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Paula Rego: “A trabalhar, esqueço o medo… ou pinto-o”

Paula Rego fotografada em Cascais, Casa das Histórias (Carlos Manuel Martins/Global Imagens)

Uma entrevista a Paula Rego é tudo o que um jornalista quer. A oportunidade de decifrar a mulher desconcertante que fala como uma criança, pinta como um génio e parece não conhecer filtros. O lançamento do livro ‘Sopa de Pedra’, com texto da filha, Cas Willing, e ilustrações da mãe, a pintora portuguesa mais (re)conhecida em todo o mundo, em outubro passado, era o pretexto ideal. A resposta foi gentil, mas perentória: entrevistas só por e-mail, a mãe e filha, e sem sessões fotográficas. Como aceitar? Como recusar?

“Uma vez pintei a minha mãe como um repolho. Ela disse que a tinha feito parecer mais nova”, conta Paula Rego.

Para a Paula o pai terá tido mais influência do que a mãe. Porquê?

PAULA: Eu gostava mais do meu pai… Ele protegia-me. Mostrou-me o livro com ilustrações do ‘Inferno’ de Dante, de Gustave Doré. Levou-me a interessar-me por ópera. Disse-me para ir para Inglaterra e seguir os meus sonhos. “Vai”, disse ele. “Isto não é lugar para uma mulher.” Era uma pessoa querida, amorosa, divertida, mas também depressiva. Toda a gente gostava dele. Até as enfermeiras no hospital choraram quando ele morreu. A relação com a minha mãe era mais complicada. Os meus pais deixaram-me um ano entregue aos cuidados de parentes quando eu tinha 18 meses. Quando voltaram não sabia quem era a minha mãe, mas sabia que não gostava muito dela. Mas era uma mulher com muito bom gosto. Adorava ir às compras com ela. Falávamos muito sobre roupa. Ela também era pintora.


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CAS: Mas ela tinha muito orgulho em ti. E era muito sofisticada. Ela percebia o teu trabalho e nunca tentou desanimar-te. Não a pintaste uma vez como um repolho?

PAULA: Um repolho a chorar. Quando lhe disse, ficou satisfeita. Disse que a tinha feito parecer mais nova.

É para o seu pai que pinta, Paula?

PAULA: Não, pinto para mim.

CAS: Também pintaste coisas para lhes dar.

PAULA: Sim, se eles iam sair deixava-lhes um desenho na almofada para que eles vissem quando voltassem.

CAS: Como uma magia? Para fazê-los voltar?

PAULA: Como uma recompensa.

CAS: Estavas a treiná-los para voltarem.

PAULA: Sim.

“Quando estou a trabalhar, esqueço o medo… ou pinto-o”, revela Paula Rego.

Fala muito do medo. Tem medo de quê?

PAULA: A minha mãe costumava dizer que eu tinha medo de tudo, até das moscas.
Tudo me assustava. Os meus pais compraram-me um cachorro para me fazer companhia, mas tinha tanto medo que não queria tocar-lhe. Ele acabou por atirar-se da janela e suicidar-se, mas acho que não foi culpa minha. Estava constantemente a ser raptado e resgatado. Ainda estava mais assustado do que eu. Eu durmo com a luz acesa porque tenho medo do escuro, não gosto de aranhas, detesto estar sozinha e ainda tenho dias preenchidos de terror. Medo da morte e do diabo. Eu acredito no diabo. Ele entrou uma vez no meu quarto quando eu era pequena.

CAS: Pensava que tinha sido a morte. Aquela morte que ficou especada à porta.

PAULA: É difícil ver a diferença. Foi tão aterrador.

CAS: Mas não deixas que o medo te paralise. Continuas em frente.

PAULA: Ir para o estúdio ajuda. Quando estou a trabalhar esqueço o medo… ou pinto-o.

E a Cas tem medo de quê?

CAS: Não tenho medo do escuro nem de aranhas. Não vivo aterrorizada, felizmente.

A sua mãe contava-lhe muitas histórias em criança?

CAS: A mãe contava-nos histórias. Dependia de quanto tinha para beber. Às vezes lia-nos poemas do Edgar Alan Poe. Sempre adorou assustar as crianças. Mas o meu avô era o pior. Era um homem amoroso, mas todas as noites nos contava a história do Papão e eu ficava acordada horas, deitada, à espera de que o Papão viesse e me pusesse no seu saco. Penso que foi a última vez que senti verdadeiro medo. Se calhar vacinou-me. A minha avó também me contava histórias. De manhã, quando acordava, trepava para a cama dos meus avós e ela contava-me a história da lagartixa. Todos os dias, uma aventura diferente com lagartos que vivam nos muros do jardim. Quem me dera lembrar-me delas… Eram muito divertidas.

“A minha mãe era mais ‘sossegada’. Ou estava a trabalhar no estúdio ou a dançar no terraço”, conta Cas Willing

Em que sentido ser filha de Paula Rego determinou o seu percurso?

CAS: É difícil dizer, não tenho outra mãe. Crescemos numa casa enorme com os avós e as criadas. A minha avó era pequenina, mas eu tinha a impressão de que ela podia ganhar um combate com o Mike Tyson só com um raspanete. A minha mãe era a mais ‘sossegada’. Ou estava a trabalhar no estúdio ou a dançar no terraço. Os meus pais estavam sempre a falar de arte e de artistas. Éramos uma família de artistas.

A Cas formou-se em Artes, era impossível fugir-lhes?

CAS: O meu pai tinha esperança de que os filhos fizessem alguma coisa útil, em vez disso. Ler os clássicos na universidade de Oxford ou uma profissão que rendesse dinheiro. Ele sabia que a arte significava uma vida de pobreza e queria que fôssemos capazes de nos sustentar. Sobrevivemos graças à generosidade do meu avô. Infelizmente, nós crianças éramos tão “tontas” como o meu pai receava e tivemos de ir para artes. Foi a única coisa que gostei de fazer.

A Paula era rebelde e questionadora em criança?

PAULA: Eu era boa e obediente. Não respondia aos meus pais.

CAS: Mas fazias coisas às escondidas, não fazias?

PAULA: Sempre. Mas eles não sabiam. Até eu aparecer grávida.

Perfil: entre Inglaterra e Portugal
Paula Rego (1935) cresceu entre a Ericeira e o Estoril. Em 1952 foi estudar para a Slade School of Fine Art, em Londres, onde conheceu o pintor Victor Willing, com quem casou e teve três filhos: Caroline (Cas), Victoria e Nick. Os primeiros oito anos de Cas foram passados em Portugal e o português foi a primeira língua. Até à adolescência dos filhos, Paula e o marido viviam entre Inglaterra e Portugal. Em 1976, mudaram-se definitivamente para Londres. É lá que Paula tem o seu estúdio. “É o lugar para onde levo Portugal.”


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Catarina Pires, Notícias Magazine