestos enquanto lá esteve?
Sim, muitos protestos e manifestações e cada vez menos pacíficos com a frustração crescente. Às vezes nem podíamos fazer a distribuição. Em vez de receber comida ou roupa doadas os refugiados queriam era passar a fronteira para construir uma nova vida.

Quais são as principais necessidades no campo?
Além das quotidianas, que têm constantemente de ser satisfeitas, como a comida e a higiene, as necessidades dependem do tempo. Quando cheguei estava muito frio, com temperaturas negativas à noite e chuva. Eram necessárias tendas, pois a maioria delas não resistia à chuva e ao vento mais do que uma noite, cobertores, casacos e botas. Duas semanas depois estavam 27 graus e eram precisos chapéus, chinelos, protetores solares. Também há muita falta de leite para as crianças.

Quem está a apoiar estas pessoas?
O apoio depende completamente de organizações voluntárias. Nos campos oficiais é o exército a gerir o funcionamento, às vezes ajudado por ONG, como aquela com que colaboro, Drop in the Ocean, que é a única autorizada a entrar no campo em Nea Kavala, por exemplo.

Há pessoas doentes? Que tipo de assistência têm?
Existem muitas doenças, toda a gente tem problemas respiratórios por causa de queimarem plástico para aquecer, há tuberculose, hepatite, sarna, piolhos… Algumas ONG médicas estão presentes mas não chegam para nada. Há mulheres a darem à luz em tendas de campismo.

O campo acolhe milhares de crianças. O que fazem durante todo o dia?
Não têm nada para fazer, só brincarem juntas. Há uns projetos escolares mas chegam apenas a uma pequena parte delas.

Um dia pintaram a caravana da vossa organização…
Foi uma ideia que surgiu uma noite e decidimos fazer no dia a seguir porque as crianças iriam adorar. Como tudo naquele campo, requereu organização já que não há nada: comprar o material de pintura, as luvas para proteger mãos pois não as podem lavar a seguir… As crianças adoraram, obviamente. Pintar o carro era a última traquinice que imaginariam!

De que falavam as crianças consigo e os outros voluntários?
De coisas muito simples pois muitas não falam inglês além de “como te chamas” e “de onde és”. Sabem que querem ir para o norte da Europa e que estão ali paradas pelas autoridades. Comunicamos mais por abraços, abraçam e beijam constantemente pois têm muita falta de afeto, e por jogos. Muitas têm medo quando há barulho: houve um batalhão do exército grego há dias que aterrorizou muita gente, por exemplo, além daquela vez em que a polícia macedónia usou gás lacrimogéneo.

E os adultos sobre o que é que conversam?
Falam muitas vezes connosco, os voluntários, como se tivéssemos acesso privilegiado às decisões dos governos nacionais e da União Europeia. Pedem-nos para tomarmos as decisões por eles: por exemplo, o que devem fazer entre tentar passar a fronteira e voltar para a Síria… É terrível.

Mantêm a esperança de uma vida melhor, mesmo depois de encontrarem a fronteira fechada?
Há muita gente que está a ficar desesperada pelas condições em Idomeni e que fala de voltar para trás. Conheço um iraquiano que acabou de enviar o único filho, de 10 anos, (a mãe morreu) para o Iraque com um tio pois reconhece que a fronteira não vai abrir e ele vai tentar passar com um passador. Mas muitas outras pessoas estão ainda agarradas à ideia de as fronteiras abrirem pois fecharam de um dia para o outro de maneira tão arbitrária que é difícil aceitar, sobretudo depois das peregrinações que tiveram de fazer para ali chegar.

Quais foram as situações mais complicadas que enfrentou?
A mais difícil foi quando dois homens se imolaram perto de mim de desespero, no segundo dia após eu ter chegado. Não morreram mas foi uma visão terrível. O mais difícil do nosso trabalho é conseguir distribuir as coisas que temos para dar sem criar caos e violência.

Como conseguiu lidar com essas situações?
Trabalhando muito duro e concentrando toda a minha energia nas tarefas a cumprir.

Também houve, apesar de tudo, momentos divertidos?
A situação mais divertida foi quando pintámos a caravana com os putos. Ou os jogos que fazíamos com eles. Quando saltávamos à corda até os adultos participavam.

Existe tensão entre refugiados?
Sim, com o tempo que vai passando e a degradação de estado mental de cada um, há cada vez mais tensões e violência entre sírios e afegãos, por exemplo.

Há quem já prefira voltar para o seu país, mesmo em guerra?
Há cada vez mais pessoas desesperadas pelas condições em Idomeni e que querem voltar, mais não é a maioria pois a situação nos seus países é de risco de morte. Não podem avançar nem voltar para trás. No dia do gás lacrimogéneo parecia que estávamos num cenário de guerra. Imagine-se essa gente que foge da guerra e é atacada pelo exército macedónio…

Teresa Frederico